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Exame de Português 2025 · 2.ª fase — item II.4, resolvido

Cotação 13 pontosEscolha múltiplaVerificado

Enunciado

Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2025 · 2.ª fase

Grupo II

Leia o texto e as notas.

Um busto de bronze de um português antigo entre umas rochas num jardim do Extremo Oriente. O que é isto, como se compreende isto? Wenceslau de Moraes deixou-nos uma descrição deste jardim tal como o encontrou em 1890: «Pedras amontoadas sobre pedras, constituindo um pequeno outeiro eriçado de arestas musgosas; abraçando-se ao granito, estendendo as raízes por entre os negros mamelões¹, soberbas árvores seculares; tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões, e que já de longe destaca, na aridez quase uniforme da costa, como um grande ramalhete de verdura.»

Não há grandiloquência neste texto. O Camões-histórico é referido como «um pobre procurador dos defuntos e ausentes» que deambulava por aquelas bandas e se refugiava à sombra de três grandes pedras, a suposta «gruta». A cidade de Macau, «pequenino domínio» português, vê-se reduzida a «uma língua de rocha, apenas percetível nas cartas geográficas». E, no entanto, este jardim tem uma qualquer grandeza, e essa grandeza vem do «encanto natural da posição dominante», dos «horizontes vastos», «da vegetação vigorosa que aqui encontra asilo, conchegada com as rochas contra a fúria inclemente dos tufões». O texto não é uma apoteose² camoniana, e ainda menos um ditirambo³ imperial; imbuído do espírito japonês, Moraes mostra-se sobretudo tocado pela serenidade de um jardim inesperado, «a face limosa⁴ das pedras abruptas», «a solidão das áleas⁵ sombreadas», «o encanto dos panoramas» de onde se veem as casas negras, a azáfama do porto, o fogo de artifício. Esta evocação paisagística abdica da faceta «patriótica», mas não deixa de ter o turbulento Camões como improvável patrono daquela tranquilidade, daquela ausência momentânea de amargura, que ele próprio nunca experimentou, e que nos deixa «compenetrados no respeito das coisas».

Três décadas mais tarde, a 10 de junho de 1924, outro grande «asiático» português, Camilo Pessanha, proferiu uma conferência intitulada «Macau e a gruta de Camões». Apesar da ocasião oficial, Pessanha evita igualmente o tom nacionalista. A grande questão que o preocupa é a possibilidade ou impossibilidade de um poeta continuar a ser poeta em terras distantes, uma vez que «a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes, no húmus⁶ do solo natal». Pessanha tem um entendimento bucólico, localista, da poesia, ou da sua origem, e não esconde o seu ceticismo: não há verdadeira capacidade poética quando a pátria está distante. A gruta de Camões suscita-lhe então uma ideia original: a do génio como ilusão de estar em casa.

Pedro Mexia, «Camões em Macau», Lá Fora, Lisboa, Edições Tinta-da-china, 2018, pp. 86-87.

NOTAS

  1. 1. mamelões – colinas; outeiros.
  2. 2. apoteose – homenagem grandiosa.
  3. 3. ditirambo – poesia de carácter elogioso.
  4. 4. limosa – coberta de algas.
  5. 5. áleas – ruas ladeadas por árvores.
  6. 6. húmus – matéria orgânica resultante da decomposição de detritos vegetais e animais.
II.4.

As palavras sublinhadas nas sequências «tal como o encontrou» (linha 3) e «uma qualquer grandeza, e essa grandeza» (linha 12) são mecanismos que contribuem para a coesão

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