O ponto de partida. O verbo da pergunta é referir: tens de dizer quais são os motivos do riso do sujeito poético. A frase de abertura do item já te dá duas pistas: o riso é irónico (ri-se de alguém ou de alguma coisa que considera ridícula) e as interrogações retóricas da primeira estrofe estão ao serviço dessa ironia. Os critérios pedem dois tópicos — e os dois são obrigatórios.
O poema é de Alberto Caeiro, o heterónimo de Pessoa que se apresenta como um homem do campo, sem estudos, que conhece o mundo só pelo que vê e sente. Toda a poesia dele assenta numa ideia: as coisas são o que parecem; não há nada escondido por trás delas.
1.º — ler a primeira estrofe
- vv. 1-3 — «O mistério das cousas, onde está ele? / Onde está ele que não aparece / Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?»: o sujeito poético pergunta onde está o tal «mistério das cousas» de que todos falam. Se existisse, havia de aparecer, nem que fosse para mostrar que é mistério. A pergunta não espera resposta: diz que esse mistério não existe. («cousas» é a forma antiga de «coisas».)
- vv. 4-5 — «Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? / E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?»: nem o rio nem a árvore sabem do mistério — e o sujeito poético, que se põe ao nível deles («que não sou mais do que eles»), também não. A natureza não guarda segredo nenhum.
- vv. 6-7 — «Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, / Rio como um regato que soa fresco numa pedra.»: aqui está o riso. «Rio» é o verbo rir (eu rio-me), e não o rio do v. 4 — Caeiro brinca com a palavra. Ri-se sempre que pensa no que os homens pensam das coisas: é dos homens, e do que eles imaginam, que ele se ri. E ri-se como um regato a correr numa pedra — de forma natural, leve, sem amargura.
2.º — tirar os dois motivos
Os dois tópicos dos critérios correspondem a estes dois momentos:
- o mistério não existe — o sujeito poético questiona o «mistério das cousas», que não se vê na natureza («Onde está ele que não aparece / Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?» — vv. 2-3), e dá a entender que ele não existe. Procurá-lo é, por isso, risível;
- ele não pensa como os outros homens — os homens, através do pensamento, atribuem às coisas significados ocultos (vv. 6-7); para ele, os sentidos são o único caminho para conhecer o mundo de forma objetiva. A última estrofe confirma-o: «eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos» (v. 15).
Repara que o segundo motivo é o que explica a ironia: o riso é de superioridade tranquila sobre os que complicam o que é simples.
3.º — escrever a resposta
Um parágrafo por motivo. No primeiro, as interrogações e a conclusão que elas sugerem (o mistério não existe), com a transcrição dos vv. 2-3. No segundo, a diferença entre o sujeito poético e os outros homens, com os vv. 6-7. Liga-os com um conector («Além disso», «Por outro lado») e fecha numa frase que responda à pergunta: de que se ri ele?
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível. O que conta é se abordas os dois tópicos e como — adequadamente ou com pequenas imprecisões e/ou omissões — e se a coesão do teu texto assegura a progressão das ideias:
- nível 5 — 10 pontos: os dois motivos, ambos adequados, num texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: os dois adequados mas com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou um adequado e outro com imprecisões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso com falhas de coesão, ou os dois imprecisos com boa coesão, ou só um motivo, adequado, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos com falhas de coesão, ou só um motivo adequado com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: só um motivo, com imprecisões.
O que separa um 10 de um 8 é, quase sempre, um dos motivos ficar a meio — por exemplo, dizer que o sujeito poético «se ri dos homens» sem explicar porquê (o pensamento que inventa sentidos ocultos contra os sentidos que conhecem o real). E um motivo só, por perfeito que seja, nunca passa dos 6 pontos.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Uma falha do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúscula/minúscula, regras de citação) ainda não custa nada; uma do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E atenção: zero no C-ED arrasta zero na CL — um texto bem escrito que não responde à pergunta não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Ler «Rio» (v. 7) como o rio do v. 4. É o verbo rir. Quem não o percebe não encontra o riso de que a pergunta fala.
- Dar as interrogações como dúvidas a sério. O sujeito poético não está a perguntar onde está o mistério porque quer saber; está a afirmar que ele não existe. Diz isso.
- Dizer só que ele se ri «dos homens». Falta o motivo: os homens pensam as coisas e atribuem-lhes sentidos ocultos, quando o conhecimento vem dos sentidos. Sem esta oposição o tópico fica com omissões.
- Inverter Caeiro. Escrever que o sujeito poético «procura o sentido profundo da natureza» é dizer o contrário do poema: para ele, «o único sentido oculto das cousas / É elas não terem sentido oculto nenhum» (vv. 8-9).
- Responder com um só motivo. A pergunta diz «os motivos», no plural, e os critérios pedem os dois.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar sem cumprir as regras de citação (erro do tipo A): a transcrição vai entre aspas, palavra por palavra — «cousas», e não «coisas», dentro das aspas —, com a mudança de verso marcada por « / » e a indicação do verso entre parênteses: «Onde está ele que não aparece / Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?» (vv. 2-3).
- Acentuação (erro do tipo A): «irónico», «poético», «retóricas», «mistério» levam acento; «ri-se» leva hífen.
- A vírgula entre o sujeito e o predicado (erro do tipo A): «O sujeito poético, ri-se dos homens» está errado; «O sujeito poético ri-se dos homens» está certo.
- Concordância (erro do tipo B): «as interrogações retóricas mostra que…» — o verbo concorda com «interrogações»: «mostram».
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): chamar «sarcasmo» ou «troça cruel» ao riso de Caeiro, que é leve e natural, «como um regato».
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Em Alberto Caeiro, sempre que aparecer «mistério», «sentido oculto», «significação» ou o verbo «pensar», a ideia por trás é a mesma: pensar é não ver; o mundo conhece-se pelos sentidos, e as coisas não escondem nada. As interrogações retóricas de Caeiro são afirmações disfarçadas, e a ironia dele é sempre dirigida a quem pensa as coisas em vez de as ver. Quando o item pede «os motivos», conta quantos são e dá-os todos, cada um com a sua transcrição.