O ponto de partida. O verbo é explicar: não chega dizer o que cada sujeito poético pensa da escrita, tens de mostrar como e porquê, com base no texto. A instrução tem três exigências, e cada uma vale pontos:
- em cada poema — a resposta tem duas partes, uma para o Poema 1 e outra para o Poema 2. Os critérios dizem-no à letra: dois tópicos, um relativo ao poema de Eugénio de Andrade e outro relativo ao poema de Alberto Caeiro;
- escritas diferentes — a própria pergunta avisa, entre travessões, que não se trata da mesma escrita: no Poema 1 é a escrita poética; no Poema 2 é a escrita de uma eventual biografia;
- transcrições textuais pertinentes — aqui a instrução exige citações. Uma resposta sem transcrições não cumpre o que foi pedido.
1.º — o Poema 1: a escrita como paixão e sustento
Eugénio de Andrade fala das palavras, que são a matéria da escrita poética. Relê os versos onde o sujeito poético diz o que a escrita foi para ele:
- vv. 10-11 — «Eu gosto delas, nunca tive outra / paixão»: a escrita é a única paixão da sua vida;
- vv. 11-13 — «e elas durante muitos anos / também gostaram de mim: dançavam / à minha roda quando as encontrava»: era uma relação de alegria e correspondência;
- vv. 14-15 — «Com elas fazia o lume, / sustentava os meus dias»: a escrita dava-lhe calor e sustento — era aquilo que dava sentido aos seus dias;
- vv. 6-9 — «Provavelmente fartaram-se da rédea, / não me perdoam / a mão rigorosa, a indiferença / pelo fogo de artifício»: e era um trabalho meticuloso, de controlo e de rigor, que recusava o efeito fácil.
A conclusão é clara: para este sujeito poético, a escrita poética tem uma importância enorme — é paixão, ofício rigoroso e razão de viver. Por isso o poema inteiro é uma espécie de lamento: agora que as palavras lhe fogem, é a sua própria vida que fica em causa.
2.º — o Poema 2: a biografia que não custa escrever
O poema de Caeiro não fala de escrever poesia; fala de alguém que, depois da morte do poeta, queira escrever a sua biografia. Repara no que o sujeito poético diz dessa tarefa:
- v. 1 — «Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,»: a oração condicional («Se») e o «quiserem» mostram que a biografia é uma hipótese, deixada a outros. Ele não está preocupado em escrevê-la;
- vv. 2-3 — «Não há nada mais simples. / Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.»: a biografia reduz-se a duas datas. É uma escrita simples e objetiva;
- v. 4 — «Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.»: entre as duas datas não há acontecimentos para contar — só dias vividos;
- vv. 5-6 — «Sou fácil de definir. / Vi como um danado.»: a vida dele resume-se a ver; e o v. 11 confirma que compreendeu o mundo «com os olhos, nunca com o pensamento».
Há ainda uma leitura mais fina, que os critérios também aceitam: ao dizer como deve ser a sua biografia, Caeiro acaba por escrevê-la ele próprio, nos vv. 1-4, quase como um epitáfio (a inscrição de uma lápide). E a simplicidade da escrita espelha a simplicidade da vida: frases curtas, vocabulário corrente, nenhuma imagem complicada.
3.º — escolher um tópico de cada lado
Os critérios dão quatro tópicos para cada poema. Precisas de um de cada:
- Poema 1: escrita como trabalho rigoroso (vv. 6 e 8); amor correspondido (vv. 10-12); alegria (vv. 12-13); sustento da existência (vv. 14-15);
- Poema 2: processo simples, de duas datas (vv. 2-3); vida fácil de definir, feita de ver (vv. 5, 6, 11); tarefa deixada a outros (v. 1); autobiografia/epitáfio em forma simples (vv. 1-4 ou 5-6).
Escolhe, em cada poema, o tópico que consegues fundamentar melhor com uma citação curta. A resposta de exame junta «paixão» e «sustento» (são dois aspetos da mesma ideia — a importância vital da escrita) e, em Caeiro, a simplicidade das duas datas, reforçada pelo «fácil de definir».
4.º — uma resposta de nível máximo
A resposta de exame é de nível 5 por quatro razões:
- trata os dois poemas, cada um no seu parágrafo, e diz para cada um qual é a perspetiva (importância vital; simplicidade e pouca importância);
- explica — não se fica pela citação: diz o que a citação mostra («A escrita é, pois, a grande paixão e o sustento do «eu»»);
- as transcrições são curtas, à letra, com barra na mudança de verso e com os versos indicados;
- fecha com uma frase que põe os dois lados frente a frente, com «enquanto». O item não pede comparação, mas a conclusão dá coesão ao texto.
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 no C-ED e 3 na CL.
No C-ED, um nível:
- nível 5 — 10 pontos: explica o modo como, em cada poema, o sujeito poético perspetiva a escrita, com os dois tópicos adequados e boa coesão;
- nível 4 — 8 pontos: os dois adequados mas com falhas de coesão, ou um adequado e outro com pequenas imprecisões;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso com falhas de coesão, ou os dois imprecisos, ou só um dos poemas tratado adequadamente;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos com falhas de coesão, ou só um poema, com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: só um poema, com imprecisões.
A consequência prática: esquecer um dos poemas custa, no mínimo, 4 pontos. É o erro mais caro deste item.
Na CL, a tabela deste item:
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Mais erros do que a tabela prevê → zero na CL. E zero no C-ED arrasta zero na CL.
onde se perdem pontos
- Tratar só um poema. É o nível 3 no melhor dos casos.
- Ler o Poema 2 como se falasse de poesia. A pergunta diz «de uma eventual biografia». Escrever que «Caeiro acha a poesia simples» é responder a outra pergunta.
- Dizer que a escrita é importante para os dois. No Poema 2, a escrita da biografia é justamente o contrário: simples, quase dispensável, deixada a quem a «quiser» escrever.
- Citar sem explicar. Uma transcrição sozinha não explica nada; cada citação tem de vir acompanhada do que ela mostra.
- Não fazer transcrições. A instrução pede-as («fundamentando a sua resposta em transcrições textuais pertinentes»). Parafrasear o poema não é transcrever.
- Transcrever versos inteiros e longos. Citações longas aumentam o risco de erros de cópia (que são erros do tipo A) e não acrescentam nada. Recorta só as palavras que provam a ideia.
Na correção linguística:
- Regras de citação (tipo A): aspas, transcrição exata (mantém «cousa», a grafia de Caeiro), barra na mudança de verso e indicação do verso.
- Nomes e títulos (tipo A): «Alberto Caeiro» e «Eugénio de Andrade» com maiúscula e acento; títulos de livros sublinhados.
- «Perspetiva» (tipo A): é a grafia correta, sem «c».
- Impropriedade lexical (tipo B): dizer que Caeiro «escreve a sua biografia num livro» ou que Eugénio de Andrade «odeia as palavras» troca o sentido do texto.
- Respostas em maiúsculas: cinco pontos a menos na prova inteira.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando um item diz «em cada poema», a resposta tem obrigatoriamente um bloco por poema, e os critérios exigem um tópico de cada. Lê também o que vem entre travessões ou parêntesis na pergunta: é muitas vezes aí que o IAVE te diz o que distingue os dois textos (aqui, escrita poética versus escrita de uma biografia). E quando a instrução diz «transcrições textuais», cada ideia leva a sua citação, curta e com o verso.