Exame de Português 2026 · 2.ª fase — item I.6, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2026 · 2.ª fase
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
Leia o texto e as notas.
MANUEL
Oh minha filha, minha filha! (Silêncio longo.) Desgraçada filha, que ficas órfã!... Órfã de pai e de mãe... (Pausa.)... e de família e de nome, que tudo perdeste hoje... (Levanta-se com violenta aflição.) A desgraçada nunca os teve! — Oh Jorge, que esta lembrança é que me mata, que me desespera! (Apertando a mão do irmão, que se levantou após dele e o está consolando do gesto.) É o castigo terrível do meu erro... se foi erro... crime sei que não foi. E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!
JORGE
Paciência, paciência: os seus juízos são imperscrutáveis¹. (Acalma e faz sentar o irmão: tornam a ficar ambos como estavam.)
MANUEL
Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra, posto de alvo à irrisão² e ao discursar do vulgo³?... Manuel de Sousa Coutinho, o filho de Lopo de Sousa Coutinho, o filho de nosso pai, Jorge!
JORGE
Tu chamas-te o homem mais infeliz da terra... Já te esqueceste que ainda está vivo aquele…
MANUEL, caindo em si
É verdade. (Pausa; e depois, como quem se desdiz.) Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente, e bebeu até às fezes o cálix⁴ das amarguras humanas... (Levantando a voz.) Mas fui eu, eu que lho preparei, eu que lho dei a beber, pelas mãos... inocentes mãos!... dessa infeliz que arrastei na minha queda, que lancei nesse abismo de vergonha, a quem cobri as faces — as faces puras, e que não tinham corado doutro pejo⁵ senão do da virtude e do recato... cobri-lhas de um véu d’infâmia que nem a morte há de levantar, porque lhe fica, perpétuo e para sempre, lançado sobre o túmulo a cobrir-lhe a memória de sombras... de manchas que se não lavam! — Fui eu o autor de tudo isto, o autor da minha desgraça e da sua desonra deles... Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum?
JORGE
Vê a palavra que disseste, «desonra»: lembra-te dela e de ti, e considera se podes pleitear⁶ misérias com esse homem a quem Deus não quis acudir com a morte antes de conhecer essoutra agonia maior. — Ele não tem...
MANUEL
Ele não tem uma filha como eu, desgraçado... (Pausa.) — uma filha bela, pura, adorada, sobre cuja cabeça — oh, porque não é na minha! — vai cair toda essa desonra, toda a ignomínia⁷, todo o opróbrio⁸ que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a mim, para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo que não tem outra culpa senão a da origem que eu lhe dei.
Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, edição de João Dionísio, Lisboa, INCM, 2022, pp. 237-239.
NOTAS
- 1. imperscrutáveis – insondáveis; misteriosos.
- 2. irrisão – chacota; escárnio; zombaria.
- 3. vulgo – povo.
- 4. cálix – cálice.
- 5. pejo – acanhamento; vergonha; pudor.
- 6. pleitear – disputar.
- 7. ignomínia – infâmia; desonra.
- 8. opróbrio – desonra e humilhação públicas.
Identifique, de entre as afirmações referentes à obra Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do excerto apresentado.
Assinale, na folha de respostas, as opções selecionadas.
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Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
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