O ponto de partida. O verbo da instrução é inferir. Inferir um traço de personalidade é chegar a ele a partir do que a personagem diz e faz — o texto não escreve «Manuel é religioso»; mostra-o a falar de Deus e de castigo, e és tu que tiras a conclusão. Por isso a resposta tem sempre duas peças por traço: o traço (um nome de qualidade: religiosidade, honra, integridade…) e a prova (a transcrição, com a linha). O item pede dois traços e exige «elementos textuais pertinentes»: sem citações, a inferência fica no ar.
Situa a cena. Estamos no Ato III de Frei Luís de Sousa. No fim do Ato II, o Romeiro revelou ser D. João de Portugal, o primeiro marido de D. Madalena, que todos julgavam morto em Alcácer Quibir. Com ele vivo, o casamento de Manuel e Madalena é nulo e Maria, a filha dos dois, passa a ser filha ilegítima — sem nome, sem família, sem honra. Manuel desabafa com o irmão, Frei Jorge. «aquele» (l. 16) e «esse homem» (l. 29) são D. João; «essa infeliz» (l. 21) e as «inocentes mãos» (l. 20) são de Madalena; a «filha» é Maria.
1.º — ler as falas de Manuel à procura de traços
Lê o excerto fala a fala e, em cada uma, pergunta: o que é que isto diz sobre quem fala? Repara que as linhas 1, 8, 11, 15, 17, 27 e 31 são os nomes das personagens — contam na numeração da margem.
- ll. 2-7 — a filha e o castigo. Manuel lamenta que Maria fique «Órfã de pai e de mãe... [...] e de família e de nome» (ll. 2-3) e conclui: «É o castigo terrível do meu erro... se foi erro... crime sei que não foi. E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!» (ll. 6-7). Lê a desgraça como castigo de Deus → religiosidade profunda.
- ll. 12-14 — o nome da família. «Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra, posto de alvo à irrisão e ao discursar do vulgo?... Manuel de Sousa Coutinho, o filho de Lopo de Sousa Coutinho, o filho de nosso pai, Jorge!» O que mais o fere é ser motivo de chacota do povo (irrisão, vulgo — notas 2 e 3) sendo quem é, filho de quem é → sentido de dignidade e de honra.
- l. 18 — a emenda. Jorge lembra-lhe que D. João está vivo e Manuel, «caindo em si» (l. 17), responde «É verdade.» e, «como quem se desdiz», corrige-se: «Mas não é, nem tanto» (l. 18). Ouve o argumento do outro e muda de raciocínio, mesmo no meio do desespero → racionalidade.
- ll. 18-26 — a culpa assumida. Admite que D. João «padeceu mais, padeceu mais longamente» (ll. 18-19) e assume-se como causa: «Mas fui eu, eu que lho preparei, eu que lho dei a beber» (l. 20); «Fui eu o autor de tudo isto, o autor da minha desgraça e da sua desonra deles...» (ll. 25-26). A repetição de «fui eu» é uma confissão → nobreza de carácter, integridade.
- ll. 32-36 — a filha. Desejaria que a desonra caísse sobre si e não sobre Maria: «oh, porque não é na minha!» (l. 33), «me não quer lançar no rosto a mim, / para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo» (ll. 34-35) → abnegação, altruísmo, e um amor paternal enorme.
Tens cinco traços possíveis — os cinco tópicos dos critérios. Precisas de dois. Escolhe os que tens mais bem provados: aqueles em que consegues pôr, lado a lado, o traço e uma citação que o mostre sem esforço.
2.º — construir a resposta
Um parágrafo por traço, sempre com a mesma arquitetura:
- nomeia o traço logo na primeira frase («Manuel revela uma profunda religiosidade»);
- explica de onde o inferes (o que ele diz ou faz, nesta situação concreta);
- cita, entre aspas, à letra, com a linha: «E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!» (ll. 6-7).
Abre o segundo parágrafo com um conector de adição («Em segundo lugar», «Além disso») — é isso que o corrector vê como progressão. Não precisas de introdução nem de conclusão: num item de resposta restrita não são exigidas.
3.º — uma resposta de nível máximo, comentada
A resposta de exame deste item escolhe a religiosidade e a nobreza de carácter. Repara no que a põe no nível 5:
- cada parágrafo começa pelo nome do traço — o corrector encontra-o sem procurar;
- as transcrições são curtas e exatas, e a linha vem logo a seguir; o «[...]» assinala que se cortou um bocado no meio da citação;
- há sempre uma frase de interpretação depois da citação («Para Manuel, o que lhe acontece não é obra do acaso, mas a vontade de Deus»): a citação prova, mas és tu que explicas;
- os dois parágrafos estão ligados por «Em segundo lugar» e a segunda ideia avança em relação à primeira (de Deus para a culpa pessoal).
Qualquer outro par de tópicos valeria o mesmo — por exemplo, honra (ll. 12-14) e abnegação (ll. 32-36). O que não vale é repetir o mesmo traço com outro nome: «religioso» e «crente em Deus» são um tópico, não dois.
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível, cruzando duas coisas: quantos tópicos tratas bem (dois adequados, um adequado e outro impreciso, dois imprecisos, só um) e se a coesão do teu texto assegura a progressão das ideias ou a compromete:
- nível 5 — 10 pontos: infere dois tópicos, ambos adequadamente, num texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: os dois tópicos adequados, mas com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou um adequado e outro com pequenas imprecisões e/ou omissões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso, com falhas de coesão, ou os dois imprecisos, com boa coesão, ou só um tópico, adequado, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos com falhas de coesão, ou só um tópico adequado com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: infere um só traço, com pequenas imprecisões e/ou omissões.
Repara no peso do número: um só tópico, por muito bem tratado que esteja, nunca passa do nível 3 (6 pontos). O item pede dois, e é o segundo que vale os outros quatro pontos.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Os erros do tipo A são de pontuação, ortografia (incluindo acentuação, translineação e maiúsculas/minúsculas), morfologia e incumprimento das regras de citação ou de referência a um título; os do tipo B são de sintaxe e de impropriedade lexical. Um erro do tipo A ainda não custa nada; um do tipo B custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E atenção: zero no C-ED arrasta zero na CL — um texto bem escrito que não responde ao que se pergunta não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Descrever em vez de inferir. «Manuel está muito triste e chora pela filha» descreve um estado de espírito; não nomeia um traço de personalidade. Um estado passa; um traço é o que a pessoa é. Diz «abnegação», «religiosidade», «sentido de honra».
- Nomear o traço sem prova. «Manuel é um homem honrado» sem uma transcrição é um tópico com omissões — o item pede expressamente «elementos textuais pertinentes».
- Citar sem explicar. Transcrever «Fui eu o autor de tudo isto» e passar ao seguinte deixa o corrector a adivinhar que traço querias provar.
- Dois traços que são um só. «Desespero» e «sofrimento» dizem o mesmo e, de resto, não são traços; «religiosidade» e «fé» também se sobrepõem.
- Confundir as personagens. «aquele» (l. 16) e «esse homem» (l. 29) são D. João de Portugal, não o Romeiro de outro qualquer, nem Telmo; «essa infeliz» (l. 21) é Madalena, não Maria. Uma troca destas torna o tópico impreciso.
- Usar o que sabes da obra e não está no excerto. O patriotismo de Manuel (o incêndio do palácio, no Ato I) é verdadeiro, mas o item pede traços «evidenciados no excerto apresentado».
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar sem cumprir as regras de citação (erro do tipo A): entre aspas, à letra — incluindo as formas da época, como «me não quer lançar» ou «d’infâmia» —, com «[...]» se cortares no meio, e com a linha.
- O título da obra sem destaque (erro do tipo A): Frei Luís de Sousa é um título — na folha, sublinhado ou entre aspas.
- Maiúsculas (erro do tipo A): «Deus», «D. João de Portugal», «Manuel de Sousa Coutinho».
- Concordância (erro do tipo B): «Manuel e o irmão conversa» — o sujeito é composto: «conversam».
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Um item que te pede para inferir traços de uma personagem resolve-se com uma tabela mental de duas colunas: à esquerda, o que a personagem diz ou faz; à direita, a qualidade que isso revela. Num texto dramático, olha também para as didascálias («caindo em si», «como quem se desdiz»): dizem muito sobre quem fala. E em Frei Luís de Sousa, Manuel é sempre o homem da honra e da dignidade — no Ato I contra os governadores castelhanos, aqui contra a sua própria desonra.