O ponto de partida. Este item junta duas coisas: o que sabes da lírica de Camões (as Rimas, estudadas no 10.º ano) e um género escolar, a exposição sobre um tema. Não há texto para ler na prova: a matéria vem da tua experiência de leitura. O verbo é comprovar: tens de mostrar, com exemplos de poemas, que a afirmação é verdadeira — que vários poemas de Camões refletem sobre aspetos da existência humana (sentimentos, experiências pessoais, relação com os outros).
O enunciado dá-te o plano em três pontos, e os três são avaliados:
- uma introdução ao tema — apresentas a ideia de que a lírica camoniana é reflexão sobre a vida humana;
- um desenvolvimento com duas reflexões, cada uma fundamentada com referência a poemas lidos;
- uma conclusão adequada.
escolher as duas reflexões
Os critérios dão sete exemplos de reflexões, «ou outros igualmente relevantes». Escolhe as duas em que tens poemas e versos seguros na memória. As mais fáceis de fundamentar:
- o amor e as suas contradições — o soneto «Amor é fogo que arde sem se ver» define o amor por paradoxos: «é ferida que dói, e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer»; e em «Tanto de meu estado me acho incerto» o sujeito vive opostos simultâneos: «em vivo ardor tremendo estou de frio», «Estando em terra, chego ao Céu voando». O amor é sofrimento e felicidade ao mesmo tempo;
- a saudade da amada morta — «Alma minha gentil, que te partiste / tão cedo desta vida descontente», em que o poeta fica «cá na terra sempre triste»: a morte levou a amada cedo de mais e deixou-o em tristeza profunda;
- o destino e a má Fortuna — «Erros meus, má Fortuna, amor ardente / em minha perdição se conjuraram»: os erros próprios, o azar e o amor juntaram-se para a perdição do poeta;
- a vida desventurada — «O dia em que eu nasci moura e pereça»: o poeta amaldiçoa o dia do seu nascimento, porque esse dia «deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu»;
- o desconcerto do mundo — a esparsa «Os bons vi sempre passar / no mundo graves tormentos; / e pera mais me espantar, / os maus vi sempre nadar / em mar de contentamentos»: o mal triunfa sobre o bem;
- a mudança — «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»: tudo muda, e o próprio mudar muda, e sempre para pior para o sujeito.
Escolhe duas que sejam diferentes entre si. «O amor contraditório» e «a saudade da amada» são ambas sobre o amor; servem, mas a exposição fica mais rica se juntares uma reflexão sobre o sentimento (o amor) e outra sobre a relação com o mundo (o desconcerto, a Fortuna, a mudança). A resposta de exame escolhe o amor e o desconcerto.
1.º — a introdução
Duas ou três frases. Apresenta o tema (Camões parte da experiência pessoal para refletir sobre a condição humana) e anuncia, sem desenvolver, os aspetos que vais tratar. Não comeces pelos exemplos: a introdução enquadra, não prova.
2.º — o desenvolvimento: uma reflexão por parágrafo
Cada parágrafo tem a mesma estrutura:
- a reflexão, dita numa frase clara («Camões reflete sobre as emoções contraditórias geradas pelo amor»);
- o poema, identificado pelo primeiro verso entre aspas (é assim que se identificam os sonetos de Camões, que não têm título);
- a fundamentação: uma ou duas citações curtas e o que elas mostram;
- o sentido: o que essa reflexão diz sobre a existência humana.
Abre cada parágrafo com um conector de enumeração («Em primeiro lugar», «Em segundo lugar», «Por outro lado»). É a forma mais segura de o corrector ver que há duas reflexões distintas.
3.º — a conclusão
Uma ou duas frases que retomem as duas reflexões e fechem a ideia da introdução («Em suma, …»). Uma conclusão que acrescenta uma terceira reflexão nova não é conclusão — é desenvolvimento fora do sítio.
4.º — uma resposta de nível máximo
A resposta de exame é de nível máximo nos três parâmetros:
- C (8): duas reflexões distintas e adequadas — as emoções contraditórias do amor e o desconcerto do mundo —, cada uma ancorada em poemas concretos e citações exatas;
- ED (3): três partes nítidas e proporcionadas (introdução curta, dois parágrafos de desenvolvimento equilibrados, conclusão curta), com conectores que fazem progredir o texto;
- CL (2): frases simples e corretas, citações entre aspas, primeiros versos a identificar os poemas.
Repara que não é longa: cerca de 200 palavras chegam. O item é de resposta restrita e vale 13 pontos — o mesmo que os outros.
como este item é corrigido
São 13 pontos em três grelhas que somam: Conteúdo (C) 8, Estruturação do discurso (ED) 3 e Correção linguística (CL) 2.
No C:
- nível 4 — 8 pontos: duas reflexões explicitadas adequadamente;
- nível 3 — 6 pontos: duas reflexões, uma adequada e outra com pequenas imprecisões;
- nível 2 — 4 pontos: duas com imprecisões, ou só uma adequada;
- nível 1 — 2 pontos: só uma, com imprecisões.
No ED:
- nível 3 — 3 pontos: texto bem estruturado, com introdução, desenvolvimento e conclusão proporcionadas, e coesão que assegura a progressão;
- nível 2 — 2 pontos: as três partes com desequilíbrios de proporção e/ou falhas de coesão que não comprometem o conjunto;
- nível 1 — 1 ponto: texto insuficientemente estruturado ou com falhas de coesão que comprometem a progressão.
Na CL, a tabela deste item é mais apertada (só 2 pontos):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 2 | 2 | 1 | 1 |
| 1 | 1 | — | — | — |
Um erro do tipo B já custa um ponto; dois erros do tipo B, ou mais erros do que a tabela prevê, dão zero. E zero no C arrasta zero na CL.
onde se perdem pontos
- Uma só reflexão. Vale no máximo 4 pontos no C. Conta-as antes de escrever.
- Duas reflexões que são a mesma. «O amor faz sofrer» e «o amor é contraditório» desenvolvidos como se fossem duas coisas são, para o corrector, uma reflexão.
- Falar de Camões sem poemas. A instrução exige que cada reflexão seja fundamentada «com referência a poemas lidos». Sem identificar o poema (pelo primeiro verso) e sem citar, a reflexão fica com imprecisões.
- Usar *Os Lusíadas*. O item pede a lírica — sonetos, redondilhas, esparsas, canções. Os episódios d’Os Lusíadas não contam.
- Citar de memória com erros. Uma citação errada é um erro de citação (tipo A). Se não tens a certeza das palavras, parafraseia sem aspas, em vez de inventar.
- Saltar a introdução ou a conclusão. É o parâmetro ED que paga: sem uma delas, desces de nível.
- Resumir os poemas em vez de refletir. O que se pede é o que o poema pensa sobre a vida humana, não a história que conta.
Na correção linguística:
- Regras de citação (tipo A): aspas, à letra; o primeiro verso entre aspas a identificar o soneto.
- Títulos (tipo A): Rimas e Os Lusíadas sublinhados à mão.
- Concordância (tipo B): «os sonetos de Camões revela» — o sujeito é plural.
- Respostas em maiúsculas: cinco pontos a menos na prova inteira.
para reconhecer o próximo item deste tipo
A exposição do Grupo I é sempre o mesmo esqueleto: introdução, dois aspetos com poemas/obras, conclusão. Antes do exame, prepara para cada autor do programa duas ou três ideias centrais, cada uma com um poema identificado e uma citação curta que sabes de cor. Para Camões lírico: o amor contraditório («Amor é fogo que arde sem se ver»), a saudade («Alma minha gentil, que te partiste»), a Fortuna («Erros meus, má Fortuna, amor ardente»), o desconcerto («Os bons vi sempre passar») e a mudança («Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»). Com isto, qualquer exposição sobre a lírica camoniana se escreve em quinze minutos.