Exame de Português 2026 · Época especial — item I.7, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2026 · Época especial
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
Tal como Eça de Queirós e Ruy Belo, também Luís de Camões refletiu sobre Portugal e os portugueses ao escrever a sua epopeia.
Escreva uma breve exposição na qual comprove a veracidade da afirmação anterior, baseando-se na sua experiência de leitura de Os Lusíadas.
A sua exposição deve incluir:
- uma introdução ao tema;
- um desenvolvimento no qual explicite duas reflexões do Poeta sobre o seu país e os seus contemporâneos, fundamentando cada um dos aspetos referidos em, pelo menos, um exemplo significativo;
- uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Em Os Lusíadas, Luís de Camões não se limita a cantar os feitos gloriosos dos portugueses: em várias reflexões, o Poeta interrompe a narração para pensar criticamente sobre o seu país e os seus contemporâneos. Entre essas reflexões, destacam-se a crítica ao desprezo pelas artes e a crítica ao poder corruptor do ouro.
Em primeiro lugar, no final do Canto V, Camões lamenta que os portugueses desprezem as artes e as letras, não correspondendo ao ideal renascentista do homem que alia as armas às letras. Para os incitar a mudar, recorda heróis da Antiguidade que, a par das façanhas guerreiras, cultivavam as letras, como Otávio, que compunha versos apesar de absorvido pelo governo do império, ou Júlio César, que escrevia durante a campanha da Gália, tendo «numa mão a pena e noutra a lança».
Em segundo lugar, no final do Canto VIII, o Poeta critica o poder do ouro, esse «metal luzente e louro» capaz de corromper tanto ricos como pobres. O dinheiro transforma amigos em traidores, leva a entregar capitães aos inimigos, cega as consciências e conduz à adulteração das leis, a ponto de o próprio clero ser seduzido por «este encantador».
Em suma, em Os Lusíadas, a exaltação da pátria convive com um olhar crítico sobre os portugueses do tempo do Poeta, a quem Camões aponta defeitos que os afastam da grandeza dos seus antepassados.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Este item não tem texto para analisar: mede o que leste e estudaste de Os Lusíadas, e pede-o na forma de uma exposição — um texto que apresenta um tema de forma organizada e objetiva, sem a tua opinião pessoal. A afirmação de partida diz que Camões, como Eça e Ruy Belo, refletiu sobre Portugal e os portugueses; a tua tarefa é comprovar que é verdade.
O enunciado dá-te o plano completo, e cada linha dele é uma exigência:
- uma introdução ao tema;
- um desenvolvimento com duas reflexões do Poeta sobre o seu país e os seus contemporâneos, cada uma fundamentada em, pelo menos, um exemplo significativo;
- uma conclusão.
Repara em duas palavras. «do Poeta»: não são os discursos das personagens (Vasco da Gama, o Velho do Restelo, Inês de Castro), mas os momentos em que o próprio narrador-poeta interrompe a narração para comentar — as chamadas reflexões do Poeta, quase sempre no fim dos cantos. E «seus contemporâneos»: os portugueses do século XVI, do tempo de Camões, não os heróis da viagem de 1497-1499.
1.º — recordar as reflexões do Poeta
As reflexões estão espalhadas pela epopeia e têm um ar de família: o Poeta compara a grandeza passada com a mediocridade presente e aponta defeitos aos portugueses do seu tempo. As que os critérios propõem:
- o desprezo pelas artes e pelas letras (Canto V, estâncias 92 a 100) — os portugueses fazem grandes feitos, mas não cultivam as letras, e por isso ninguém os canta como merecem. O Poeta lembra os heróis antigos que eram ao mesmo tempo guerreiros e homens de letras: Otávio (o imperador Augusto), que compunha versos apesar de absorvido pelo governo do império, e Júlio César, que escrevia durante a campanha da Gália, com «numa mão a pena e noutra a lança». O ideal é o do homem renascentista, que alia as armas às letras;
- o poder corruptor do ouro (Canto VIII, estâncias 96 a 99) — a propósito da tentativa de corrupção do Catual em Calecute, o Poeta generaliza: o dinheiro, «metal luzente e louro», corrompe ricos e pobres, faz traidores dos amigos, leva a entregar capitães aos inimigos, cega as consciências, perverte a interpretação das leis e seduz até o clero — «este encantador»;
- a pátria insensível e mergulhada na tristeza (Canto X, estâncias 145 e seguintes) — no fecho do poema, o Poeta queixa-se de que vem «cantar a gente surda e endurecida» e de que a pátria está «metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Dũa austera, apagada e vil tristeza». Mas exorta D. Sebastião a alegrar-se por ter vassalos excecionais e a recompensá-los, porque estão dispostos a dar a vida pelo rei.
Os critérios aceitam «outros [tópicos] igualmente relevantes». Também servem, desde que bem fundamentadas, outras reflexões do Poeta: a da verdadeira glória, que se alcança pelo esforço e não pela herança dos antepassados nem pelo ócio (Canto VI, estâncias 95 a 99), ou as queixas do Poeta contra os que o deixam sem recompensa e só servem o próprio interesse (Canto VII, estâncias 78 a 87).
2.º — escolher as duas reflexões
Escolhe as duas que melhor conheces e sobre as quais consegues dar um exemplo concreto. O par desprezo pelas letras + poder do ouro é o mais fácil de fundamentar: o primeiro tem os exemplos de Otávio e César, o segundo tem uma lista de efeitos concretos do ouro. A do Canto X é igualmente boa e tem os versos mais conhecidos — «apagada e vil tristeza» —, mas não te limites à citação: diz o que ela revela sobre o país.
O que é um «exemplo significativo»? Algo concreto que prove a reflexão: um episódio, uma figura evocada, um verso citado com rigor, a indicação do canto. «Camões critica os portugueses em vários momentos» não prova nada; «no final do Canto V, Camões lembra que Júlio César escrevia durante a guerra da Gália» prova.
3.º — a introdução
Apresenta o tema e liga-o à afirmação: Os Lusíadas não são só um canto de glória — o Poeta também reflete criticamente sobre o seu país. Anuncia, se quiseres, as duas reflexões que vais tratar. Uma ou duas frases chegam.
4.º — o desenvolvimento: uma reflexão por parágrafo
Cada parágrafo faz três coisas, por esta ordem:
- nomeia a reflexão («Camões lamenta que os portugueses desprezem as letras»);
- explica-a (porque é que isso é um defeito, o que o Poeta quer que mudem);
- fundamenta-a com o exemplo: o canto, a figura ou o episódio, um verso citado com rigor se te lembrares.
Escolhe reflexões que não se sobreponham. «O poder do ouro» e «a pátria metida no gosto da cobiça» (Canto X) tocam-se; se escolheres as duas, separa-as bem — uma é a corrupção pelo dinheiro, a outra a apatia e a insensibilidade da pátria ao canto do Poeta.
5.º — a conclusão
Fecha o raciocínio: em Os Lusíadas, a exaltação da pátria convive com a crítica aos portugueses do presente, e é isso que comprova a afirmação inicial. Não acrescentes reflexões novas nem repitas a introdução palavra por palavra.
6.º — escrever: partes, parágrafos, coesão
Quatro parágrafos: introdução, uma reflexão, outra reflexão, conclusão. Partes visíveis e proporcionadas — o desenvolvimento é o corpo do texto; a introdução e a conclusão são curtas. Conectores que marquem a organização: «Em primeiro lugar», «Em segundo lugar», «Em suma». Registo expositivo: terceira pessoa, presente, sem «eu acho».
como este item é corrigido
São três parâmetros que somam: conteúdo (C, 8 pontos), estruturação do discurso (ED, 3 pontos) e correção linguística (CL, 2 pontos).
No C, o corretor procura duas reflexões do Poeta, cada uma explicitada adequadamente:
- nível 4 — 8 pontos: duas reflexões adequadas;
- nível 3 — 6 pontos: duas reflexões, uma adequada e a outra com pequenas imprecisões e/ou omissões;
- nível 2 — 4 pontos: duas reflexões, ambas com imprecisões, ou uma só, adequada;
- nível 1 — 2 pontos: uma só reflexão, com imprecisões.
Uma reflexão sem exemplo é uma reflexão com omissões: o enunciado pede que cada uma seja fundamentada «em, pelo menos, um exemplo significativo». O que separa o 8 do 6 é, quase sempre, uma das reflexões ter ficado sem exemplo ou com um exemplo vago.
No ED: 3 pontos para três partes proporcionadas e coesão que assegura de modo global a progressão; 2 se houver desequilíbrios de proporção ou falhas de coesão que não a comprometem de modo global; 1 para um texto insuficientemente estruturado.
No CL, contam-se os erros do tipo A (pontuação, ortografia e acentuação, morfologia, citação e referência a títulos de obras) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lê-se a tabela:
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|---|---|---|---|
| 0 | 2 | 2 | 1 | 1 |
| 1 | 1 | — | — | — |
Sem erros ou com um do tipo A, 2 pontos; dois ou três do tipo A, 1 ponto; um do tipo B sem nenhum do tipo A, 1 ponto; qualquer outra combinação, 0. E zero no C arrasta zero no CL.
onde se perdem pontos
- Usar as personagens em vez do Poeta. O discurso do Velho do Restelo (Canto IV) critica a ambição e a cobiça, mas é de uma personagem, não uma reflexão do Poeta. O mesmo vale para as falas do Gama. Se o usares, arriscas uma imprecisão; prefere sempre os momentos em que fala o Poeta.
- Falar dos heróis em vez dos contemporâneos. Contar a viagem, os feitos de Vasco da Gama ou a batalha de Aljubarrota é falar da glória passada. O item pede o que o Poeta pensa do seu país, no seu tempo.
- Reflexões sem exemplo. «Camões critica os portugueses por não valorizarem a cultura» é uma reflexão por fundamentar. Diz onde (o canto) e dá a figura, o episódio ou o verso.
- Citar mal. Um verso deturpado é uma referência imprecisa e um erro de citação. Se não tens a certeza das palavras exatas, não as ponhas entre aspas: descreve a passagem e indica o canto.
- Dar a tua opinião. É uma exposição, não um texto de opinião: «na minha opinião, Camões tem razão» está fora do género.
- Saltar a introdução ou a conclusão. As três partes são pedidas e pesam no ED.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Título da obra sem destaque (erro do tipo A): Os Lusíadas em itálico (ou sublinhado, ou entre aspas, se escreves à mão), sempre com o artigo e com maiúscula.
- Concordância com o título (erro do tipo B): Os Lusíadas é um título plural; «Os Lusíadas mostram» e «a epopeia mostra» estão certos, mas não os mistures na mesma frase.
- Ortografia (erro do tipo A): «epopeia» (sem acento, segundo o Acordo), «renascentista», «estância», «Poeta» com maiúscula quando designa o narrador.
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): chamar «estrofe» a um canto, «personagem» ao Poeta, ou «romance» à epopeia.
para reconhecer o próximo item deste tipo
A Parte C pede sempre uma exposição de três partes sobre uma obra do programa, com exemplos concretos. Prepara Os Lusíadas por planos: o da viagem, o da história de Portugal, o dos deuses e o do Poeta. Neste último, guarda as reflexões com o canto e um exemplo para cada uma: Canto I (a fragilidade do ser humano), Canto V (o desprezo pelas letras — Otávio e César), Canto VI (a verdadeira glória), Canto VII (as queixas do Poeta), Canto VIII (o poder do ouro), Canto X (a «apagada e vil tristeza» e a exortação a D. Sebastião). Com isto preparado, qualquer item sobre «o Poeta e o seu país» tem resposta.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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