Exame de Português 2026 · Época especial — item I.1, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2026 · Época especial
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
Leia a contextualização, os dois textos e as notas. A fim de facilitar a eventual referência a elementos textuais, as linhas são numeradas sequencialmente.
Contextualização
No excerto de Os Maias a seguir apresentado, o protagonista do romance, Carlos da Maia, regressa a Lisboa dez anos após ter partido para o estrangeiro.
Por seu lado, no excerto de A Ilustre Casa de Ramires selecionado, três amigos do protagonista, Gonçalo Mendes Ramires, conversam sobre o carácter desta personagem.
Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lajedo; batedores¹ de chapéu à faia fustigavam as pilecas²; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca³, politicando.
— Isto é horrível, quando se vem de fora! — exclamou Carlos. — Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!...
— Todavia Lisboa faz diferença — afirmou Ega, muito sério. – Oh, faz muita diferença! Hás de ver a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar uma volta à Avenida.
Foram descendo o Chiado. Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com colarinhos à moda. Depois, diante da Livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou no braço de Carlos:
— Olha quem ali está, à porta do Baltreschi⁴!
Era o Dâmaso. O Dâmaso, barrigudo, nédio⁵, mais pesado, de flor ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto e feliz. Ao avistar também os seus dois velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, achou-se em frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha, que se lhe esbraseara.
— Olá, por cá!... Que grande surpresa!
Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo também, indiferente e esquecido.
Eça de Queirós, Os Maias, Edição «Livros do Brasil», Lisboa, pp. 697-698.
Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco⁶ à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:
— Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor padre Soeiro quem ele me lembra?
— Quem?
— Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor padre Soeiro... Os fogachos⁷ e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro⁸ quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris⁹, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre¹⁰, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
— Quem?...
— Portugal.
Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, Edição «Livros do Brasil», Lisboa, pp. 361-362.
NOTAS
- 1. batedores – pessoas que, na praça de carruagens, tomavam conta dos animais, enquanto o cocheiro descansava.
- 2. pilecas – cavalos, éguas ou machos muito magros e com mau aspeto.
- 3. sobrecasaca – casaco do vestuário masculino, de cerimónia, abotoado na cintura e com abas até ao joelho.
- 4. Baltreschi – pastelaria conceituada no século XIX, onde se reuniam a aristocracia e a alta burguesia lisboetas.
- 5. nédio – anafado; gordo.
- 6. coco – chapéu duro, de copa redonda e aba curvada.
- 7. fogachos – chamas súbitas e pouco duradouras; impulsos.
- 8. aferro – dedicação; grande apego.
- 9. pueris – infantis.
- 10. sua velha Torre – referência à Torre anexa à casa da família Ramires.
Quando Carlos encontra Dâmaso (linhas 18 a 25), este apresenta uma atitude ambivalente, reveladora de impulsos contraditórios. Descreva essa atitude.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
Como te correu?
Este tópico tem mais 2 exercícios resolvidos
Ler um resolve hoje; fazer o tópico inteiro é o que muda a nota.
- ✓Treinar o tópico inteiro, um a um
- ✓O que erras volta sozinho, no dia em que ias esquecer
- ✓Fazer o exame completo a tempo, como no dia
- ✓Ver o que já sabes, tópico a tópico