O ponto de partida. O Grupo III vale 44 pontos — mais de um quinto da prova — e pede um texto de opinião entre 200 e 350 palavras. A afirmação de partida apresenta duas perspetivas opostas sobre a mudança: para uns, é «a essência da vida»; para outros, é «fonte de intranquilidade e de desassossego». Tens de defender uma perspetiva pessoal sobre essa afirmação — e isso pode ser uma das duas, ou uma posição matizada (a mudança é essencial, apesar do desassossego que traz), desde que seja clara.
Lê as instruções como uma lista de verificação, porque é isso que elas são — cada travessão é um aspeto que o corretor procura no parâmetro A:
- o teu ponto de vista, explícito, claro e pertinente;
- dois argumentos, cada um ilustrado com um exemplo significativo;
- discurso valorativo — juízos de valor, explícitos («é admirável», «é injusto») ou implícitos (pela escolha das palavras);
- uma conclusão adequada à argumentação.
1.º — perceber o tema antes de escolher a posição
«Mudança» é uma palavra larga: pode ser a mudança pessoal (mudar de casa, de escola, de país, de ideias, crescer), a mudança social e histórica (revoluções, conquistas de direitos, transformações tecnológicas), a mudança natural (as estações, o envelhecimento). Um bom texto não precisa de falar de todas, mas os dois argumentos ficam mais fortes se vierem de planos diferentes — um individual, outro coletivo, por exemplo. É isso que dá ao texto a «mobilização de argumentos e de exemplos diversificados» que o parâmetro B valoriza.
Repara também no par de palavras do lado negativo: «intranquilidade» e «desassossego». Um texto que defenda a mudança ganha muito em reconhecer esse lado (a mudança assusta, custa) antes de o superar — é uma forma de argumentar com honestidade e mostra que leste a afirmação inteira.
2.º — planear: tese, dois argumentos, dois exemplos
Antes de escrever, faz o esqueleto no rascunho. Por exemplo, para a posição «a mudança é a essência da vida»:
- tese: a mudança é essencial, apesar do desconforto que provoca;
- argumento 1 (plano individual): é pela mudança que cada pessoa cresce e descobre as suas capacidades → exemplo: os jovens que saem de casa para estudar noutra cidade ou com o programa Erasmus;
- argumento 2 (plano coletivo): as sociedades progridem quando recusam deixar tudo como está → exemplo: o 25 de Abril de 1974, que trouxe incerteza mas também liberdade;
- conclusão: a intranquilidade é o preço de estarmos vivos.
Se preferires a posição contrária, o esqueleto é o mesmo: por exemplo, «a mudança constante gera ansiedade» (exemplo: a pressão de estar sempre atualizado nas redes sociais e no trabalho) e «a estabilidade é necessária para construir laços» (exemplo: as amizades e as comunidades que se desfazem com mudanças sucessivas). O que importa não é qual posição defendes, mas como a defendes.
3.º — o que faz um bom exemplo
Um exemplo ilustra o argumento: torna-o concreto, verificável, reconhecível. «Há muitas pessoas que mudam e ficam melhores» não é um exemplo, é o argumento repetido. Um exemplo tem uma situação concreta — um facto histórico, uma experiência comum identificável, uma figura pública, uma obra lida. E tem de estar ligado ao argumento por uma frase que diga porque o prova.
Os exemplos da literatura que estudaste também servem e impressionam o corretor, se forem pertinentes: o Portugal que «nada mudara» de Os Maias (o atraso de um país que não muda) ou o «portugal futuro» de Ruy Belo (a esperança na mudança) — que, aliás, estão nesta mesma prova.
4.º — escrever: a estrutura em quatro ou cinco parágrafos
- Introdução (1 parágrafo): apresenta o tema e a tua tese, de forma explícita («considero que…», «defendo que…»). Podes começar por reconhecer a outra perspetiva.
- Desenvolvimento (2 parágrafos): um por argumento. Cada um abre com o argumento numa frase, desenvolve-o, apresenta o exemplo e liga o exemplo ao argumento.
- Refutação (opcional, pode ir na conclusão): reconhece a objeção (a mudança assusta) e responde-lhe.
- Conclusão (1 parágrafo): retoma a tese à luz dos argumentos e fecha com uma ideia forte. Nada de argumentos novos.
Conectores que marcam a organização: «Em primeiro lugar», «Em segundo lugar», «É certo que… Porém…», «Por isso», «Em suma». São eles que o parâmetro C avalia na «articulação interfrásica».
5.º — o discurso valorativo
É um dos aspetos do parâmetro A, e esquece-se muito. Um texto de opinião avalia: usa adjetivos e advérbios valorativos («um exemplo admirável», «uma guerra injusta», «o preço justo», «verdadeiramente vivos»), verbos de opinião («considero», «defendo») e modalizadores («é certo que», «devemos»). Sem isto, o texto fica expositivo — e falha um aspeto do género.
6.º — contar as palavras
Entre 200 e 350. Cada palavra a mais ou a menos desconta um ponto, até cinco; abaixo de 80 palavras, o texto vale zero. Uma palavra é qualquer sequência entre espaços — «dir-se-ia» conta uma, «2026» conta uma. Conta no rascunho; não te arrisques a ficar nos 190 ou nos 360. A resposta modelo tem cerca de 250 palavras: folga para os dois lados.
como este item é corrigido
São quatro parâmetros que somam: A (Género/Formato Textual, 10), B (Tema e Pertinência da Informação, 10), C (Organização e Coesão Textuais, 10) e CL (correção linguística, 14).
A — o género. É a lista de verificação das instruções:
- nível 4 — 10 pontos: ponto de vista explícito, dois argumentos distintos, cada um com exemplo, discurso valorativo, conclusão adequada;
- nível 3 — 8 pontos: dois argumentos mas só um ilustrado, com o resto assegurado; ou dois argumentos ilustrados mas falhas em um ou dois dos outros aspetos;
- nível 2 — 5 pontos: um só argumento, ilustrado, com o resto assegurado; ou dois argumentos, só um ilustrado, e falhas em um ou dois dos outros aspetos;
- nível 1 — 3 pontos: falhas no conjunto, ou marcas de outros géneros misturadas sem critério.
A nota dos critérios diz que a pertinência dos argumentos e exemplos se avalia no B, não no A: no A conta-se se existem.
B — o tema e a eficácia argumentativa. 10 pontos se tratas o tema sem desvios, com argumentos e exemplos diversificados e pertinentes, progressão coerente e vocabulário adequado; 8 com falhas pontuais ou desvios pouco significativos; 5 com desvios e falhas, ou falhas significativas; 3 com desvios significativos e pouca informação pertinente. Um texto sobre «a mudança climática» ou sobre «mudar de telemóvel» sem ligação à ideia de mudança como essência da vida ou como fonte de desassossego é um desvio.
C — a organização. 10 pontos para partes proporcionadas e articuladas, parágrafos bem marcados, conectores adequados, cadeias de referência mantidas (pronomes e sinónimos que retomam o que já disseste) e coordenadas de enunciação coerentes (não saltar do «eu» para o «nós» sem razão, nem do presente para o passado); 8 com falhas pontuais em um ou dois desses aspetos; 5 com falhas em três ou mais, ou falhas significativas; 3 para uma organização pouco satisfatória.
CL — a correção linguística. Contam-se os erros do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúsculas, morfologia, citação) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lê-se a tabela:
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
|---|
| 0 | 14 | 14 | 14 | 11 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 |
| 1 | 14 | 11 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — |
| 2 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — |
| 3 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — |
| 4 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 6 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 7 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
Lê-a assim: até dois erros do tipo A sem nenhum do tipo B, os 14 pontos ficam inteiros; cada grupo de três erros do tipo A custa três pontos; um erro do tipo B pesa mais do que um do tipo A. Com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero.
E as regras do zero: zero no A ou no B arrasta zero em todos os outros parâmetros, incluindo a CL. Um texto que não é de opinião, ou que não trata o tema, vale zero inteiro — por bem escrito que esteja.
Por fim, os descontos das palavras aplicam-se depois de tudo isto: um ponto por palavra fora dos limites, até cinco.
onde se perdem pontos
- Não dizer qual é a tua posição. Um texto que expõe as duas perspetivas («para uns… para outros…») e nunca toma partido não é um texto de opinião. A tese tem de estar escrita, de preferência logo na introdução.
- Argumento sem exemplo, ou exemplo sem argumento. O A pede dois argumentos, cada um com um exemplo. Falta um exemplo → nível 3 (8). Um só argumento → nível 2 (5).
- Dois argumentos que são o mesmo. «A mudança faz-nos crescer» e «a mudança faz-nos evoluir» são um argumento só, e o A conta-o como um.
- Exemplos genéricos. «Por exemplo, uma pessoa que muda de vida» não ilustra nada. Dá um caso concreto.
- Fugir ao tema. Falar de «mudanças climáticas» ou de «mudar de opinião nas redes sociais» sem relacionar com a ideia de mudança como essência da vida ou como desassossego é desvio — e desvios descem o B.
- Esquecer o discurso valorativo. Um texto neutro, só com factos, falha um aspeto do A.
- Conclusão que é um resumo ou que traz uma ideia nova. A conclusão retoma a tese à luz dos argumentos; não abre outro assunto.
- Não contar as palavras. 190 palavras custam 10 pontos? Não — custam cinco (o máximo). Mas 60 palavras custam tudo. Conta.
- Escrever o texto todo em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos.
Na correção linguística — e aqui são 14 pontos —, os erros que um texto de opinião convida a cometer:
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (erro do tipo A): «A mudança que tanto receamos, é essencial» — erro inequívoco.
- Vírgula antes de uma completiva (erro do tipo A): «Considero, que a mudança é essencial» — o verbo não se separa do complemento.
- Falta de vírgula na oração adverbial anteposta (erro do tipo A): «Se o medo tivesse vencido Portugal continuaria fechado» pede vírgula depois de «vencido».
- Ortografia (erro do tipo A): «intranquilidade», «desassossego» (dois s duas vezes), «há» (verbo) e «à» (contração), «porque»/«por que»/«porquê».
- Concordância e regência (erro do tipo B): «as mudanças que assistimos» → «a que assistimos»; «a maioria dos jovens sentem» e «sente» admitem-se ambas, mas mantém a escolha.
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): palavras «difíceis» usadas fora do sentido («a mudança é intrínseca à paradigmática existência»). Escreve com as palavras que dominas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
O texto de opinião do Grupo III tem sempre a mesma lista de verificação: tese explícita, dois argumentos, um exemplo para cada, discurso valorativo, conclusão, 200 a 350 palavras. Treina o esqueleto até ele sair sozinho: tese → argumento + exemplo → argumento + exemplo → conclusão. Antes do exame, prepara uma pequena «reserva» de exemplos concretos que servem muitos temas — um facto da história de Portugal (o 25 de Abril, os Descobrimentos), uma figura (Aristides de Sousa Mendes), uma experiência comum identificável (o Erasmus, o voluntariado), uma obra do programa. Quando o tema aparecer, só tens de escolher os dois que melhor o servem.