Exame de Português 2025 · 1.ª fase — item III, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2025 · 1.ª fase
Para uns, é o indivíduo que faz a sociedade; para outros, é a sociedade que faz o indivíduo.
Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre o conteúdo da afirmação.
No seu texto:
- explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;
- utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito);
- formule uma conclusão adequada à argumentação desenvolvida.
Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2025/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:
- um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
- um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Há quem defenda que somos apenas o produto do meio em que crescemos, como se a sociedade nos moldasse por inteiro. Reconheço que a família, a escola e a cultura nos marcam profundamente; ainda assim, considero que é o indivíduo que faz a sociedade, porque é das escolhas de cada um que nasce, e se transforma, a vida coletiva.
Em primeiro lugar, as grandes mudanças sociais começam, muitas vezes, na coragem de uma única pessoa que se recusa a aceitar o que está errado. Foi o que aconteceu com Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, que, em 1940, desobedeceu às ordens do Governo e concedeu milhares de vistos a refugiados que fugiam da guerra. A sociedade do seu tempo exigia-lhe obediência; ele preferiu ouvir a consciência, e o seu gesto, admirável, salvou vidas e tornou-se um exemplo para gerações inteiras.
Em segundo lugar, uma sociedade não é uma entidade abstrata: é a soma dos comportamentos quotidianos de quem a compõe. Durante a pandemia de covid-19, por exemplo, o êxito das medidas de proteção dependeu, sobretudo, da responsabilidade de cada cidadão, que decidia usar máscara, respeitar o confinamento e vacinar-se. Nenhuma lei teria resultado se milhões de pessoas não tivessem escolhido, individualmente, proteger os outros. Esta atitude, discreta mas decisiva, revela que a cidadania é, antes de tudo, uma escolha pessoal.
Em suma, a sociedade oferece-nos o ponto de partida, mas não decide o ponto de chegada. É precisamente por isso que cada pessoa tem uma responsabilidade que não pode delegar: se queremos uma sociedade mais justa, temos de começar por ser, nós próprios, cidadãos mais justos.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. O Grupo III vale 44 pontos — mais de um quinto da prova — e pede-te um texto de opinião: defender uma posição pessoal sobre uma afirmação, com argumentos e exemplos. A afirmação apresenta duas teses opostas: «é o indivíduo que faz a sociedade» e «é a sociedade que faz o indivíduo». O teu trabalho é tomar posição e convencer o leitor de que ela é a mais razoável.
Lê as instruções como uma lista de verificação, porque é isso que elas são: cada travessão do enunciado corresponde a um aspeto que o corrector procura no parâmetro A. Precisas de um ponto de vista claro, dois argumentos, um exemplo para cada argumento, discurso valorativo e uma conclusão. E tudo isto entre 200 e 350 palavras.
1.º — escolher a posição e planear antes de escrever
Podes defender qualquer uma das duas teses, ou uma posição matizada (por exemplo: a sociedade forma-nos, mas é o indivíduo que a transforma). O que não podes é ficar em cima do muro: uma posição matizada só vale se, no fim da introdução, o leitor souber exatamente o que pensas.
Antes de escrever, gasta dois ou três minutos num plano rápido, à margem:
- tese: é o indivíduo que faz a sociedade;
- argumento 1: as grandes mudanças sociais começam na coragem de uma pessoa → exemplo: Aristides de Sousa Mendes, em 1940;
- argumento 2: a sociedade é a soma dos comportamentos de cada um → exemplo: a pandemia de covid-19, em que o resultado coletivo dependeu das escolhas individuais;
- conclusão: a sociedade dá o ponto de partida, o indivíduo decide o ponto de chegada.
Com o plano feito, o texto escreve-se quase sozinho, e evitas o erro mais caro deste grupo: descobrir a meio que só tens um argumento.
2.º — a introdução: apresentar o tema e a tese
Na introdução, situas o tema e dizes o que pensas. Uma forma eficaz é começar pela tese contrária e afastá-la: «Há quem defenda que somos apenas o produto do meio em que crescemos […]. Reconheço que […]; ainda assim, considero que é o indivíduo que faz a sociedade […].» O verbo «considero» marca, sem ambiguidade, que a opinião é tua. Conceder alguma razão à tese contrária («Reconheço que…») mostra maturidade e torna a tua posição mais credível.
3.º — os argumentos: uma razão, não um caso
Um argumento é uma razão geral que apoia a tese: «as grandes mudanças sociais começam, muitas vezes, na coragem de uma única pessoa». Um exemplo é um caso concreto que mostra o argumento a funcionar: Aristides de Sousa Mendes, cônsul em Bordéus, que em 1940 desobedeceu às ordens do Governo e concedeu milhares de vistos a refugiados.
Não os confundas. «Aristides de Sousa Mendes salvou refugiados» sozinho é um exemplo sem argumento; «as pessoas mudam a sociedade» sozinho é um argumento sem exemplo. Os critérios pedem as duas coisas, para cada argumento, e os dois argumentos têm de ser distintos — não o mesmo dito por outras palavras.
Repara como os dois argumentos da resposta modelo atacam a questão por lados diferentes: o primeiro olha para os gestos excecionais de uma pessoa; o segundo, para os comportamentos comuns de milhões. É isto que o parâmetro B chama «argumentos e exemplos diversificados».
Um bom exemplo é específico (um nome, uma data, um acontecimento) e verificável. Exemplos vagos («há muitas pessoas que ajudam os outros») contam como exemplos fracos e baixam a eficácia argumentativa. Exemplos inventados com ar de factos («um estudo de 2019 provou que…») são um risco: se o corrector desconfiar, perdes credibilidade.
Cada argumento vai no seu parágrafo, aberto por um conector de ordenação: «Em primeiro lugar,…», «Em segundo lugar,…».
4.º — o discurso valorativo
O texto de opinião julga, não só descreve. Os critérios aceitam um juízo de valor explícito (adjetivos e advérbios avaliativos: «o seu gesto, admirável,…»; «uma atitude discreta mas decisiva») ou implícito (a escolha das palavras e dos exemplos já mostra a tua apreciação: «ele preferiu ouvir a consciência»). Garante pelo menos dois ou três momentos em que fique claro que estás a avaliar.
5.º — a conclusão
A conclusão retoma a tese à luz dos argumentos e fecha o texto. Não acrescenta argumentos novos, nem se limita a copiar a introdução. Uma frase de efeito que sintetize a posição funciona bem: «a sociedade oferece-nos o ponto de partida, mas não decide o ponto de chegada». Abre-a com um conector conclusivo: «Em suma,», «Em conclusão,», «Assim,».
6.º — a coesão: o que o parâmetro C procura
O parâmetro C avalia a organização do texto, e a lista do nível 4 diz-te exatamente o que fazer:
- partes proporcionadas: introdução e conclusão mais curtas, desenvolvimento mais longo (na resposta modelo: cerca de 60, 90, 80 e 45 palavras);
- parágrafos bem marcados: um para a introdução, um por argumento, um para a conclusão — quatro parágrafos é a estrutura mais segura;
- articulação interfrásica: conectores variados e adequados («ainda assim», «porque», «por exemplo», «Em segundo lugar», «Em suma»);
- cadeias de referência: retomar sem repetir — «Aristides de Sousa Mendes» → «cônsul de Portugal em Bordéus» → «ele» → «o seu gesto»;
- coordenadas de enunciação coerentes: não saltes sem razão entre «eu», «nós» e «você», nem entre presente e passado. A resposta modelo usa o «eu» para a opinião («considero») e o «nós» para generalizar («se queremos uma sociedade mais justa»), e o passado só nos exemplos.
contar as palavras
Antes de passares a limpo — ou no rascunho, à medida que escreves —, conta as palavras. A regra é a das Observações: uma palavra é qualquer sequência entre espaços em branco, de modo que «vacinar-se» conta uma, e «1940» conta uma. A resposta modelo tem 269 palavras, bem dentro do intervalo de 200 a 350.
Um truque prático: conta as palavras de uma linha média da tua letra e multiplica pelo número de linhas. Se estiveres perto de um dos limites, conta palavra a palavra.
como este item é corrigido
São quatro parâmetros que somam: A (Género/Formato Textual, 10 pontos), B (Tema e Pertinência da Informação, 10 pontos), C (Organização e Coesão Textuais, 10 pontos) e CL (correção linguística, 14 pontos).
No A, o nível 4 (10 pontos) exige os cinco aspetos: ponto de vista explícito, dois argumentos distintos, um exemplo para cada um, discurso valorativo e conclusão. Um exemplo em falta desce para 8; um só argumento (com exemplo) desce para 5. A pertinência dos argumentos e dos exemplos não conta aqui: avalia-se no B.
No B, o nível 4 pede o tema tratado sem desvios e eficácia argumentativa: argumentos e exemplos diversificados e pertinentes, progressão coerente e um vocabulário e registo adequados. Desviar-te do tema (por exemplo, falar só da educação, sem chegar à relação entre indivíduo e sociedade) ou usar exemplos que não provam o argumento faz descer o nível.
No C, contam as partes proporcionadas, os parágrafos, os conectores, as cadeias de referência e as coordenadas de enunciação: falhas pontuais em um ou dois destes aspetos dão 8; em três ou mais, 5.
Zero no A ou no B arrasta tudo. Se o texto não for um texto de opinião, ou não tratar o tema, tem zero nos restantes parâmetros da ETD e na CL — por mais bem escrito que esteja.
Na CL, contas os erros do tipo A (pontuação, ortografia e acentuação, morfologia, citação e referência a títulos de obras) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lês a tabela. Sem erros do tipo B: até 2 erros do tipo A ainda dão 14 pontos; 3 a 5 dão 11; 6 a 8 dão 8; 9 a 11 dão 5; 12 a 14 dão 2. Cada erro do tipo B pesa muito mais: com 1 erro do tipo B e nenhum do tipo A, ainda tens 14; com 2 erros do tipo B, 11; com 3, 8; com 6 ou 7 (e nenhum do tipo A), só 2. Para lá do que a tabela mostra, a CL vale zero.
Por fim, a extensão: fora do intervalo de 200 a 350 palavras, desconta-se 1 ponto por cada palavra a mais ou a menos, até ao máximo de 5 pontos, depois de aplicados os outros critérios; um texto com menos de 80 palavras vale zero.
onde se perdem pontos
- Não tomar posição. Um texto que apresenta as duas teses e conclui que «ambas têm razão», sem dizer qual é a sua, falha o primeiro aspeto do parâmetro A. Se defendes uma posição intermédia, formula-a como tese: «a sociedade forma-nos, mas é o indivíduo que a transforma».
- Dar exemplos sem argumentos, ou argumentos sem exemplos. É a falha mais frequente no parâmetro A. Confirma no plano: dois argumentos, dois exemplos, um para cada.
- Repetir o mesmo argumento duas vezes. «As pessoas mudam a sociedade» e «os indivíduos transformam o mundo» são o mesmo argumento; contam como um.
- Fugir ao tema. Escrever sobre redes sociais, ou sobre a juventude, sem voltar à relação entre o indivíduo e a sociedade, é um desvio que custa pontos no B — e, se for total, zero em tudo.
- Esquecer a conclusão ou fazê-la com um argumento novo. A conclusão fecha; não abre.
- Falhar a extensão. Com 195 palavras perdes 5 pontos; com 355 também. Com menos de 80, o texto vale zero. Conta.
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (tipo A). «Cada cidadão, tem uma responsabilidade» é erro inequívoco. O mesmo vale entre o verbo e o complemento: «Considero, que é o indivíduo…» é erro.
- Vírgulas obrigatórias esquecidas (tipo A). Uma oração adverbial no início da frase separa-se por vírgula («Se queremos uma sociedade mais justa, temos de…»); um aposto isola-se («Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, desobedeceu…»); os conectores intercalados também («o êxito, sobretudo, dependeu…»).
- Ortografia e acentuação (tipo A). «indivíduo», «sociedade», «perspetiva», «coletiva», «exceção», «há» (verbo) e «à» (preposição + artigo), «por que» e «porque», «a cerca de» e «acerca de». E as maiúsculas: «Governo», nomes próprios, início de frase.
- Erros de sintaxe (tipo B). Frases sem verbo principal («Por exemplo, Aristides de Sousa Mendes, que desobedeceu às ordens.»), concordâncias erradas («as decisões de cada um muda»), pronomes mal colocados («se tornou-se»), regências trocadas («depende de que cada um» em vez de «depende de cada um»).
- Impropriedade lexical (tipo B). Usar uma palavra com um sentido que ela não tem: «o indivíduo infringe a sociedade» quando se quer dizer «influencia»; «a pandemia despoletou a solidariedade» em vez de «desencadeou».
- Mudar de registo sem intenção. Expressões coloquiais («tipo», «sei lá», «as pessoas é que…») baixam a adequação do registo, avaliada no B.
- Escrever tudo em maiúsculas. Uma resposta escrita integralmente em maiúsculas desvaloriza a prova em cinco pontos.
para reconhecer o próximo item deste tipo
O Grupo III de Português é sempre um texto de opinião com a mesma lista de verificação: tese clara, dois argumentos distintos, um exemplo concreto para cada, juízo de valor, conclusão, entre 200 e 350 palavras. Escreve em quatro parágrafos — introdução com a tese, um argumento por parágrafo, conclusão — com conectores a abrir cada um. Faz o plano antes e conta as palavras no fim: são os dois gestos que mais pontos salvam.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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