O ponto de partida. Explicitar uma característica é nomeá-la — com um nome ou um adjetivo («abnegação», «patriota») — e mostrar onde o texto a revela. A pergunta pede duas, e pede-as fundamentadas em informações das estâncias 52 e 53: cada característica precisa da sua prova, que é uma transcrição ou uma referência precisa ao texto. Uma característica sem prova é uma opinião tua; uma transcrição sem característica é uma cópia.
1.º — perceber a história que as estâncias contam
A nota 3 dá-te o contexto: em 1437, no cerco de Tânger, D. Fernando entregou-se aos mouros como refém, para que o exército português, cercado, pudesse retirar-se; a troca prometida era a cidade de Ceuta. O rei D. Duarte, seu irmão, não entregou Ceuta, e o Infante morreu ao fim de anos de cativeiro.
Com isto, os versos lêem-se assim:
- v. 9 — «Viu ser cativo o santo irmão Fernando»: o Infante é chamado «santo» logo à entrada;
- v. 10 — «(Que a tão altas empresas aspirava)»: aspirava a feitos elevados — a guerra contra os mouros, em defesa da fé;
- vv. 11-12 — «Que, por salvar o povo miserando / Cercado, ao Sarraceno se entregava»: entregava-se ao inimigo para salvar o «povo miserando» (digno de pena), cercado;
- vv. 13-15 — «Só por amor da pátria está passando / A vida, de senhora feita escrava, / Por não se dar por ele a forte Ceita»: só por amor à pátria vive como escravo quem era senhor, porque Ceuta não foi entregue em troca dele;
- v. 16 — «Mais o público bem que o seu respeita»: dá mais valor ao bem público do que ao seu;
- estância 53 — o narrador compara-o com heróis da Antiguidade que se sacrificaram pela pátria (Codro, Régulo, Cúrcio, os Décios — notas 6 a 9) e conclui que nenhum deles «fez tanto» (vv. 23-24): D. Fernando aceitou um «cativeiro eterno» (v. 22) para que Espanha (a Península Ibérica cristã) não temesse o inimigo.
2.º — escolher duas características e as suas provas
Os critérios aceitam várias; as mais seguras, porque o texto as diz quase com todas as letras, são:
- abnegação/altruísmo — põe o bem da nação acima da sua liberdade: vv. 11-12 e v. 16;
- patriotismo — tudo o que faz é «por amor da pátria»: vv. 13-14.
Também valem a dignidade/nobreza de carácter (as razões por que se entrega), o espírito de sacrifício (vv. 11-12), a ambição de lutar pela fé cristã (v. 10) e a santidade/devoção extrema de quem se torna mártir e supera os heróis antigos (v. 9; vv. 23-24).
Escolhe duas que sejam diferentes e prova cada uma com versos próprios. Abnegação e espírito de sacrifício, por exemplo, estão tão próximas que, provadas com os mesmos versos, arriscam ser lidas como uma só característica dita duas vezes.
3.º — escrever a resposta
Um parágrafo por característica: nomeia-a, explica-a em relação ao que D. Fernando fez, transcreve os versos que a provam, com a indicação «vv. 11-12». Liga os dois parágrafos com um conector de adição («Além disso», «Por outro lado»). A estância 53 é um bom remate: mostra até onde o narrador leva a admiração pelo Infante.
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível. O que conta é quantos tópicos abordas (dois) e como os abordas — adequadamente ou com pequenas imprecisões e/ou omissões — e se a coesão do teu texto assegura a progressão das ideias:
- nível 5 — 10 pontos: explicita duas características de D. Fernando, com os dois tópicos abordados adequadamente e um texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: os dois tópicos adequados mas com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou um tópico adequado e outro com imprecisões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso com falhas de coesão, ou os dois imprecisos com boa coesão, ou só um tópico, adequado, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos com falhas de coesão, ou só um tópico adequado com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: só um tópico, com imprecisões.
O que separa um 10 de um 8 é, quase sempre, uma de duas coisas: um dos tópicos ficou a meio (afirmado sem a transcrição que o prova, ou com uma interpretação vaga), ou as ideias aparecem soltas, sem os conectores e os parágrafos que as encadeiam. Repara também que um tópico só, por perfeito que seja, nunca passa dos 6 pontos: o primeiro dinheiro está em responder ao número de tópicos pedido.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Uma falha do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúscula/minúscula, regras de citação) ainda não custa nada; uma do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E atenção: zero no C-ED arrasta zero na CL — um texto bem escrito que não responde à pergunta não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Contar a história em vez de caracterizar. «D. Fernando entregou-se aos mouros e morreu em cativeiro» é um resumo, não uma característica. A característica é o que esse gesto revela — abnegação, patriotismo.
- Uma característica sem fundamento no texto. «Era corajoso» pode ser verdade, mas se não apontares os versos que o mostram, o tópico fica com omissões.
- Ir buscar a prova fora das estâncias 52 e 53. O item manda reler essas duas; os versos da estância 51 ou o poema de Pessoa não servem aqui.
- Ler mal a estância 53. Codro, Régulo, Cúrcio e os Décios não são inimigos nem companheiros de D. Fernando: são termos de comparação. O narrador diz que nenhum deles «fez tanto» — o Infante supera-os.
- Confundir Ceita com outra coisa. «Ceita» é Ceuta (nota 5): a cidade que o rei não quis entregar em troca do irmão.
- Duas características que são uma só. Abnegação e altruísmo, ditas em dois parágrafos com a mesma transcrição, contam como um tópico.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar sem cumprir as regras de citação (erro do tipo A): a transcrição vai entre aspas, palavra por palavra como está no texto, com a mudança de verso marcada por « / » e a indicação do verso entre parênteses — «Mais o público bem que o seu respeita» (v. 16). Escrever «mais o bem público do que o seu», sem aspas ou sem verso, é uma transcrição que não cumpre as regras.
- Vírgula a separar o verbo do complemento (erro do tipo A): «D. Fernando revela, uma profunda abnegação» está errado — a vírgula não separa o verbo do seu complemento.
- Ortografia e acentuação (erro do tipo A): «carácter», «abnegação», «pátria», «cativeiro» — e «Infante» com maiúscula quando designa D. Fernando.
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): chamar «egoísmo» ou «orgulho» ao que é abnegação, ou dizer que D. Fernando foi «raptado» quando o texto diz que se entregou.
- O título da obra sem destaque (erro do tipo A): numa folha manuscrita, Os Lusíadas e Mensagem escrevem-se sublinhados ou entre aspas. Escrever o título sem nenhuma marca é incumprir a regra de referência a título de uma obra.
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Caracterizar uma personagem é sempre o mesmo gesto: um nome (abnegação, patriotismo, coragem) mais a prova no texto (os versos, com a sua indicação). Em Os Lusíadas, os heróis são caracterizados pelos atos e pelas comparações: quando Camões chama heróis da Antiguidade, é para dizer que os portugueses os superam. Repara nesse movimento — volta a aparecer.