O ponto de partida. A pergunta tem duas partes, e a segunda frase do enunciado diz-te a ordem: primeiro indicas as ações de Deus; depois explicas em que medida essas ações fazem do sujeito poético um instrumento — alguém que executa uma vontade que não é a sua. Os critérios correspondem exatamente a estas duas partes: são dois tópicos, e pedem os dois.
Quem fala no poema é o próprio D. Fernando (a nota 1 identifica-o: o mesmo Infante das estâncias de Camões). Em Mensagem, Pessoa dá muitas vezes a voz às figuras históricas, na primeira pessoa.
1.º — indicar as ações de Deus
Percorre o poema e sublinha cada verbo que tem Deus como sujeito. São quatro gestos:
- dá-lhe o gládio — «Deu-me Deus o seu gládio» (v. 1). O gládio é uma espada curta, de dois gumes (nota 2): a arma de um guerreiro;
- escolhe-o e consagra-o — «Sagrou-me seu» (v. 3), isto é, «Escolheu-me» (nota 3). «Sagrar» é tornar sagrado, consagrar a Deus;
- põe-lhe as mãos sobre os ombros — «Pôs-me as mãos sobre os ombros» (v. 6);
- doura-lhe a fronte com o olhar — «doirou-me / A fronte com o olhar» (vv. 6-7): ilumina-lhe a testa (nota 4) com o olhar, como uma auréola.
Juntos, estes gestos lembram a investidura de um cavaleiro: entrega da espada, mãos sobre os ombros, bênção. É a ideia que os critérios pedem: Deus incute-lhe força e abençoa-o.
2.º — explicar a transformação em instrumento
Agora a pergunta mais difícil: porque é que estes gestos o tornam um instrumento? Repara nos possessivos — são eles que dizem de quem é cada coisa:
- o gládio é «o seu gládio» (v. 1) — de Deus, não de D. Fernando;
- a guerra é «A sua santa guerra» (v. 2) — de Deus outra vez; o Infante fá-la «por que eu faça» (v. 1), para que eu faça: é o executor;
- «Sagrou-me seu» (v. 3) — o próprio sujeito poético passa a pertencer a Deus.
E na segunda estrofe, até o que ele sente por dentro é divino: «esta febre de Além» e «este querer grandeza» «são seu nome / Dentro em mim a vibrar» (vv. 8-10). O desejo de grandeza não é ambição pessoal — é Deus a manifestar-se nele.
Por isso as ações de Deus lhe dão um estatuto de exceção: ele é o eleito para uma missão sagrada, uma «santa guerra» (v. 2). Um instrumento é exatamente isto — algo que outro escolhe, prepara e usa para cumprir a sua vontade.
Nota ainda o v. 3: «em honra e em desgraça». A escolha divina não promete só glória; inclui a desgraça — e quem conhece a história (a nota 3 de Camões) sabe que essa desgraça foi o cativeiro e a morte.
3.º — escrever a resposta
Dois parágrafos, pela ordem pedida. No primeiro, as ações de Deus, cada uma com a sua transcrição e o verso. No segundo, a explicação: as ações fazem dele o eleito para uma missão que é de Deus — e os possessivos («seu gládio», «sua santa guerra», «Sagrou-me seu») são a prova mais forte. Fecha com uma frase que responda diretamente à pergunta.
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível. O que conta é quantos tópicos abordas (os dois que os critérios dão) e como os abordas — adequadamente ou com pequenas imprecisões e/ou omissões — e se a coesão do teu texto assegura a progressão das ideias:
- nível 5 — 10 pontos: explica em que medida as ações de Deus transformam o sujeito poético num instrumento da vontade divina, com os dois tópicos abordados adequadamente e um texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: os dois tópicos adequados mas com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou um tópico adequado e outro com imprecisões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso com falhas de coesão, ou os dois imprecisos com boa coesão, ou só um tópico, adequado, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos com falhas de coesão, ou só um tópico adequado com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: só um tópico, com imprecisões.
O que separa um 10 de um 8 é, quase sempre, uma de duas coisas: um dos tópicos ficou a meio (afirmado sem a transcrição que o prova, ou com uma interpretação vaga), ou as ideias aparecem soltas, sem os conectores e os parágrafos que as encadeiam. Repara também que um tópico só, por perfeito que seja, nunca passa dos 6 pontos: o primeiro dinheiro está em responder ao número de tópicos pedido.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Uma falha do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúscula/minúscula, regras de citação) ainda não custa nada; uma do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E atenção: zero no C-ED arrasta zero na CL — um texto bem escrito que não responde à pergunta não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Ficar pela lista de ações. Indicar os quatro gestos de Deus é só o primeiro tópico. Sem explicar porque é que fazem dele um instrumento — o estatuto de eleito, a missão sagrada —, o máximo é o nível 3 (6 pontos).
- Não começar pelas ações. O enunciado manda começar por elas. Uma resposta que vai direta à «missão sagrada» e só no fim, ou nunca, diz o que Deus fez, não cumpre a instrução.
- Esquecer uma ação. O tópico 1 dos critérios junta o gládio, as mãos nos ombros, o olhar que doura a fronte e a consagração. Deixar metade de fora é uma omissão.
- Dizer que D. Fernando decide combater. O poema diz o contrário: a guerra é «sua» — de Deus. Escrever que o Infante «escolhe lutar pela fé» apaga exatamente o que torna D. Fernando um instrumento.
- Interpretar «doirou-me / A fronte» como literal. Ninguém lhe pintou a testa de ouro: é uma imagem de bênção, de glória — a luz divina sobre o eleito.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar sem cumprir as regras de citação (erro do tipo A): a transcrição vai entre aspas, palavra por palavra como está no texto, com a mudança de verso marcada por « / » e a indicação do verso entre parênteses — «doirou-me / A fronte com o olhar» (vv. 6-7). Escrever «dourou-lhe a fronte com o olhar», sem aspas ou sem verso, é uma transcrição que não cumpre as regras.
- Ortografia (erro do tipo A): «gládio» leva acento; «Deus» escreve-se com maiúscula; «exceção» e «ações» sem «p» nem «c» mudos.
- Concordância (erro do tipo B): «as ações de Deus transforma o sujeito poético» — o sujeito é «as ações», plural: «transformam».
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): chamar «ferramenta» ou «objeto» ao sujeito poético num registo que pede «instrumento» ou «eleito»; ou escrever «Deus obriga-o» quando o poema fala de escolha e consagração.
- O título da obra sem destaque (erro do tipo A): numa folha manuscrita, Os Lusíadas e Mensagem escrevem-se sublinhados ou entre aspas. Escrever o título sem nenhuma marca é incumprir a regra de referência a título de uma obra.
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Em Mensagem, os heróis são eleitos — escolhidos por Deus ou pelo Destino para uma missão que os ultrapassa. Quando um item te pergunta pela relação entre o herói e Deus, procura os possessivos (de quem é a espada, de quem é a guerra) e os verbos de que Deus é sujeito: são eles que mostram quem quer e quem executa. E quando o enunciado diz «comece por…», obedece: é uma instrução, e a ordem conta.