Exame de Português 2025 · 1.ª fase — item I.7, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2025 · 1.ª fase
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
Embora os textos da Parte A e da Parte B incidam sobre o mesmo herói, existem diferenças significativas no modo como a figura de D. Fernando é apresentada.
Escreva uma breve exposição na qual distinga esses textos, no que diz respeito à predominância de características líricas ou épicas.
A sua exposição deve incluir:
- uma introdução ao tema na qual identifique a obra em que predominam características líricas e a obra em que predominam características épicas;
- um desenvolvimento no qual explicite um traço distintivo do discurso lírico e um traço distintivo do discurso épico, fundamentando cada um deles com transcrições pertinentes;
- uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Os textos das Partes A e B evocam o mesmo herói, o Infante D. Fernando, mas fazem-no de modos distintos: no excerto de Os Lusíadas, de Luís de Camões, predominam as características épicas, enquanto no poema «D. Fernando, Infante de Portugal», de Mensagem, de Fernando Pessoa, predominam as características líricas.
Em Os Lusíadas, um traço distintivo do discurso épico é a importância da referência à História de Portugal, narrada na terceira pessoa. O narrador relata o cativeiro do Infante, que, «por salvar o povo miserando / Cercado, ao Sarraceno se entregava» (vv. 11-12), e lembra que ele permaneceu prisioneiro «Por não se dar por ele a forte Ceita» (v. 15). Este episódio histórico serve a exaltação do herói português, cujo sacrifício supera o dos heróis da Antiguidade, uma vez que «Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto, / Nem os Décios leais, fizeram tanto» (vv. 23-24).
Em Mensagem, pelo contrário, o discurso lírico distingue-se pelo carácter subjetivo, patente no uso da primeira pessoa: é o próprio Infante que fala, enquanto sujeito poético, e afirma «Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça / A sua santa guerra.» (vv. 1-2). Esta voz exprime ainda os seus sentimentos, nomeadamente a serenidade e a ausência de medo com que aceita a missão divina, como se verifica em «Cheio de Deus, não temo o que virá» (v. 13).
Assim, embora celebrem a mesma figura, os dois textos apresentam-na de forma diferente: Camões narra e engrandece, de fora, um feito histórico digno da memória coletiva, ao passo que Pessoa dá voz ao próprio D. Fernando, revelando, de dentro, a vivência subjetiva da missão que Deus lhe confiou.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Este item junta três coisas: o que sabes sobre o discurso épico e o discurso lírico, a leitura dos dois textos do Grupo I (as estâncias 51 a 53 do Canto IV de Os Lusíadas e o poema «D. Fernando, Infante de Portugal», de Mensagem) e um género escolar, a exposição. Não te pedem a tua opinião sobre os textos: pedem-te que distingas os dois, mostrando, com provas tiradas deles, qual é predominantemente épico e qual é predominantemente lírico.
Repara na palavra predominância. Nenhum dos dois textos é «puro»: Mensagem também tem uma dimensão épica (canta heróis da História de Portugal), e há momentos subjetivos em Os Lusíadas. O que o item quer é o modo dominante de apresentar D. Fernando em cada texto.
O enunciado dá-te o plano do texto em três pontos — introdução, desenvolvimento, conclusão. Neste item, ao contrário dos outros de resposta restrita, as três partes são obrigatórias e são avaliadas à parte, no parâmetro ED.
1.º — perceber a diferença entre épico e lírico
O discurso épico narra um feito grandioso, digno de memória coletiva. O narrador conta, na terceira pessoa, ações de heróis (muitas vezes históricos) e engrandece-os. É um discurso virado para fora: para a ação, para a História, para a pátria.
O discurso lírico exprime a interioridade de um «eu». Quem fala é o sujeito poético, na primeira pessoa, e o que se ouve são os seus sentimentos, o seu estado de espírito, a sua visão do mundo. É um discurso virado para dentro.
Com estas duas definições na cabeça, a pergunta torna-se simples de pôr: quem fala em cada texto, e de quem fala?
2.º — a introdução: identificar qual é qual
Nas estâncias de Os Lusíadas, quem fala é um narrador — nestas estâncias, Vasco da Gama, que conta a História de Portugal ao rei de Melinde (é por isso que cada estância abre com aspas angulares, a marca do discurso dele). Ele fala de D. Fernando, na terceira pessoa: «Viu ser cativo o santo irmão Fernando» (v. 9). Predominam as características épicas.
No poema de Mensagem, quem fala é o próprio D. Fernando, transformado em sujeito poético: «Deu-me Deus o seu gládio» (v. 1), «Sagrou-me seu» (v. 3), «doirou-me / A fronte» (vv. 6-7). Predominam as características líricas.
A introdução tem de dizer isto com clareza: as duas obras, os dois autores (dá jeito, e mostra rigor) e qual é épica e qual é lírica. Uma ou duas frases chegam.
3.º — o desenvolvimento: um traço épico em Os Lusíadas, com transcrição
Os critérios aceitam qualquer um destes três traços (ou outro igualmente relevante). Escolhe um e fundamenta-o bem:
- o tom narrativo, na terceira pessoa — «Não foi do Rei Duarte tão ditoso / O tempo que ficou na suma alteza» (vv. 1-2): o narrador conta e comenta o reinado de D. Duarte de fora;
- a referência à História de Portugal — «Viu ser cativo o santo irmão Fernando / […] / Que, por salvar o povo miserando / Cercado, ao Sarraceno se entregava» (vv. 9 e 11-12): o texto relata um acontecimento histórico, o cativeiro do Infante depois do cerco de Tânger (as notas 3 e 5 dão-te o contexto);
- a exaltação do herói português — a estância 53 compara D. Fernando a heróis da Antiguidade (Codro, Régulo, Cúrcio, os Décios) e conclui que nenhum deles fez tanto: «Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto, / Nem os Décios leais, fizeram tanto» (vv. 23-24). Engrandecer o herói acima dos antigos é um gesto típico da epopeia.
Explicitar um traço não é nomeá-lo: é dizer o traço, mostrar onde está no texto (a transcrição) e ligar as duas coisas (porque é que aquele verso prova aquele traço). A resposta modelo junta a referência histórica e a exaltação do herói, que se completam: o episódio histórico serve para engrandecer o Infante.
4.º — o desenvolvimento: um traço lírico em Mensagem, com transcrição
Também aqui há três caminhos possíveis:
- o carácter subjetivo, na primeira pessoa — «Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça / A sua santa guerra.» (vv. 1-2) ou «Sagrou-me seu em honra e em desgraça» (v. 3): os pronomes e as formas verbais de primeira pessoa («me», «eu») mostram que é o próprio Infante que fala;
- a expressão de sentimentos — «E eu vou, e a luz do gládio erguido dá / Em minha face calma.» (vv. 11-12) ou «Cheio de Deus, não temo o que virá» (v. 13): o sujeito poético revela o que sente — calma, coragem, ausência de medo;
- o espírito de missão — «E esta febre de Além, que me consome, / E este querer grandeza são seu nome / Dentro em mim a vibrar.» (vv. 8-10): o desejo de grandeza é vivido por dentro, como uma força interior.
Repara que o mesmo herói, que em Camões é objeto da narração, em Pessoa é sujeito que fala de si. É a diferença mais forte entre os dois textos, e é a que deves pôr em evidência.
5.º — a conclusão
A conclusão não repete o desenvolvimento: fecha-o. Diz, numa frase, o que a comparação mostrou — o mesmo herói visto de fora, como figura da História narrada e exaltada (épico), e de dentro, como consciência que sente e aceita a missão (lírico).
6.º — escrever o texto: partes, parágrafos, coesão
Escreve três partes visíveis, cada uma no seu parágrafo; no desenvolvimento, um parágrafo para cada obra torna a estrutura evidente. As partes devem ser proporcionadas: uma introdução de uma frase, um desenvolvimento de dois parágrafos e uma conclusão de uma ou duas frases.
Liga as partes com conectores que mostrem a comparação: «Em Os Lusíadas…», «Em Mensagem, pelo contrário,…», «Assim,…», «ao passo que». E mantém as cadeias de referência claras: «o Infante», «o herói», «D. Fernando», «o sujeito poético» — sem deixar um pronome sem saber a quem se refere.
As transcrições escrevem-se entre aspas, à letra, com a mudança de verso marcada por « / » e a referência ao verso a seguir: «Cheio de Deus, não temo o que virá» (v. 13). Os números das notas (como o de «Cúrcio») não se copiam.
como este item é corrigido
São três parâmetros que somam: conteúdo (C, 8 pontos), estruturação do discurso (ED, 3 pontos) e correção linguística (CL, 2 pontos).
No C, o corrector procura dois traços — um épico em Os Lusíadas e um lírico em Mensagem — e vê se cada um está explicitado adequadamente (traço + transcrição pertinente + ligação entre os dois):
- nível 4 — 8 pontos: os dois traços, ambos adequados;
- nível 3 — 6 pontos: os dois traços, um adequado e o outro com pequenas imprecisões e/ou omissões;
- nível 2 — 4 pontos: os dois traços, ambos com imprecisões, ou só um traço, mas adequado;
- nível 1 — 2 pontos: só um traço, com imprecisões.
O que separa o 8 do 6 é quase sempre a fundamentação: um traço sem transcrição, ou com uma transcrição que não o prova, é um traço «com omissões». E um traço só, por melhor que esteja, nunca passa dos 4 pontos.
No ED, conta a estrutura em três partes e a coesão: 3 pontos para três partes proporcionadas com coesão que assegura a progressão; 2 pontos se houver desequilíbrios de proporção ou falhas de coesão que não comprometem o todo; 1 ponto para um texto insuficientemente estruturado.
No CL, contam-se os erros do tipo A (pontuação, ortografia e acentuação, morfologia, citação e referência a títulos de obras) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lê-se a tabela:
- sem erros, ou só um erro do tipo A: 2 pontos;
- dois ou três erros do tipo A (e nenhum do tipo B): 1 ponto;
- um erro do tipo B (e nenhum do tipo A): 1 ponto;
- qualquer outra combinação (por exemplo, um erro do tipo B e um do tipo A, ou quatro do tipo A): 0 pontos.
E atenção: zero pontos no C dá zero pontos no CL. Um texto muito bem escrito que não explicita nenhum traço pertinente vale 0 + ED, e mais nada.
onde se perdem pontos
- Trocar as obras. Dizer que Mensagem é épica «porque fala de heróis» e Os Lusíadas lírico «porque é poesia» inverte a resposta. A pergunta é sobre o modo predominante de apresentar D. Fernando: narrado (épico) ou a falar de si (lírico).
- Nomear o traço sem o fundamentar. «Em Mensagem há subjetividade» não chega; o enunciado exige transcrições pertinentes para cada traço. Sem elas, cada traço fica «com omissões».
- Transcrever sem explicar. Uma citação solta, sem dizer o que ela prova, também é uma omissão. Liga sempre: «o uso da primeira pessoa («Deu-me», «eu») mostra que…».
- Escolher dois traços da mesma obra. Os critérios pedem um épico e um lírico; dois traços épicos de Os Lusíadas valem como um só traço.
- Saltar a introdução ou a conclusão. Aqui as três partes são pedidas no enunciado e pesam no ED. Uma conclusão que se limita a repetir a introdução é uma parte desproporcionada.
- Errar nas citações (tipo A). Esquecer as aspas, alterar uma palavra do verso («Deu-me Deus a sua espada»), não marcar a mudança de verso com « / » ou não indicar o verso são incumprimentos das regras de citação.
- Não assinalar os títulos das obras (tipo A). Os Lusíadas e Mensagem são títulos: à mão, escrevem-se sublinhados ou entre aspas, sempre com maiúscula inicial. «os lusiadas» sem marca nenhuma é erro.
- Ortografia e acentuação (tipo A). As palavras que este item te obriga a escrever são as que mais se erram: «épico», «lírico», «Lusíadas», «carácter», «herói», «poético», «subjetivo», «Infante». E «há» (verbo haver) não é «à».
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (tipo A). «O poema de Fernando Pessoa, apresenta um sujeito poético…» é erro inequívoco de pontuação; a vírgula não separa o sujeito do verbo.
- Erros de sintaxe (tipo B). Frases sem verbo principal («Em Mensagem, o sujeito poético que fala na primeira pessoa.»), concordâncias erradas («os dois textos apresenta») ou uma regência trocada («distingue-se de pelo carácter subjetivo»). Um único erro do tipo B já te tira metade da CL.
- Escrever tudo em maiúsculas. Uma só resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas desvaloriza a prova em cinco pontos.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando te pedem para distinguir épico e lírico, faz sempre a mesma pergunta: quem fala, e de quem? Um narrador que conta, na terceira pessoa, feitos históricos de um herói e o engrandece → épico. Um «eu» que fala de si, do que sente e do que vive por dentro → lírico. Depois, cada traço vai com uma transcrição e uma frase que os liga, e a exposição leva as três partes que o enunciado enumera.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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