Exame de Português 2025 · Época especial — item I.7, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2025 · Época especial
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
Na literatura portuguesa, o tema do sofrimento amoroso é uma constante ao longo dos séculos.
Escreva uma breve exposição sobre o modo como esse sofrimento é abordado na poesia lírica de Camões.
A sua exposição deve incluir:
- uma introdução ao tema;
- um desenvolvimento no qual explicite duas causas que originem o sofrimento por amor, seja do sujeito poético, seja de outra figura a quem ele se refira, fundamentando cada uma dessas causas com referência a poemas lidos;
- uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Na poesia lírica de Camões, o amor é uma das principais fontes de sofrimento do sujeito poético e das figuras a que ele se refere. Esse sofrimento resulta de várias causas, entre as quais se destacam a natureza contraditória do próprio sentimento amoroso e a morte da mulher amada.
Em primeiro lugar, o sofrimento tem origem nas qualidades intrínsecas do amor, que é contraditório em si mesmo, provocando, em simultâneo, felicidade e tristeza. No soneto «Amor é fogo que arde sem se ver», o sujeito poético define o amor através de uma sucessão de antíteses e de paradoxos, como «é ferida que dói, e não se sente» e «é um contentamento descontente», e conclui interrogando-se sobre como pode o Amor criar amizade nos corações humanos, «se tão contrário a si é o mesmo Amor».
Em segundo lugar, o sofrimento pode ser causado pela morte da amada, que torna impossível a concretização da relação amorosa e deixa ao sujeito poético apenas a saudade. No soneto «Alma minha gentil, que te partiste», o «eu» dirige-se à amada que partiu «tão cedo desta vida», desejando que ela repouse «lá no Céu eternamente», enquanto ele permanece «cá na terra sempre triste», e pede-lhe que rogue a Deus que o leve depressa para junto dela.
Em suma, na lírica camoniana, o amor surge como uma experiência dolorosa, quer pela sua própria natureza contraditória, quer pela perda irremediável da mulher amada.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Este item não tem texto para analisar: mede o que leste e estudaste da lírica de Camões, e pede-o na forma de uma exposição — um texto que apresenta um tema de forma organizada e objetiva, sem a tua opinião. O enunciado dá-te o plano: introdução, desenvolvimento com duas causas do sofrimento amoroso, cada uma fundamentada com referência a poemas lidos, e conclusão.
Repara em três pormenores do enunciado. Pede causas — o porquê do sofrimento, não a sua descrição. Aceita que o sofrimento seja do sujeito poético ou de outra figura a que ele se refira (o Jacob de «Sete anos de pastor Jacob servia», por exemplo). E pede referências a poemas lidos: um título, um verso conhecido, uma situação concreta — a nota dos critérios diz que valem as que «evidenciam conhecimento da lírica camoniana».
1.º — reunir as causas possíveis
Os critérios dão cinco; precisas de duas, bem distintas. Para cada uma, um ou dois poemas que a provam:
- o amor é contraditório em si mesmo — dá alegria e dor ao mesmo tempo. O poema-modelo é «Amor é fogo que arde sem se ver», construído com antíteses e paradoxos: «é ferida que dói, e não se sente», «é um contentamento descontente», «é dor que desatina sem doer»;
- a ausência, a partida ou a morte da amada — a relação torna-se impossível e fica a saudade. «Alma minha gentil, que te partiste» (a amada morreu: «tão cedo desta vida, descontente») ou o soneto de Jacob e Raquel, em que o pastor serve sete anos e, enganado por Labão, recomeça a servir «outros sete anos», dizendo que «Mais servira, se não fora / para tão longo amor tão curta a vida!»;
- um amor petrarquista, demasiado intenso, que ocupa a mente do sujeito poético e o deixa insatisfeito e frustrado — a idealização da amada, inatingível;
- forças superiores — o Amor, a Fortuna — de que o sujeito poético é joguete: «Erros meus, má fortuna, amor ardente / em minha perdição se conjuraram»;
- impulsos contraditórios que dilaceram o sujeito poético: «Tanto de meu estado me acho incerto, / que em vivo ardor tremendo estou de frio; / sem causa, juntamente choro e rio».
2.º — a introdução
Apresenta o tema e anuncia o que vais mostrar: o sofrimento amoroso é central na lírica de Camões, e tem várias causas, das quais vais tratar duas — que podes já nomear. Uma ou duas frases.
3.º — o desenvolvimento: uma causa por parágrafo
Cada parágrafo faz três coisas: nomeia a causa («o sofrimento tem origem na natureza contraditória do amor»), explica-a (porque é que isso faz sofrer) e fundamenta-a com o poema — o título ou primeiro verso entre aspas e, se te lembrares, um ou dois versos citados com rigor. Uma referência genérica («Camões diz em muitos sonetos que…») não prova nada; uma referência concreta prova.
Escolhe causas que não se sobreponham. «O amor é contraditório» e «o sujeito poético sente impulsos contraditórios» estão muito próximas; se escolheres as duas, separa-as bem — uma é a natureza do sentimento, a outra o estado em que ele deixa o «eu». A resposta modelo evita o problema: uma causa está no próprio amor, a outra fora dele (a morte da amada).
4.º — a conclusão
Fecha o raciocínio numa frase: o amor, em Camões, é fonte de dor — pela sua natureza e pelas circunstâncias que o impedem de se realizar. Não acrescentes causas novas nem repitas a introdução palavra por palavra.
5.º — escrever o texto: partes, parágrafos, coesão
Três partes visíveis e proporcionadas: uma introdução curta, um desenvolvimento de dois parágrafos (um por causa) e uma conclusão curta. Liga-as com conectores que marquem a organização: «Em primeiro lugar», «Em segundo lugar», «Em suma». Num texto expositivo, terceira pessoa e registo objetivo — nada de «eu acho».
como este item é corrigido
São três parâmetros que somam: conteúdo (C, 8 pontos), estruturação do discurso (ED, 3 pontos) e correção linguística (CL, 2 pontos).
No C, o corrector procura duas causas, cada uma explicitada adequadamente e fundamentada com, pelo menos, uma referência textual pertinente:
- nível 4 — 8 pontos: duas causas adequadas, cada uma com a sua referência;
- nível 3 — 6 pontos: duas causas adequadas mas só uma fundamentada, ou duas fundamentadas, uma adequada e a outra com imprecisões;
- nível 2 — 4 pontos: duas fundamentadas mas ambas com imprecisões, ou uma só causa, adequada e fundamentada, ou duas causas adequadas sem nenhuma referência;
- nível 1 — 2 pontos: uma causa com imprecisões mas fundamentada, ou uma causa adequada sem referência.
Repara no peso das referências: duas causas certas sem nenhum poema valem 4, metade da cotação. O que separa o 8 do 6 é quase sempre uma das causas ter ficado sem poema.
No ED: 3 pontos para três partes proporcionadas com coesão que assegura a progressão; 2 se houver desequilíbrios de proporção ou falhas de coesão que não comprometem a progressão; 1 para um texto insuficientemente estruturado.
No CL, contam-se os erros do tipo A (pontuação, ortografia e acentuação, morfologia, citação e referência a títulos de obras) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lê-se a tabela:
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|---|---|---|---|
| 0 | 2 | 2 | 1 | 1 |
| 1 | 1 | — | — | — |
Sem erros ou com um do tipo A, 2 pontos; dois ou três do tipo A, 1 ponto; um do tipo B sem nenhum do tipo A, 1 ponto; qualquer outra combinação, 0. E zero no C arrasta zero no CL.
onde se perdem pontos
- Falar de Camões sem poemas. Duas causas certas, sem referência a poemas lidos, valem metade do C. Leva sempre, para o exame, três ou quatro sonetos que saibas citar.
- Descrever o sofrimento em vez de dar as causas. «O sujeito poético sofre muito e chora» não diz porquê. Cada parágrafo começa pela causa.
- Usar *Os Lusíadas*. O item pede a poesia lírica. O episódio de Inês de Castro fala de amor e de sofrimento, mas é épico.
- Citar mal. Um verso deturpado («O amor é um fogo que queima sem se ver») é uma referência imprecisa e um incumprimento das regras de citação. Se não tens a certeza do verso, refere o poema pelo título e descreve a situação.
- Duas causas que são a mesma. «O amor é contraditório» e «o amor provoca sentimentos opostos», ditas em dois parágrafos, contam como uma.
- Saltar a introdução ou a conclusão. As três partes são pedidas e pesam no ED.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Títulos de poemas sem aspas (erro do tipo A): um soneto sem título refere-se pelo primeiro verso, entre aspas — «Alma minha gentil, que te partiste».
- Citação sem rigor (erro do tipo A): os versos entre aspas, à letra, com « / » na mudança de verso.
- Ortografia (erro do tipo A): «camoniana», «antítese», «paradoxo», «lírica», «saudade»; «Amor» com maiúscula quando é a entidade personificada.
- Vírgula a separar o sujeito do predicado (erro do tipo A): «O sofrimento amoroso na poesia de Camões, tem várias causas» — erro inequívoco.
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): chamar «personagem» ao sujeito poético, ou «estrofe» a um soneto inteiro.
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
A Parte C pede sempre o mesmo: uma exposição de três partes sobre uma obra que estudaste, com referências concretas. Prepara-a antes do exame: para cada autor do programa, guarda duas ou três ideias centrais e, para cada uma, um poema e um verso que saibas de cor. Em Camões lírico, quatro sonetos cobrem quase tudo: «Amor é fogo que arde sem se ver» (o amor contraditório), «Alma minha gentil, que te partiste» (a morte da amada, a saudade), «Sete anos de pastor Jacob servia» (o amor que não se concretiza) e «Erros meus, má fortuna, amor ardente» (a Fortuna e o Amor como forças superiores).
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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