O ponto de partida. Relacionar é mostrar a ligação entre duas coisas — aqui, o título e os versos 16 e 17. Os critérios pedem os dois tópicos: o que significa o título no poema, e como os versos 16 e 17 o justificam. Falar só de um deles deixa a relação por fazer.
1.º — o título: o que é uma súplica
Uma súplica é um pedido feito com insistência e humildade — implorar. Procura no poema os pedidos que o sujeito poético faz ao «tu»: estão todos no imperativo, e são quase sempre negativos:
- «Não respondas / Às urgentes perguntas / Que te fiz.» (vv. 3-5);
- «Deixa-me ser feliz / Assim» (vv. 6-7);
- «Não perturbes a paz que me foi dada.» (v. 15).
O poema inteiro é, portanto, uma súplica: o «eu» implora ao «tu» que não volte, que não responda às perguntas de outrora, porque isso lhe tiraria a paz que agora tem.
2.º — os versos 16 e 17: a razão do pedido
«Ouvir de novo a tua voz seria / Matar a sede com água salgada.» Lê a metáfora: quem tem sede e bebe água salgada não mata a sede — aumenta-a. A «sede» é o desejo que o sujeito poético ainda tem do ser amado; a «água salgada» é a voz do «tu». Ouvi-la parecia satisfazer o desejo, mas reacenderia a dor.
Repara no condicional «seria»: o sujeito poético ainda deseja ouvir essa voz — senão não falaria de sede —, mas sabe que lhe faria mal. A metáfora liga-se, aliás, ao resto do poema: o mar sem ondas do início e a água salgada do fim pertencem ao mesmo campo, o do mar.
3.º — fazer a relação
Agora junta as duas coisas: os versos 16 e 17 fundamentam a súplica. O sujeito poético implora ao «tu» que não responda porque sabe que ouvi-lo reavivaria o sofrimento. O título diz o quê (um pedido); os versos finais dizem o porquê.
4.º — escrever a resposta
Um parágrafo para o título (o que significa, com os imperativos transcritos), outro para os versos 16 e 17 (a metáfora explicada) e uma frase que diga a relação com um conector causal ou conclusivo («porque», «Assim»).
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível. Aqui são os dois tópicos que os critérios dão, ambos obrigatórios:
- nível 5 — 10 pontos: os dois tópicos adequados e um texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: os dois adequados com falhas de coesão, ou um adequado e outro com imprecisões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso com falhas de coesão, ou os dois imprecisos com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos, com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: refere-se adequadamente só ao sentido do título ou só ao sentido dos versos 16 e 17.
Repara no nível 1: quem só explica o título, ou só a metáfora, por muito bem que o faça, fica com 2 pontos. O dinheiro está na relação — dizer que os versos finais justificam o pedido do título.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Uma falha do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúscula/minúscula, morfologia, regras de citação) ainda não custa nada; uma do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E atenção: zero no C-ED arrasta zero na CL — um texto bem escrito que não responde à pergunta não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Explicar o título e a metáfora em separado, sem os ligar. É o erro que mais custa: o item pede a relação, e a relação é causal — o pedido existe porque a voz traria dor.
- Ler a metáfora à letra. Ninguém bebe água salgada no poema; «Matar a sede com água salgada» é a imagem de um remédio que agrava o mal.
- Dizer que o sujeito poético já não ama o «tu». Os versos 16 e 17 dizem o contrário: ainda há «sede» — o desejo continua. O que ele recusa é o sofrimento que o reencontro traria.
- Definir súplica sem a encontrar no poema. «Súplica é um pedido» é só meio tópico; tens de mostrar os pedidos (os imperativos) e a quem se dirigem.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar o título sem aspas (erro do tipo A): o título de um poema escreve-se entre aspas — «Súplica».
- Citar sem cumprir as regras de citação (erro do tipo A): «Matar a sede com água salgada» (v. 17), entre aspas, à letra, com o verso.
- Ortografia (erro do tipo A): «súplica» leva acento; «metáfora», «imperativo».
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): chamar «comparação» à metáfora — não há «como» nem outro termo comparativo nos versos 16 e 17.
- Regência (erro do tipo B): «o título remete o pedido» em vez de «remete para o pedido».
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando um item te pede para relacionar o título com uma parte do poema, a resposta tem sempre três tempos: o que o título significa no poema (com provas), o que os versos indicados dizem (com a figura explicada) e a ligação entre os dois, dita com um conector. Os versos finais de um poema, muito frequentemente, são a razão ou a conclusão daquilo que o título anuncia.