O ponto de partida. O verbo da instrução é referir: tens de dizer, com clareza, duas alterações que o sujeito poético sente na sua relação com as palavras. A frase de abertura do item já te entrega o método: o poema assenta numa oposição entre dois tempos, o presente («agora», vv. 1 e 15) e o passado («durante muitos anos», v. 11). Uma «alteração» é precisamente isso: como era antes e como é agora. Se só descreves o presente, ou só o passado, não referiste alteração nenhuma.
O poema é de Eugénio de Andrade, um dos poetas contemporâneos do programa do 12.º ano, e chama-se «AGORA AS PALAVRAS». O título já aponta para o presente: o poema fala do que as palavras são agora, por contraste com o que foram. Repara também numa coisa que atravessa o poema todo: as palavras são personificadas. Obedecem, resmungam, não respeitam, dançam, arreganham os dentes — comportam-se como pessoas (ou como animais difíceis de domar). É essa personificação que te dá as transcrições.
1.º — separar os versos do presente e os do passado
Antes de escrever, arruma os versos em duas colunas. Lê devagar e pergunta, verso a verso: isto é «agora» ou é «antes»?
O presente — as palavras rebeldes:
- vv. 1-2 — «Obedecem-me agora muito menos, / as palavras»: o advérbio «agora» e a comparação «muito menos» dizem-te logo que antes obedeciam mais. É a primeira oposição, e está no primeiro verso.
- vv. 2-5 — «A propósito / de nada resmungam, não fazem / caso do que lhes digo, / não respeitam a minha idade»: as palavras queixam-se sem motivo («A propósito / de nada»), ignoram o poeta e faltam-lhe ao respeito.
- vv. 6-9 — «Provavelmente fartaram-se da rédea, / não me perdoam / a mão rigorosa, a indiferença / pelo fogo de artifício»: o poeta tenta explicar a revolta. A «rédea» é a imagem do cavaleiro que controla o cavalo; as palavras cansaram-se do controlo, do rigor com que ele as trabalhou e de ele recusar os efeitos fáceis e vistosos («fogo de artifício»).
- vv. 15-18 — «mas agora / estão ariscas, escapam-se por entre / as mãos, arreganham os dentes / se tento retê-las»: o segundo «agora». «Ariscas» quer dizer esquivas, fugidias (nota 1). As palavras fogem-lhe e, se ele as tenta prender, mostram os dentes, como um animal acossado.
O passado — as palavras cúmplices:
- vv. 10-11 — «Eu gosto delas, nunca tive outra / paixão»: o amor do poeta pelas palavras é de sempre, e é único.
- vv. 11-13 — «e elas durante muitos anos / também gostaram de mim: dançavam / à minha roda quando as encontrava»: o amor era correspondido. A imagem da dança diz alegria, harmonia, festa.
- vv. 14-15 — «Com elas fazia o lume, / sustentava os meus dias»: as palavras davam calor e sustento à vida; eram aquilo de que ele vivia.
Repara no conector «mas agora» (v. 15): é a dobradiça do poema. Tudo o que está antes dele, nos vv. 10-15, é o passado feliz; tudo o que vem depois volta ao presente difícil.
2.º — transformar as colunas em alterações
Agora junta cada traço do passado ao traço do presente que se lhe opõe. É isto que os critérios chamam um tópico. Tens quatro possibilidades, e só precisas de duas:
- da obediência à rebeldia — antes as palavras obedeciam-lhe com facilidade; agora ignoram-no e fogem-lhe (vv. 1-4; vv. 16-17);
- do afeto à revolta — antes gostavam dele (vv. 11-12); agora «resmungam» (v. 3) e mostram-lhe os dentes (v. 17);
- da harmonia ao desentendimento — antes dançavam à sua roda (vv. 12-13); agora parecem zangadas e não respeitam a sua idade (vv. 2-5);
- do sentido da vida à frustração — antes alimentavam-lhe os dias (vv. 14-15); agora provocam-lhe frustração, porque ele quer trabalhá-las e não consegue (vv. 16-17).
Escolhe duas que sejam claramente diferentes uma da outra. Se escreves «antes obedeciam e agora não obedecem» e depois «antes faziam o que ele queria e agora não fazem», disseste a mesma alteração duas vezes, e o corrector conta um tópico. A combinação mais segura é a primeira (obediência/domínio) com a segunda ou a terceira (afeto, harmonia), porque uma fala do poder do poeta sobre as palavras e a outra da relação afetiva com elas.
3.º — escrever a resposta
Cada alteração precisa de três coisas: o antes, o agora e a prova (uma transcrição curta, entre aspas, com o verso). Uma estrutura que funciona sempre:
- uma frase de abertura que diga que a relação mudou;
- um parágrafo por alteração, cada um aberto por um conector («Em primeiro lugar», «Além disso», «Em segundo lugar») e construído com uma oposição explícita («no passado…, enquanto, no presente…»; «antigamente…, ao passo que agora…»);
- uma frase final que resuma a mudança.
Os conectores de oposição são o coração desta resposta: são eles que fazem a alteração aparecer. Sem «enquanto», «mas», «ao passo que», o corrector lê duas descrições soltas em vez de uma mudança.
4.º — uma resposta de nível máximo
A resposta de exame deste item é uma resposta de nível 5. Repara porquê:
- refere duas alterações distintas — a perda de domínio sobre as palavras e a passagem da harmonia ao conflito —, que correspondem ao 1.º e ao 2.º/3.º tópicos dos critérios;
- em cada uma diz o passado e o presente, e não apenas um deles;
- fundamenta cada lado com transcrições curtas, à letra, entre aspas, com a barra a marcar a mudança de verso («não fazem / caso do que lhes digo») e a indicação dos versos;
- tem progressão: abertura, dois parágrafos com conectores, conclusão de uma linha.
Não precisas de mais. Uma terceira alteração não dá pontos extra e aumenta o risco de erros de língua.
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível:
- nível 5 — 10 pontos: duas alterações, ambas adequadas, com coesão que assegura a progressão;
- nível 4 — 8 pontos: duas adequadas mas com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou uma adequada e outra com pequenas imprecisões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: uma adequada e outra imprecisa com falhas de coesão, ou as duas imprecisas com boa coesão, ou só uma alteração, adequada, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: as duas imprecisas com falhas de coesão, ou uma só, adequada, com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: uma só alteração, com imprecisões.
Repara no nível 3: uma única alteração, por muito bem escrita, vale no máximo 6 pontos. A pergunta pede duas, e é aí que está o dinheiro.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Um erro do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúscula/minúscula, regras de citação) ainda não custa nada; um do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E zero no C-ED arrasta zero na CL: uma resposta impecável na língua que não refere nenhuma alteração não recebe nada.
onde se perdem pontos
- Descrever só o presente. «As palavras resmungam, fogem e arreganham os dentes» é uma descrição, não uma alteração. Falta o «antes».
- Dizer duas vezes a mesma alteração. Obedecer e fazer caso são a mesma ideia; conta como um tópico, e caís no nível 3.
- Inventar o passado. O passado está nos vv. 10-15, e só aí. Não digas que antes o poeta «escrevia muito» ou «era famoso»: o poema não o diz.
- Esquecer que é o sujeito poético que sente. O item pergunta pelas alterações sentidas pelo sujeito poético. Escreve «o sujeito poético», não «o autor» nem «Eugénio de Andrade», quando falas do «eu» do poema.
- Responder sem transcrições. Este item não exige transcrições na instrução, mas os tópicos dos critérios ancoram cada alteração em versos. Sem prova, a alteração fica vaga — é o caminho para as «pequenas imprecisões».
- Ler «rédea» à letra. Não há cavalo nenhum: é a metáfora do controlo que o poeta exercia sobre as palavras.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar sem aspas, sem o verso, ou alterando o texto (erro do tipo A): «não fazem / caso do que lhes digo» (vv. 3-4), com a barra na mudança de verso.
- O título da obra ou do poema sem destaque (erro do tipo A): «Agora as Palavras» entre aspas; um livro (O Sal da Língua) sublinhado à mão.
- Concordância (erro do tipo B): «as palavras obedecia-lhe» — o sujeito é plural.
- Vírgula entre o sujeito e o verbo (erro do tipo A): «As palavras, deixaram de lhe obedecer» está errado.
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando um item te diz que há uma oposição entre dois tempos e te pede alterações, a resposta faz-se em pares: antes / agora, cada par com o seu conector de oposição e a sua transcrição. Procura os marcadores temporais do poema («agora», «durante muitos anos», «mas agora») — são eles que dividem o texto. E escolhe pares que digam coisas diferentes: o corrector conta ideias, não frases.