O ponto de partida. O verbo é explicitar: tornar claro, por palavras tuas, aquilo que está implícito. Os objetivos subjacentes às falas de Jorge são o que ele pretende conseguir quando fala — não o que diz, mas para que o diz. A pergunta a fazer a cada fala é: «o que quer Jorge que aconteça a Manuel com estas palavras?». O item pede dois objetivos.
Situa a cena. Ato III de Frei Luís de Sousa: o Romeiro revelou-se D. João de Portugal, o primeiro marido de Madalena, vivo. Manuel percebe que o seu casamento é nulo e que Maria fica sem nome. Frei Jorge, o irmão, é frade dominicano; ao longo da peça é a voz da serenidade, da fé e da conciliação. Aqui, fala com um irmão que está em desespero.
1.º — ler as falas de Jorge, uma a uma
Jorge fala três vezes (os nomes estão nas linhas 8, 15 e 27). Lê cada fala com a fala de Manuel que vem antes, porque é a ela que Jorge responde.
- 1.ª fala (ll. 9-10). Manuel acabou de dizer que Deus o castigou (ll. 6-7). Jorge responde: «Paciência, paciência: os seus juízos são imperscrutáveis.» — imperscrutáveis é insondáveis, misteriosos (nota 1). E a didascália: «Acalma e faz sentar o irmão: tornam a ficar ambos como estavam.» (ll. 9-10). A repetição de «paciência», o gesto de o sentar → acalmar o ânimo exaltado de Manuel, incutindo-lhe paciência e resignação perante a vontade de Deus.
- 2.ª fala (l. 16). Manuel diz-se «o homem mais infeliz da terra» (l. 12). Jorge pega nas palavras dele e devolve-as em forma de pergunta implícita: «Tu chamas-te o homem mais infeliz da terra... Já te esqueceste que ainda está vivo aquele…» → questionar os pressupostos do discurso de Manuel: será ele, de facto, o mais infeliz? A frase fica suspensa nas reticências, e Manuel completa-a sozinho («É verdade.», l. 18) — o objetivo foi atingido.
- 3.ª fala (ll. 28-30). Manuel volta à «desonra» (l. 26). Jorge: «Vê a palavra que disseste, «desonra»: lembra-te dela e de ti, e considera se podes pleitear misérias com esse homem a quem Deus não quis acudir com a morte antes de conhecer essoutra agonia maior.» Pleitear é disputar (nota 6): Jorge pede-lhe que compare a sua dor com a de D. João, que sofreu o cativeiro e agora a perda da mulher — uma «agonia maior» (l. 30) → apaziguar o sofrimento do irmão, lembrando-lhe que há outras vítimas da tragédia e que a dor dele não é a única.
Os critérios dão estes três objetivos como tópicos. Precisas de dois, e o mais seguro é escolher dois de falas diferentes, porque assim cada um tem a sua prova própria.
2.º — construir a resposta
Um parágrafo por objetivo. Em cada um:
- diz o objetivo com um verbo de intenção — «acalmar», «consolar», «levar Manuel a…», «fazê-lo refletir sobre…»;
- mostra a que é que Jorge reage (o que Manuel acabou de dizer);
- cita a fala de Jorge, entre aspas e com a linha;
- se houver, aproveita a didascália — «Acalma e faz sentar o irmão» é a prova mais direta que o texto te dá do primeiro objetivo.
Liga os parágrafos com «Além disso», «Por outro lado», e fecha, se quiseres, com uma frase que mostre o que os dois objetivos têm em comum (consolar o irmão).
3.º — uma resposta de nível máximo, comentada
A resposta de exame deste item trata o 1.º e o 3.º tópicos. O que a põe no nível 5:
- os objetivos estão ditos como finalidades («o objetivo de acalmar o ânimo exaltado do irmão», «procura apaziguar o sofrimento»), não como resumos das falas;
- cada objetivo é ancorado na fala de Manuel a que responde («Perante o desespero de Manuel…», «Quando o irmão se diz…»);
- as transcrições são exatas e trazem a linha; a didascália é usada como prova;
- o vocabulário difícil é explicado com naturalidade («imperscrutáveis», «isto é, que não cabe ao homem compreendê-los») — mostra que percebeste, e não só que copiaste.
Repara que a resposta não diz «Jorge diz paciência». Diz para que o diz. É a diferença entre o nível 5 e um tópico «com imprecisões».
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível, cruzando duas coisas: quantos tópicos tratas bem (dois adequados, um adequado e outro impreciso, dois imprecisos, só um) e se a coesão do teu texto assegura a progressão das ideias ou a compromete:
- nível 5 — 10 pontos: explicita dois tópicos, ambos adequadamente, num texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: os dois tópicos adequados, mas com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou um adequado e outro com pequenas imprecisões e/ou omissões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso, com falhas de coesão, ou os dois imprecisos, com boa coesão, ou só um tópico, adequado, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos com falhas de coesão, ou só um tópico adequado com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: explicita um só objetivo, com pequenas imprecisões e/ou omissões.
Repara no peso do número: um só tópico, por muito bem tratado que esteja, nunca passa do nível 3 (6 pontos). O item pede dois, e é o segundo que vale os outros quatro pontos.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Os erros do tipo A são de pontuação, ortografia (incluindo acentuação, translineação e maiúsculas/minúsculas), morfologia e incumprimento das regras de citação ou de referência a um título; os do tipo B são de sintaxe e de impropriedade lexical. Um erro do tipo A ainda não custa nada; um do tipo B custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E atenção: zero no C-ED arrasta zero na CL — um texto bem escrito que não responde ao que se pergunta não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Resumir as falas em vez de dizer o objetivo. «Jorge diz a Manuel que tenha paciência e que D. João está vivo» é um resumo. O objetivo é o porquê: acalmá-lo, fazê-lo relativizar a sua dor.
- Dois objetivos que são um só. «Acalmar Manuel» e «tranquilizar o irmão» são o mesmo tópico com palavras diferentes. Vale um.
- Atribuir a Jorge falas de Manuel. «padeceu mais, padeceu mais longamente» (ll. 18-19) é Manuel a falar, já depois de Jorge o ter feito pensar. Pode servir para mostrar que Jorge atingiu o objetivo, mas não é fala de Jorge.
- Não identificar «aquele» e «esse homem». São D. João de Portugal. Sem o dizeres, o terceiro tópico fica impreciso: o corrector não sabe se percebeste com quem Jorge compara Manuel.
- Ver em Jorge uma crítica ao irmão. Jorge não acusa Manuel; corrige-o com carinho («Tu chamas-te…»). Dizer que «Jorge quer humilhar Manuel» é uma leitura errada da personagem.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar sem as regras (erro do tipo A): aspas, as palavras exatas («imperscrutáveis», «pleitear»), a linha. Uma citação dentro de outra («Vê a palavra que disseste, «desonra»…») fica como o texto a imprime.
- Ortografia das palavras do texto (erro do tipo A): «imperscrutáveis», «pleitear», «agonia».
- O título (erro do tipo A): Frei Luís de Sousa, sublinhado ou entre aspas na folha; «Frei Jorge» com maiúscula.
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): «Jorge acalmiza o irmão» — a palavra é «acalma».
- Respostas em maiúsculas: cinco pontos de desconto na prova inteira.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando te pedem os objetivos das falas de uma personagem, lê cada fala como uma resposta à fala anterior do interlocutor e pergunta: «o que quer ela que o outro sinta, pense ou faça?». A resposta começa sempre por um verbo de intenção (acalmar, convencer, consolar, alertar, questionar). Em Frei Luís de Sousa, Frei Jorge é a figura da serenidade e da fé: quase tudo o que diz tem por fim apaziguar.