O ponto de partida. O Grupo III vale 44 pontos — mais de um quinto da prova — e, nesta prova, pede um texto de opinião. É um género com marcas fixas, e o parâmetro A corrige-as uma a uma: um ponto de vista explícito, dois argumentos, um exemplo para cada argumento, discurso valorativo e uma conclusão. Tudo entre 200 e 350 palavras.
O tema é dado por uma afirmação: «Cada indivíduo tem a sua própria visão do mundo, baseada quer nas suas experiências pessoais, quer nos conhecimentos adquiridos na escola.» E a instrução diz exatamente sobre o que tens de opinar: o contributo das experiências pessoais e dos conhecimentos adquiridos na escola para o enriquecimento da visão que cada indivíduo constrói do mundo. Repara que são duas fontes. Um texto que fale só da escola, ou só da vida, trata o tema com desvios — e isso paga-se no parâmetro B.
planear antes de escrever
Gasta cinco minutos a fazer um plano no rascunho. É o tempo mais bem gasto do grupo, porque um texto de opinião falha quase sempre por falta de estrutura, e não por falta de ideias.
1. Escolhe a tese. Há três posições defensáveis, e todas valem o mesmo — o corrector não avalia a tua opinião, avalia como a defendes:
- as duas fontes completam-se e são ambas indispensáveis (a mais fácil de defender, porque responde às duas partes do tema);
- a escola contribui mais (dá-nos o que nunca viveríamos; organiza o pensamento);
- a experiência contribui mais (só o vivido muda convicções; a escola fica na teoria).
Se escolheres uma das duas últimas, não ignores a outra fonte: reconhece-a e diz porque pesa menos. Assim tratas o tema inteiro.
2. Dois argumentos distintos. Um argumento é uma razão que sustenta a tese, não um exemplo. Para a primeira tese, por exemplo:
- argumento 1 — a escola alarga o horizonte para além do que vivemos;
- argumento 2 — a experiência transforma o saber em convicção e dá-lhe sentido.
Distintos quer dizer que não podem ser a mesma ideia com outras palavras («a escola ensina muito» e «a escola dá muitos conhecimentos» são um só).
3. Um exemplo significativo para cada argumento. O exemplo é um caso concreto que ilustra a razão: uma disciplina, uma obra lida, uma situação vivida, um facto. Significativo quer dizer concreto e ligado ao argumento — «por exemplo, na escola aprendemos coisas» não é exemplo nenhum; «as aulas de História permitem perceber as desigualdades nascidas da Revolução Industrial» é.
4. O discurso valorativo. Juízos de valor, explícitos ou implícitos: adjetivos e advérbios avaliativos («indispensáveis», «lamentável», «sem dúvida»), verbos de opinião («defendo», «considero»), modalização. Espalha-os pelo texto, sobretudo na tese e na conclusão.
5. A conclusão. Retoma a tese com outras palavras e fecha a argumentação — sem ideias novas, sem argumentos que não desenvolveste.
O plano fica com quatro ou cinco parágrafos: introdução com a tese, argumento 1 + exemplo, argumento 2 + exemplo, conclusão.
1.º — escrever com as marcas do género
- Introdução (2 a 4 frases): apresenta o tema e diz a tua posição. Uma fórmula de opinião explícita ajuda o corrector: «Na minha perspetiva, …», «Considero que…».
- Desenvolvimento: um parágrafo por argumento, cada um aberto por um conector de enumeração («Em primeiro lugar», «Em segundo lugar», «Além disso») e com o exemplo introduzido de forma visível («Por exemplo», «Do mesmo modo», «É o caso de…»).
- Conclusão: aberta por um conector conclusivo («Em suma», «Concluindo», «Em síntese»).
- Mantém a mesma pessoa do princípio ao fim (o «eu» da opinião e o «nós» de quem generaliza convivem bem; o «tu» não pertence a este registo) e o mesmo tempo verbal.
2.º — um texto de nível máximo, comentado
A resposta de exame deste item tem 283 palavras (contadas como manda a prova: cada sequência entre espaços é uma palavra; «completam-se» é uma). Repara como cada marca do parâmetro A está à vista:
- ponto de vista — no fim da introdução: «Na minha perspetiva, os dois contributos são indispensáveis e completam-se»;
- argumento 1 — «os conhecimentos adquiridos na escola alargam o nosso horizonte muito para além daquilo que poderíamos viver»; exemplo — as aulas de História e a Revolução Industrial, reforçado pela leitura de Os Lusíadas e de Frei Luís de Sousa;
- argumento 2 — «só a experiência pessoal transforma esse saber em convicção»; exemplo — o aluno que estuda a pobreza em Geografia e depois participa numa recolha de alimentos;
- discurso valorativo — «indispensáveis», «sem dúvida, um empobrecimento», «a visão do mundo mais rica», «um erro lamentável»;
- conclusão — «Em suma, a visão do mundo mais rica é a de quem consegue cruzar o que aprendeu nos livros com o que descobriu por si próprio», que retoma a tese sem a repetir palavra por palavra.
No parâmetro C, repara nos conectores («Em primeiro lugar», «Do mesmo modo», «Em segundo lugar, porém», «por isso», «Em suma») e nas cadeias de referência: «esse saber», «É nesse momento», «confirma-a, corrige-a e, por vezes, desafia-a» retomam o que veio antes sem repetir os nomes.
se preferires defender que uma das fontes pesa mais
A tese das duas fontes complementares não é obrigatória. Se defenderes que a experiência pessoal contribui mais, os argumentos podem ser: (1) só o vivido muda convicções — exemplo: quem nunca tinha pensado na solidão dos idosos até fazer voluntariado num lar; (2) a experiência ensina o que a escola não programa — exemplo: o primeiro emprego de verão, que ensina responsabilidade e o valor do dinheiro. E reconheces a escola numa frase de concessão («É certo que a escola nos dá os conceitos; contudo…»), para tratares o tema inteiro. Se defenderes que a escola contribui mais, inverte: (1) a escola dá-nos o que nunca viveríamos (a História, as ciências, a literatura); (2) a escola ensina a pensar criticamente sobre o que vivemos — exemplo: a análise de notícias falsas numa aula. Com qualquer das três teses, o esqueleto e a cotação são os mesmos.
como este item é corrigido
São quatro grelhas que somam: 10+10+10+14=44 pontos. Em cada uma das três primeiras o corrector escolhe um nível (10, 8, 5 ou 3 pontos):
- A — Género/Formato Textual (10): as marcas do texto de opinião. No nível 4 estão todas (ponto de vista, dois argumentos distintos, um exemplo para cada, discurso valorativo, conclusão). Dois argumentos com um só exemplo desce para 8; um só argumento desce para 5. A pertinência dos argumentos e dos exemplos não se avalia aqui, mas no B.
- B — Tema e Pertinência da Informação (10): tratar o tema sem desvios (as duas fontes, a visão do mundo) com eficácia argumentativa: argumentos e exemplos diversificados e pertinentes, progressão coerente, vocabulário e registo adequados.
- C — Organização e Coesão Textuais (10): partes proporcionadas e articuladas, parágrafos bem marcados, conectores adequados, cadeias de referência mantidas, coerência de pessoa, tempo e espaço.
Atenção à regra mais dura do grupo: zero no parâmetro A ou no parâmetro B arrasta zero em todos os outros, incluindo a CL. Um texto que não seja de opinião (uma narrativa, uma exposição neutra) ou que fuja do tema perde os 44 pontos, por bem escrito que esteja.
CL — correção linguística (14): contam-se os erros do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúsculas, morfologia, regras de citação e de referência a títulos) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lê-se a pontuação no cruzamento — linha = erros do tipo B, coluna = erros do tipo A:
| B \ A | 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
|---|
| 0 | 14 | 14 | 14 | 11 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 |
| 1 | 14 | 11 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — |
| 2 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — |
| 3 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — |
| 4 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 6 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 7 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
Como se lê: sem erros do tipo B, até dois erros do tipo A ainda valem os 14 pontos, e cada bloco de três erros A desce um degrau (11, 8, 5, 2). Mas um único erro do tipo B já faz cair para 11 ao primeiro erro A, e com dois erros B não há 14 possível. Os erros de sintaxe e de vocabulário pesam muito mais do que os de pontuação. Fora da tabela (por exemplo, 6 erros B e 1 erro A), a CL vale zero.
Depois de tudo somado, aplica-se o desconto das palavras: fora do intervalo de 200 a 350, um ponto por cada palavra a mais ou a menos, até ao máximo de 5; com menos de 80 palavras, o texto vale zero. Um texto de 195 palavras perde 5 pontos; um de 352, 2.
onde se perdem pontos
- Não escrever um texto de opinião. Uma exposição neutra («Há quem pense que… e há quem pense que…») sem posição tua falha a primeira marca do género. Diz claramente o que pensas.
- Um só argumento, ou dois que são o mesmo. É o erro mais caro do parâmetro A: desce para 5 pontos.
- Argumentos sem exemplo. Cada argumento precisa do seu exemplo concreto. Dois argumentos e um exemplo valem 8, não 10.
- Exemplos genéricos. «Por exemplo, na escola aprendemos muitas coisas úteis» não é um exemplo significativo; perde no B.
- Falar só de uma das fontes. O tema pede as experiências pessoais e os conhecimentos da escola. Ignorar uma é um desvio, e o B baixa.
- Conclusão que é um resumo mecânico ou que traz ideias novas. Deve retomar a tese e fechar a argumentação.
- Não contar as palavras. Conta-as no rascunho, por parágrafo. Abaixo de 200 ou acima de 350, cada palavra custa um ponto, até 5.
- Parágrafos mal marcados ou um bloco único. É um aspeto avaliado expressamente no parâmetro C.
Na correção linguística, os erros que este tema convida a cometer:
- Vírgula entre o sujeito e o verbo (erro do tipo A): «Os conhecimentos adquiridos na escola, alargam o horizonte» está errado.
- Títulos sem destaque (erro do tipo A): se citares Os Lusíadas, sublinha na folha ou usa aspas.
- Concordância (erro do tipo B): «A escola e a experiência contribui» → «contribuem».
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): «a escola influencia-nos a ser melhores» → «leva-nos a ser melhores».
- «Há» e «à» (erro do tipo A): «há muitos anos» (tempo passado, verbo haver) e «à escola» (preposição a + artigo a).
- Escrever o texto todo em maiúsculas: cinco pontos de desconto na prova inteira.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Todo o texto de opinião do Grupo III se resolve com o mesmo esqueleto: tese → argumento 1 + exemplo → argumento 2 + exemplo → conclusão, com juízos de valor espalhados e entre 200 e 350 palavras. Antes de escrever, sublinha no enunciado sobre o que exatamente tens de opinar (aqui, as duas fontes da visão do mundo) — é por aí que se perde ou ganha o parâmetro B, e um zero no A ou no B leva o grupo inteiro.