O ponto de partida. O verbo é explicar: não basta dizer o que os versos dizem, tens de dizer o que significam e porquê. E o item fixa a medida: «com base em dois aspetos». São dois versos curtos — «O portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível» —, por isso cada palavra pesa. Os aspetos que vais explicar estão escondidos em três palavras: pássaro, puro e possível.
1.º — ler os versos devagar
O primeiro verso é uma definição, com o verbo «ser» no presente: «O portugal futuro é um país». O que vem a seguir diz que país é esse: um país «aonde o puro pássaro é possível», isto é, um lugar onde o pássaro puro pode existir. Os dois versos são, portanto, a primeira definição do país sonhado — e tudo o resto do poema a desenvolve.
Repara num pormenor gráfico: «portugal», com minúscula (e, no v. 12, «espanha»). Não é descuido — o poeta não fala do país que existe, com o seu nome oficial, mas de um país ainda por inventar. Não precisas de o dizer na resposta, mas ajuda-te a perceber o tom.
2.º — primeiro aspeto: o pássaro — a liberdade
O «pássaro» é uma metáfora. O que é que um pássaro tem que o torna símbolo de alguma coisa? Voa, vai para onde quer, não está preso ao chão — é o símbolo tradicional da liberdade. Dizer que o Portugal futuro é um país onde o pássaro é possível é dizer que será um país regido pelo princípio da liberdade, onde cada um pode voar e decidir por si.
Pensa no contexto: País Possível foi publicado originalmente em 1973, ainda durante o Estado Novo, um regime sem liberdade de expressão. Um país «aonde o puro pássaro é possível» lê-se, por isso, também por contraste com o país do presente, onde o pássaro não o era.
3.º — segundo aspeto: «puro» — a pureza
O pássaro não é um pássaro qualquer: é «puro». O adjetivo, anteposto ao nome (o que lhe dá mais força), acrescenta à liberdade a ideia de pureza — pureza dos princípios, dos sentimentos, das intenções. É uma liberdade sem mácula, sonhada no seu estado mais limpo. Os critérios falam de uma hiperbolização do valor da liberdade: o país futuro será livre ao mais alto grau.
4.º — terceiro aspeto: «possível» — o anseio ainda por cumprir
O verso não diz que o pássaro existe nesse país, nem que existirá: diz que «é possível». A palavra que fecha o v. 2 (e que dá título ao livro, País Possível) põe tudo no plano da possibilidade. O país livre e puro é desejável, inequivocamente bom — mas ainda não está concretizado. Nada está definido nem decidido; é um anseio, uma esperança.
Repara no contraste com o resto do poema: a partir do v. 4, o poeta passa ao futuro («desenharão», «será», «serei», «dançarão»), que tem um tom de certeza. Os dois primeiros versos, no presente e com «possível», são mais cautelosos: abrem o sonho como uma hipótese.
5.º — escolher dois aspetos e escrever
Os critérios dão três tópicos — liberdade (o pássaro), pureza («puro»), possibilidade («é possível») — e pedem dois. Qualquer par serve, mas o par liberdade + possibilidade é o mais fácil de explicar com clareza, porque os dois aspetos são bem distintos: um diz o que o país será, o outro diz em que ponto está esse sonho. A pureza pode entrar como complemento do primeiro, como na resposta modelo — mas não contes com ela como segundo aspeto se não a desenvolveres.
Estrutura: uma frase de abertura com o sentido global; um parágrafo por aspeto, cada um com a palavra transcrita, o recurso (a metáfora, o adjetivo) e a explicação do sentido. Conectores como «Por um lado… Por outro lado…» marcam bem os dois aspetos.
6.º — um aspeto bem explicado tem três coisas
- a palavra ou expressão do texto, entre aspas, com o verso: «pássaro» (v. 2), «é possível» (v. 2);
- o que ela é (uma metáfora, um adjetivo, uma forma verbal);
- o que significa no poema — e é esta a parte que vale os pontos. «O pássaro é uma metáfora» sem dizer «da liberdade» é um aspeto por explicar.
como este item é corrigido
São 13 pontos: 10 no C-ED e 3 na CL, que somam. No C-ED, o corretor escolhe um nível:
- nível 5 — 10 pontos: dois tópicos abordados adequadamente e um texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: dois adequados com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou um adequado e outro com imprecisões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso com falhas de coesão, ou dois imprecisos com boa coesão, ou um tópico só, adequada, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: dois imprecisos com falhas de coesão, ou um tópico só, adequada, com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: um tópico, com pequenas imprecisões e/ou omissões.
Um aspeto só vale como adequado se o sentido estiver explicado. Uma resposta só com o pássaro, bem explicado, fica nos 6.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Até um erro do tipo A, os 3 pontos ficam inteiros; dois custam um ponto; três, dois. Um erro do tipo B custa logo um ponto. Com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero — e zero no C-ED arrasta zero na CL.
onde se perdem pontos
- Parafrasear em vez de explicar. «O poeta diz que o Portugal futuro é um país onde o pássaro é possível» repete o verso; não explica nada. O item pede o sentido.
- Ler o pássaro à letra. «No futuro haverá pássaros em Portugal» é ficar na superfície. O pássaro é uma metáfora — e a pergunta é: de quê?
- Ignorar o «possível». Quem lê os dois versos como uma certeza («Portugal será livre») perde o tópico mais subtil e falseia o tom: a certeza vem depois, com o futuro; aqui ainda é possibilidade.
- Dois aspetos que são um só. «O pássaro simboliza a liberdade» e «o país será livre» são o mesmo aspeto. Se usares «puro» como segundo aspeto, tens de dizer o que acrescenta (a pureza, a hiperbolização do valor da liberdade).
- Sair dos dois primeiros versos. O item é sobre os vv. 1-2. Podes referir o resto do poema numa frase, para contrastar, mas os dois aspetos têm de estar nestes versos.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar com a ortografia «corrigida» (erro do tipo A): o poema escreve «portugal» com minúscula, e uma citação reproduz o texto à letra. Fora das aspas, ao falares do país, escreve Portugal.
- «Aonde» e «onde»: o poema usa «aonde» com valor de «onde» — na citação, mantém-no; na tua prosa, usa «onde» para lugar sem movimento.
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (erro do tipo A): «O puro pássaro, simboliza a liberdade» — erro inequívoco.
- Impropriedade lexical (erro do tipo B): chamar «comparação» à metáfora (não há «como»), ou «personagem» ao sujeito poético.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando um item te pede o sentido de um ou dois versos, sublinha neles as palavras com mais peso — os nomes com valor simbólico (o pássaro, o mar, a noite), os adjetivos e as palavras que marcam modalidade ou tempo («possível», «talvez», «será»). Cada uma é um aspeto em potência. Para cada aspeto: a palavra, o recurso, o sentido.