Exame de Português 2026 · Época especial — item II.5, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2026 · Época especial
Leia o texto.
Evitar o sofrimento é um ato instintivo que integra a experiência humana. Do mesmo modo que tendemos a fugir daquilo que nos ameaça, procuramos proteger aqueles que amamos das palavras que anunciam desconforto e das emoções difíceis. Mas, por que razão é que resistimos aos sentimentos que incomodam, como a tristeza ou a desilusão? Porque somos confrontados com a vulnerabilidade humana, e esta assusta.
Escutar o sofrimento dos outros é tocar também no nosso, por isso, perante uma história marcada pela dor, apressamo-nos a oferecer uma espécie de consolo encapsulado em afirmações ligeiras, na maior parte das vezes com boa intenção, mas que, em vez de provocar alívio, isola quem ouve. «Não fiques assim, tenta ver o lado bom do que aconteceu», ou «Pensa positivo!». Este hábito individual, e social, de fugir às emoções adversas, associado à ideia de que existe sempre algo bom em tudo o que acontece, abafa as vicissitudes da vida com a falsa positividade do «Vai ficar tudo bem» e reflete um brilho enganador de uma felicidade constante que, na verdade, pode conduzir à invalidação da experiência emocional e dificultar a integração ajustada da mesma.
É essencial relembrar que são os sentimentos que nos definem enquanto seres humanos e sociais, e que, além disso, todos têm um valor e uma função. Contudo, é cada vez mais notória a dificuldade das pessoas em abraçar aqueles sentimentos que trazem desafios e constrangimentos — quer sejam nossos quer dos outros. A tristeza, a raiva, a ansiedade, o medo, a culpa, entre outros, são tão necessários e legítimos quanto a alegria, o amor e a gratidão. Simplesmente, apontam para necessidades emocionais não satisfeitas, limites não respeitados e feridas. O problema não é sentir raiva, mas, sim, não saber processá-la. Aprendemos, então, a construir uma fachada emocional sempre positiva, escondendo a dor para sermos socialmente aceites e não incomodar ninguém. Como resultado, passamos a fingir constantemente alegria e satisfação, apesar de carregarmos tristeza ou mágoa.
Certo é que este esconderijo emocional não faz desaparecer os sentimentos difíceis, mas abafa-os apenas e reforça a dificuldade em os expressar e lidar com eles. Evitar sentir e negar o lugar das emoções nos acontecimentos de vida apenas fornece um alívio temporário, porque uma emoção não acolhida não desaparece, apenas prolonga o seu eco e perpetua o sofrimento. [...]
Viver sem aceitar que não vamos estar sempre bem é perder a natureza humana. Negar aquilo que magoa retira-nos a capacidade de empatia, enfraquece a resiliência face às adversidades, aumenta a intolerância ao desconforto e dificulta o desenvolvimento da autocompaixão.
Reconhecer, normalizar e acolher o sofrimento como parte de nós não significa renunciar à alegria ou ao otimismo, mas, sim, abrir espaço para que todas as emoções convivam, sem culpa ou vergonha. É no acolhimento e na aceitação emocional, não no evitamento, que reside a possibilidade de dar sentido à nossa experiência. Só assim poderemos escutar, verdadeiramente, as nossas feridas e as dos outros.
Vera Ramalho, «Valorizar os nossos sentimentos (e os dos outros) quando não está tudo bem», Público, 12 de outubro de 2025, p. 22. (Texto adaptado)
As orações «quem ouve» (linha 9) e «que não vamos estar sempre bem» (linha 30) classificam-se como
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
Este tópico tem mais 4 exercícios resolvidos
Ler um resolve hoje; fazer o tópico inteiro é o que muda a nota.
- ✓Treinar o tópico inteiro, um a um
- ✓O que erras volta sozinho, no dia em que ias esquecer
- ✓Fazer o exame completo a tempo, como no dia
- ✓Ver o que já sabes, tópico a tópico