Exame de Português 2025 · Época especial — item III, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2025 · Época especial
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica do cartoon intitulado «Para o meu amor!», da autoria de Ali Divandari.
No seu texto, deve incluir:
- a descrição da imagem apresentada, destacando elementos significativos da sua composição;
- um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspetos relevantes e utilizando um discurso valorativo;
- uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.

www.cartoonmovement.com/cartoon/my-love. (consultado em 03/02/2025).
Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2025/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:
- um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
- um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
O cartoon «Para o meu amor!», de Ali Divandari, mostra uma árvore solitária numa paisagem árida. O tronco, castanho e retorcido, parece formado por dois troncos enlaçados que sobem em espiral, como dois corpos abraçados. Os ramos, uns despidos, outros cobertos de folhas tenras, verdes e avermelhadas, inclinam-se para a esquerda, como se fossem fustigados pelo vento. Um deles estende-se como um braço e segura um ninho com dois ovos brancos. Na parte inferior do tronco, pousado de lado, está um pássaro de cores vivas, com penacho e uma longa cauda. Ao fundo, o azul do céu dissolve-se num chão seco, de tons alaranjados.
Na minha opinião, o artista constrói uma bela metáfora do amor como dádiva e proteção. A árvore, que resiste ao vento e à secura, não guarda as forças só para si: oferece ao pássaro um abrigo seguro para a sua descendência. O título, escrito como uma dedicatória exclamativa, sugere que este gesto é, ele próprio, uma declaração de amor.
Além disso, o cartoon lembra, de forma subtil, a interdependência entre os seres vivos. Num cenário hostil, a vida só continua porque a árvore e o pássaro precisam um do outro. A mensagem é especialmente pertinente numa época em que a destruição da natureza deixa sem lar tantas espécies que dela dependem.
Por fim, merece destaque a expressividade do desenho. O traço minucioso, a lápis de cor, e o contraste entre os tons frios do céu e os tons quentes da terra conferem à imagem uma atmosfera poética, quase onírica, que torna a mensagem mais comovente do que muitas palavras.
Em suma, trata-se de um cartoon notável, que, sem recorrer ao humor, transforma uma imagem simples numa reflexão profunda sobre o amor e a vida. Divandari mostra que amar é, acima de tudo, proteger quem se ama, mesmo quando o mundo à nossa volta parece seco e hostil.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. O Grupo III vale 44 pontos — mais de um quinto da prova — e, nesta prova, não pede um texto de opinião: pede uma apreciação crítica de um cartoon. É um género diferente, e quem escreve um texto de opinião genérico (sobre o amor, sobre a natureza) sem falar da imagem falha o género. A apreciação crítica tem duas partes que o enunciado separa: descrever o que se vê e comentar o que vale — e fecha com uma conclusão.
Lê as instruções como uma lista de verificação, porque é isso que elas são: cada travessão corresponde a um aspeto que o corrector procura no parâmetro A. Precisas de uma descrição da imagem com os elementos significativos da composição, de um comentário crítico fundamentado em, pelo menos, três aspetos, de discurso valorativo e de uma conclusão. E tudo isto entre 200 e 350 palavras.
1.º — observar antes de escrever
Gasta um ou dois minutos só a olhar para a imagem, de cima para baixo, e anota à margem o que vês. Neste cartoon:
- o título: «Para o meu amor!» — uma dedicatória, com ponto de exclamação; é a chave de leitura, porque a imagem não tem nenhuma palavra;
- a figura central: uma árvore solitária, de tronco castanho e retorcido em espiral, que parece feito de dois troncos enlaçados;
- os ramos: uns despidos, outros com folhas tenras, verdes e avermelhadas, todos inclinados para o mesmo lado, como se o vento os empurrasse;
- o ninho: um ramo estende-se, como um braço, e segura um ninho com dois ovos;
- o pássaro: colorido, com penacho e cauda longa, pousado na parte inferior do tronco;
- o cenário e a técnica: céu azul em cima, chão seco e alaranjado em baixo; desenho a lápis de cor, de traço minucioso.
Repara que a descrição já é escolha: não enumeras tudo, destacas o que vais usar no comentário. O enunciado di-lo assim: «destacando elementos significativos da sua composição».
2.º — interpretar: o que a imagem quer dizer
Um cartoon sem palavras obriga-te a ligar o título à imagem. Pergunta: quem diz «Para o meu amor!», e o que oferece? A leitura mais coerente com os elementos é a da árvore que oferece ao pássaro o ninho, com os seus ramos a servir de braço: o amor como dádiva e proteção da vida que vai nascer (os ovos). O tronco enlaçado reforça a ideia de abraço; o vento e o chão seco mostram que essa proteção acontece num ambiente hostil.
Não há uma única leitura certa — o critério B avalia a pertinência, não a coincidência com uma solução. Outras leituras são aceitáveis desde que se apoiem no que está na imagem: por exemplo, a natureza como mãe, ou um alerta ambiental. O que não podes é inventar elementos que não estão lá.
3.º — o comentário crítico: três aspetos, não três frases
Os critérios pedem um comentário «fundamentado em, pelo menos, três aspetos distintos». Um aspeto é um ângulo de apreciação diferente. Na resposta modelo, os três são:
- o sentido — a metáfora do amor como dádiva e proteção, apoiada no ninho e no título;
- a atualidade da mensagem — a interdependência dos seres vivos e a destruição da natureza;
- a técnica e a composição — o traço a lápis de cor e o contraste entre tons frios e quentes.
Repara que são aspetos de natureza diferente (o que diz, porque importa, como está feito). Três frases sobre a mesma ideia («é bonito», «é comovente», «é emocionante») contam como um aspeto.
Cada aspeto vai no seu parágrafo, aberto por um conector: «Na minha opinião,…», «Além disso,…», «Por fim,…».
4.º — o discurso valorativo
A apreciação crítica julga. Os critérios aceitam o juízo de valor explícito (adjetivos e expressões avaliativas: «uma bela metáfora», «especialmente pertinente», «merece destaque», «um cartoon notável») ou implícito (a escolha das palavras já mostra a apreciação: «atmosfera poética, quase onírica»). Garante que cada aspeto do comentário tem pelo menos um momento em que fica claro que estás a avaliar, e não só a descrever.
5.º — a conclusão
A conclusão retoma a apreciação e fecha o texto, sem acrescentar aspetos novos. Uma frase que sintetize o valor da obra funciona bem: «Divandari mostra que amar é, acima de tudo, proteger quem se ama, mesmo quando o mundo à nossa volta parece seco e hostil». Abre-a com um conector conclusivo: «Em suma,», «Em conclusão,», «Assim,».
6.º — a coesão: o que o parâmetro C procura
O parâmetro C avalia a organização do texto, e a lista do nível 4 diz-te exatamente o que fazer:
- partes proporcionadas: a descrição e o comentário são o corpo do texto; a conclusão é curta (na resposta modelo: cerca de 105 palavras de descrição, 160 de comentário e 50 de conclusão);
- parágrafos bem marcados: um para a descrição, um por aspeto do comentário, um para a conclusão — cinco parágrafos é uma estrutura segura;
- articulação interfrásica: conectores variados e adequados («Na minha opinião», «Além disso», «Por fim», «Em suma»);
- cadeias de referência: retomar sem repetir — «uma árvore solitária» → «A árvore» → «si»; «Os ramos» → «Um deles»; «o cartoon «Para o meu amor!»» → «O título» → «o cartoon»;
- coordenadas de enunciação coerentes: a descrição no presente («mostra», «segura», «está»), porque descreves o que está na imagem; o «eu» só para a opinião («Na minha opinião»). Não saltes sem razão para o passado nem entre «eu», «nós» e «você».
contar as palavras
Antes de passares a limpo — ou no rascunho, à medida que escreves —, conta as palavras. A regra é a das Observações: uma palavra é qualquer sequência entre espaços em branco, de modo que «trata-se» conta uma, e «2025» conta uma. A resposta modelo tem 311 palavras, dentro do intervalo de 200 a 350.
Um truque prático: conta as palavras de uma linha média da tua letra e multiplica pelo número de linhas. Se estiveres perto de um dos limites, conta palavra a palavra.
como este item é corrigido
São quatro parâmetros que somam: A (Género/Formato Textual, 10 pontos), B (Tema e Pertinência da Informação, 10 pontos), C (Organização e Coesão Textuais, 10 pontos) e CL (correção linguística, 14 pontos).
No A, o nível 4 (10 pontos) exige descrição com elementos significativos, comentário fundamentado em três aspetos distintos com discurso valorativo, e conclusão. Só dois aspetos (com o resto assegurado) desce para 8; só um aspeto desce para 5. A pertinência do que dizes não conta aqui: avalia-se no B.
No B, o nível 4 pede o tema tratado sem desvios e eficácia argumentativa: aspetos diversificados e pertinentes tanto na descrição como no comentário, progressão coerente e um vocabulário e registo adequados. Uma descrição pobre (só «é uma árvore com um pássaro») ou um comentário que se afasta da imagem fazem descer o nível.
No C, contam as partes proporcionadas, os parágrafos, os conectores, as cadeias de referência e as coordenadas de enunciação: falhas pontuais em um ou dois destes aspetos dão 8; em três ou mais, 5.
Zero no A ou no B arrasta tudo. Se o texto não for uma apreciação crítica (por exemplo, um texto de opinião sobre o amor que ignora o cartoon), ou não tratar o tema, tem zero nos restantes parâmetros da ETD e na CL — por mais bem escrito que esteja.
Na CL, contas os erros do tipo A (pontuação, ortografia e acentuação, morfologia, citação e referência a títulos de obras) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lês a tabela. Sem erros do tipo B: até 2 erros do tipo A ainda dão 14 pontos; 3 a 5 dão 11; 6 a 8 dão 8; 9 a 11 dão 5; 12 a 14 dão 2. Cada erro do tipo B pesa muito mais: com 1 erro do tipo B e nenhum do tipo A, ainda tens 14; com 2 erros do tipo B, 11; com 3, 8; com 6 ou 7 (e nenhum do tipo A), só 2. Para lá do que a tabela mostra, a CL vale zero.
Por fim, a extensão: fora do intervalo de 200 a 350 palavras, desconta-se 1 ponto por cada palavra a mais ou a menos, até ao máximo de 5 pontos, depois de aplicados os outros critérios; um texto com menos de 80 palavras vale zero.
onde se perdem pontos
- Escrever um texto de opinião em vez de uma apreciação crítica. É o erro mais caro desta prova: quem treinou só textos de opinião tende a discutir «o amor» em abstrato. Sem a descrição e sem o comentário à imagem, o género falha — e um zero no A arrasta o resto.
- Descrever sem comentar, ou comentar sem descrever. As duas partes são obrigatórias. Uma descrição longa sem juízo de valor não é apreciação crítica; um comentário sem descrição não mostra o que está a ser apreciado.
- Ficar por dois aspetos. Os critérios pedem pelo menos três aspetos distintos. Com dois, o A desce para 8. Planeia-os antes de escrever.
- Inventar o que não está na imagem. Uma descrição com elementos que não existem (pessoas, palavras, um sol) é uma falha de pertinência, avaliada no B.
- Esquecer o título. Num cartoon sem palavras, o título é parte da obra. Ignorá-lo empobrece a interpretação.
- Citar o título sem aspas, ou escrever mal o nome do autor (tipo A). O título de uma obra cita-se entre aspas ou sublinhado: «Para o meu amor!». O nome é Ali Divandari.
- Falhar a extensão. Com 195 palavras perdes 5 pontos; com 355 também. Com menos de 80, o texto vale zero. Conta.
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (tipo A). «O tronco castanho e retorcido, parece formado…» é erro inequívoco: a vírgula separa o sujeito do verbo. Ou isolas o que está intercalado com duas vírgulas («O tronco, castanho e retorcido, parece…»), ou não pões nenhuma.
- Vírgulas obrigatórias esquecidas (tipo A). Uma oração ou expressão intercalada isola-se dos dois lados («que, sem recorrer ao humor, transforma»); um modificador apositivo também («Ali Divandari, autor do cartoon, …»); os elementos de uma enumeração separam-se («o vento, a secura, o chão árido»).
- Ortografia e acentuação (tipo A). «árvore», «pássaro», «metáfora», «proteção», «descendência», «árida», «onírica», «há» (verbo) e «à» (preposição + artigo), «por que» e «porque». E as maiúsculas: nomes próprios, início de frase.
- Erros de sintaxe (tipo B). Frases sem verbo principal («Uma árvore com um ninho nos ramos e um pássaro no tronco.»), concordâncias erradas («os ramos da árvore inclina-se»), pronomes mal colocados («se inclinam-se»), regências trocadas («o artista alerta que» em vez de «alerta para o facto de»).
- Impropriedade lexical (tipo B). Usar uma palavra com um sentido que ela não tem: «o cartoon infere a ideia de amor» quando se quer dizer «sugere»; «um desenho muito descritivo» quando se quer dizer «pormenorizado».
- Mudar de registo sem intenção. Expressões coloquiais («tipo», «muito fixe», «está top») baixam a adequação do registo, avaliada no B.
- Escrever tudo em maiúsculas. Uma resposta escrita integralmente em maiúsculas desvaloriza a prova em cinco pontos.
para reconhecer o próximo item deste tipo
O Grupo III de Português nem sempre é um texto de opinião: lê a instrução e vê o género. Quando pede a apreciação crítica de uma imagem, a lista de verificação é: descrição com os elementos significativos (incluindo o título), comentário em três aspetos distintos com juízo de valor, conclusão, entre 200 e 350 palavras. Uma boa regra para os três aspetos é perguntar o que diz a obra, porque importa e como está feita. Escreve em parágrafos — descrição, um por aspeto, conclusão — e conta as palavras no fim.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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