O ponto de partida. O Grupo III vale 44 pontos — mais do que três itens do Grupo I juntos. Pede uma apreciação crítica de um cartoon, entre 200 e 350 palavras, com três partes obrigatórias que a própria instrução enumera:
- descrição da imagem, destacando elementos significativos da composição;
- comentário crítico fundamentado em, pelo menos, três aspetos relevantes, com discurso valorativo;
- conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.
Uma apreciação crítica não é uma descrição nem um texto de opinião sobre um tema: é um juízo de valor sobre a obra (o cartoon), apoiado no que ela mostra. Vais avaliar como a imagem diz o que diz, e se o diz bem.
1.º — ler o cartoon antes de escrever
Observa por camadas — o que está, como está, o que significa:
- o objeto central: um cavalo de baloiço de madeira — o brinquedo clássico da infância — vista de cima, com a cabeça, a pega e os dois arcos de balanço;
- o que lhe fizeram: sobre o assento está uma máquina de costura antiga, preta, com ornamentos. O cavalo deixou de servir para brincar: é uma bancada de trabalho;
- a figura humana: uma menina, com laço azul no cabelo e vestido azul-claro com laço branco, sentada num banquinho; curva-se sobre a máquina e cose um pano branco, de olhos baixos, rosto cansado;
- o espaço e a cor: um fundo cinzento, manchado, sem mais nada — nenhuma janela, nenhum outro brinquedo, nenhuma pessoa; tons apagados, castanhos da madeira, azul pálido da roupa;
- a sombra: grande, escura, projetada à direita — mais pesada e curvada do que a menina, quase a de uma adulta;
- a fonte: o cartoon é de Javad Takjoo e não tem título nem legenda — o sentido nasce todo da imagem.
O tema impõe-se: o trabalho infantil — a infância sacrificada à produção.
2.º — escolher três aspetos para o comentário
O parâmetro A exige pelo menos três aspetos distintos. Bons candidatos, cada um com o seu juízo de valor:
- a metáfora visual central — o brinquedo transformado em bancada de trabalho. É o achado do autor: numa só imagem junta a infância (o cavalo) e a exploração (a máquina). Juízo: engenhoso, eficaz, imediatamente legível;
- o contraste entre a criança e a tarefa — o laço, o vestido, o rosto infantil versus a postura curvada e o cansaço de uma operária. Juízo: comovente, provoca indignação sem palavras;
- a composição e a cor — o fundo neutro e sujo, os tons apagados, a ausência de qualquer elemento alegre; isola as figuras e torna a cena opressiva. Juízo: sóbria, sem excessos, ao serviço da mensagem;
- a sombra — maior e mais pesada, sugere a vida adulta imposta antes do tempo. Juízo: um pormenor subtil que enriquece a leitura;
- a atualidade do tema — a máquina antiga lembra a era industrial, mas o trabalho infantil persiste (as oficinas têxteis que abastecem o consumo global). Juízo: pertinente, interpela o observador.
Escolhe três (ou quatro) e dá a cada um um parágrafo. O que faz um aspeto contar não é mencioná-lo — é avaliá-lo: dizer que é «eficaz», «engenhoso», «perturbador», «pertinente», e porquê.
3.º — o discurso valorativo
É a marca do género, e o parâmetro A pede-o expressamente («recorrendo a um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito)»). Concretamente:
- adjetivação apreciativa: expressivo, engenhoso, impressionante, perturbador, eficaz, sóbrio, notável;
- expressões avaliativas: «merece destaque», «o aspeto mais impressionante», «de forma notável», «com grande economia de meios»;
- modalização: «parece», «sugere», «talvez» — para as leituras menos óbvias (a sombra).
Sem isto, tens uma descrição comentada, não uma apreciação crítica.
4.º — planear a estrutura
Cinco parágrafos funcionam bem dentro do limite de palavras:
- descrição (60-80 palavras): o que se vê, do mais importante para o pormenor;
- 1.º aspeto (45-60 palavras): a metáfora do brinquedo-bancada;
- 2.º aspeto (45-60 palavras): o contraste criança/tarefa;
- 3.º aspeto (45-60 palavras): a composição, a cor, a sombra, a atualidade;
- conclusão (35-50 palavras): o juízo global e a mensagem.
Isto dá cerca de 280-300 palavras, com margem para os dois lados. Liga os parágrafos com conectores de enumeração e de conclusão («O aspeto mais…», «Em segundo lugar», «Por fim», «Em suma»), e mantém a terceira pessoa e o presente de forma consistente — o parâmetro C avalia as coordenadas de enunciação.
5.º — uma resposta de nível máximo, e porque o é
A resposta de exame deste item é um exemplo de nível 4 nos quatro parâmetros. Repara no que faz:
- A — género/formato: tem descrição (1.º parágrafo), três aspetos críticos distintos, cada um com juízo de valor (a transformação do brinquedo — «simples e eficaz»; o contraste — «indignação imediata»; a composição — «de forma notável»), e uma conclusão que retoma o juízo global («expressivo e perturbador»);
- B — tema e pertinência: não sai do cartoon; cada afirmação apoia-se num elemento da imagem (o laço, a postura, o fundo, a sombra); o vocabulário é variado e o registo adequado;
- C — organização e coesão: cinco parágrafos proporcionados, conectores que marcam a progressão, cadeias de referência mantidas («a menina» → «a criança» → «ela»; «o cavalo de baloiço» → «o brinquedo»), terceira pessoa e presente do princípio ao fim;
- extensão: cerca de 310 palavras — dentro dos limites.
como este item é corrigido
44 pontos em quatro grelhas que somam: A (género/formato) 10 + B (tema e pertinência) 10 + C (organização e coesão) 10 + CL (correção linguística) 14.
Parâmetro A — Género/Formato Textual:
- nível 4 — 10: descrição, comentário crítico com pelo menos três aspetos e discurso valorativo, conclusão;
- nível 3 — 8: só dois aspetos, com o resto assegurado; ou três aspetos com falhas em um ou dois dos restantes elementos (descrição, conclusão, discurso valorativo);
- nível 2 — 5: só um aspeto, com o resto assegurado; ou dois aspetos e falhas em um ou dois dos restantes;
- nível 1 — 3: falhas no conjunto, ou mistura de géneros sem critério.
Parâmetro B — Tema e Pertinência: nível 4 (10) para um texto sem desvios ao tema, com eficácia argumentativa — aspetos diversificados e pertinentes, tanto na descrição como no comentário, progressão coerente, léxico e registo adequados; desce para 8, 5 ou 3 com desvios ou falhas na eficácia argumentativa.
Parâmetro C — Organização e Coesão: nível 4 (10) para partes proporcionadas e articuladas, parágrafos bem marcados, conectores adequados, cadeias de referência sistemáticas, coordenadas de enunciação (pessoa, tempo, espaço) consistentes; 8 com falhas pontuais em um ou dois destes aspetos; 5 com falhas pontuais em três ou mais, ou significativas em um ou dois; 3 com organização pouco satisfatória.
⚠️ A regra do zero: zero no parâmetro A ou no B arrasta zero em todos os outros, incluindo a CL. Um texto que não seja uma apreciação crítica (por exemplo, um texto de opinião sobre o trabalho infantil sem olhar para o cartoon), ou que fuja ao tema, pode perder os 44 pontos inteiros.
Correção linguística — 14 pontos, lidos nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| B \ A | 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
|---|
| 0 | 14 | 14 | 14 | 11 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 |
| 1 | 14 | 11 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — |
| 2 | 11 | 11 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — |
| 3 | 8 | 8 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — |
| 4 | 8 | 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 5 | 5 | 5 | 2 | 2 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 6 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
| 7 | 2 | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — | — |
Repara como os erros do tipo B pesam mais: com zero erros do tipo A, um só erro do tipo B ainda vale 14, mas dois já descem para 11 e três para 8. Até dois erros do tipo A não custam nada. É aqui que se ganha ou perde muito dinheiro: um texto com boas ideias e quatro erros de sintaxe perde 6 pontos.
Limites de extensão: fora dos 200-350 palavras, desconta-se 1 ponto por palavra a mais ou a menos, até 5 pontos, depois de aplicados todos os critérios; abaixo de 80 palavras, o texto vale zero.
onde se perdem pontos
- Escrever um texto de opinião sobre o trabalho infantil. É o erro mais caro: deixas de apreciar o cartoon e passas a discutir o tema. O parâmetro A cai (mistura de géneros) e o B também (desvio ao tema) — e com eles, os outros. Cada parágrafo do comentário tem de partir de um elemento da imagem.
- Descrever sem comentar. Uma descrição longa e um comentário de duas linhas ficam no nível 1 ou 2 do parâmetro A. A descrição é o primeiro parágrafo, não o texto inteiro.
- Só dois aspetos. Três é o mínimo para o nível 4 do A. Com dois, o máximo é 8; com um, 5.
- Comentar sem avaliar. «A menina está a coser» é descrição; «o contraste entre o laço infantil e a postura de operária é perturbador» é apreciação. Sem juízo de valor, não há discurso valorativo.
- Uma conclusão que repete a descrição. A conclusão retoma o juízo global («um cartoon expressivo e perturbador»), não o inventário da imagem.
- Não contar as palavras. Cada palavra fora dos limites custa um ponto (até cinco). Conta no rascunho.
- Inventar elementos. O cartoon não tem título nem legenda — não lhe atribuas um. E não descrevas o que não está (uma fábrica, outras crianças).
Na correção linguística, os erros que este texto convida a cometer:
- «*Cartoon*» é estrangeirismo: escreve-se em itálico (no texto impresso) ou entre aspas/sublinhado (na folha manuscrita). Escrevê-lo sem marca é um erro do tipo A.
- Vírgula entre sujeito e predicado (tipo A), sobretudo depois de sujeitos longos: «A menina que está sentada no banco, cose um pano» está errado.
- Concordâncias (tipo B): «o contraste entre a criança e a tarefa revelam…» — o núcleo é «contraste», o verbo vai no singular: «revela».
- Impropriedade lexical (tipo B): «o cartoon retrata uma criança a trabalhar arduosamente» — a palavra é «arduamente».
- Mudar de pessoa (parâmetro C): saltar do «nós» para o «eu» e depois para a terceira pessoa compromete as coordenadas de enunciação.
para reconhecer o próximo item deste tipo
A apreciação crítica de um cartoon tem sempre a mesma forma: descrição organizada (do essencial ao pormenor) → três aspetos, um por parágrafo, cada um com elemento da imagem + juízo de valor + porquê → conclusão com o juízo global. Os aspetos que quase sempre funcionam: a ideia visual central (o achado do autor), o contraste ou a ironia, a composição e a cor, a atualidade do tema. E antes de entregar: conta as palavras, e confirma que cada parágrafo fala da imagem e não só do tema.