Exame de Português 2026 · 1.ª fase — item II.2, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2026 · 1.ª fase
Leia o texto e as notas.
Embora a música tenha milénios de existência, o seu conhecimento histórico é relativamente recente. A sua escrita apenas se consolida a partir do século XV, com a expansão e o aperfeiçoamento dos sistemas de notação, enquanto a reprodução de áudio surge só no final do século XIX. Sendo uma arte temporal, manifesta-se no tempo, tornando cada performance¹ um acontecimento único e irrepetível.
Existe um tipo de música cujos instrumentos não são nem piano, nem violino, nem guitarra, mas uma orquestra composta por edifícios, ruas, praças, fontanários e aves. A paisagem sonora característica de cada cidade ou bairro. Aquilo que escutamos quando abrimos uma janela ou nos sentamos numa praça.
A deliciosa harmonia composta pela mistura única de pessoas a falar ou de crianças a brincar; o som da buzina de um barco ao longe; o canto das andorinhas ou das cigarras no verão; um carpinteiro a pregar umas tábuas algures na vizinhança; ou alguém a ensaiar uma canção dentro do seu apartamento. A combinação de sons mais definidos, perto de nós, complementados pela mistura homogénea de fundo, ao longe. A vida e a cidade a pulsarem.
Como resistir às sinfoniettas² das entranhas dos centros históricos de cidades como Lisboa e de tantas outras, com as ruas estreitas a imporem um desarmante contraste com as vias principais, logo após se contornar uma ou duas esquinas? A atmosfera tranquila composta por sons de pessoas misturados com o sino da igreja, o carrinho de compras de uma senhora a subir a rua, ou os guinchos das gaivotas em terra.
Ou de cidades aquáticas, como Veneza, ou dos mercados flutuantes que vemos pela Ásia, onde predomina o som do movimento da água a ser rasgada pelas inúmeras embarcações, complementando o dos transeuntes e vendilhões.
Ou ainda de cidades como Istambul ou Marraquexe, com aqueles cinco momentos do dia em que o chamamento à oração — o adhan — é anunciado a partir dos altifalantes instalados nos minaretes das várias mesquitas espalhadas pelos bairros. Aquele recitar de palavras em tom hipnótico, ligeiramente distorcido pelos sistemas de amplificação de áudio. A entrada em cena dessincronizada, resultante dos pequenos desacertos horários, levando ao gradual acumular de camadas sonoras, em crescendo, tal como numa fuga³ do género musical clássico ocidental.
A acústica do instrumento-cidade é favorecida pelo urbanismo tradicional de edifícios contínuos, em quarteirão, por oposição à cidade feita de blocos dispersos. As ruas formadas por frentes edificadas propagam os sons mais delicados; os logradouros fechados favorecem o eco; as praças enclausuradas demarcam melhor a sua música da música das ruas envolventes, tornando-a mais nítida.
A ameaça óbvia a este património é a poluição sonora causada pelo automóvel ou pelo avião, cuja presença tudo abafa. Um problema que tenderá a ser mitigado com a progressiva transição dos motores de combustão para motores elétricos silenciosos. Será uma revolução na qualidade do ambiente das cidades. Mas também há as ameaças menos óbvias, como a abusiva reprodução de música amplificada no espaço público que, hoje, contamina qualquer ponto turístico.
A invisível paisagem sonora é, provavelmente, a qualidade mais subvalorizada das nossas cidades e habitações, mas de enorme importância para o nosso bem-estar — que não se pode resumir ao conforto visual, espacial ou térmico dos nossos ambientes.
Um património frágil e de difícil proteção. Podemos desviar o olhar, mas o som não pede permissão. E não experimentamos música sem a sua contraparte: o silêncio, a folha branca. Tal como as cidades não se fazem apenas de massas edificadas, precisam do seu contraponto: ruas e praças — as telas vazias que recebem a vida humana a acontecer em conjunto, em sociedade.
Miguel Marcelino, «Paisagem sonora», Público – P2, 28 de setembro de 2025, p. 22. (Texto adaptado)
NOTAS
- 1. performance – desempenho; exibição em público.
- 2. sinfoniettas – sinfonias curtas, para pequena orquestra ou orquestra de câmara.
- 3. fuga – género de música em que as partes se repetem sucessivamente e parecem fugir umas das outras, finalizando sempre em consonâncias.
Na expressão «paisagem sonora» (linhas 7 e 8), evidencia-se o recurso
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