Exame de Português 2026 · 1.ª fase — item I.3, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2026 · 1.ª fase
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
Leia a contextualização, os dois textos e as notas. A fim de facilitar a eventual referência a elementos textuais, as linhas são numeradas sequencialmente.
Contextualização
Em Memorial do Convento, a ação decorre no século XVIII. No excerto apresentado, Baltasar Mateus, também conhecido por Sete-Sóis, é um soldado que acaba de chegar a Lisboa, vindo de Évora, onde permaneceu durante alguns meses. Aí adquiriu um gancho e um espigão de ferro que lhe substituíram a mão esquerda, perdida durante a guerra da Sucessão Espanhola.
Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, a ação decorre no século XX. No excerto selecionado, o protagonista, Ricardo Reis, recém-chegado do Brasil, após dezasseis anos de ausência, deambula pelas ruas da Baixa de Lisboa.
Com pouco dinheiro no bolsilho, umas só moedas de cobre que soavam bem menos que os ferros do alforge¹, desembarcado numa cidade que mal conhecia, tinha Baltasar de resolver que passos daria a seguir, se a Mafra onde não poderia a sua única mão pegar numa enxada que requer duas, se ao paço onde talvez lhe dessem uma esmola por conta do sangue perdido. Alguém lhe tinha dito isto em Évora, mas também lhe foram dizendo que era necessário pedir muito e por muito tempo, com muito empenho de padrinhos, e apesar disso muitas vezes se apagava a voz e acabava a vida antes que se visse a cor ao dinheiro. Na falta, aí estavam as irmandades para a esmola e as portarias dos conventos que proviam ao caldo e ao tassalho² do pão. E um homem a quem falte a mão canhota não tem muito de que se queixar se ainda lhe ficou a destra para pedir a quem passa. Ou exigir com um ferro aguçado.
Sete-Sóis atravessou o mercado do peixe. As vendedeiras gritavam desbocadamente aos compradores, provocavam-nos, sacudiam os braços carregados de braceletes de ouro, batiam juras no peito onde se reuniam fios, cruzes, berloques, cordões, tudo de bom ouro brasileiro, assim como os longos e pesados brincos ou argolas, arrecadas ricas que valiam a mulher. Mas, no meio da multidão suja, eram miraculosamente asseadas, como se as não tocasse sequer o cheiro do peixe que removiam às mãos cheias. À porta duma taberna que ficava ao lado da casa dos diamantes, Baltasar comprou três sardinhas assadas, que, sobre a indispensável fatia de pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto caminhava em direção ao Terreiro do Paço.
José Saramago, Memorial do Convento, 27.ª ed., Lisboa, Caminho, 1998, pp. 41-42.
Agora, sai, urbanamente deu as boas-tardes, e agradecendo saiu pela porta da Rua dos Correeiros, esta que dá para a grande babilónia de ferro e vidro³ que é a Praça da Figueira, ainda agitada, porém nada que se possa comparar com as horas da manhã, ruidosas de gritos e pregões até ao paroxismo⁴. Respira-se uma atmosfera composta de mil cheiros intensos, a couve esmagada e murcha, a excrementos de coelho, a penas de galinha escaldadas, a sangue, a pele esfolada. Andam a lavar as bancadas, as ruas interiores, com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas, ouve-se de vez em quando um arrastar metálico, depois um estrondo, foi uma porta ondulada que se fechou. Ricardo Reis rodeou a praça pelo sul, entrou na Rua dos Douradores, quase não chovia já, por isso pôde fechar o guarda-chuva, olhar para cima, e ver as altas frontarias de cinza parda, as fileiras de janelas à mesma altura, as de peitoril, as de sacada, com as monótonas cantarias prolongando-se pelo enfiamento da rua, até se confundirem em delgadas faixas verticais, cada vez mais estreitas, mas não tanto que se escondessem num ponto de fuga, porque lá ao fundo, aparentemente cortando o caminho, levanta-se um prédio da Rua da Conceição, igual de cor, de janelas e de grades, feito segundo o mesmo risco, ou de mínima diferença, todos porejando⁵ sombra e humidade, libertando nos saguões⁶ o cheiro dos esgotos rachados, com esparsas baforadas de gás, como não haveriam de ter as faces pálidas os caixeiros que vêm até à porta das lojas, com as suas batas ou guarda-pós⁷ de paninho cinzento, o lápis de tinta entalado na orelha, o ar enfadado de ser hoje segunda-feira e não ter o domingo valido a pena.
José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 17.ª ed., Lisboa, Caminho, 2007, pp. 41-42.
NOTAS
- 1. alforge – saco dividido em dois compartimentos, que se transporta ao ombro ou sobre o cavalo.
- 2. tassalho – naco; pedaço.
- 3. grande babilónia de ferro e vidro – referência à confusão e à desordem que existia no edifício do mercado da Praça da Figueira, em Lisboa, feito de ferro e de vidro.
- 4. paroxismo – auge; momento de maior intensidade.
- 5. porejando – destilando pelos poros.
- 6. saguões – pátios estreitos e descobertos, que separam as traseiras de prédios.
- 7. guarda-pós – peças de vestuário que se usam por cima de outra roupa para a proteger do pó.
Complete o texto seguinte, selecionando a opção adequada a cada espaço.
Assinale, na folha de respostas, para cada letra, o número da opção selecionada.
No excerto compreendido entre «Ricardo Reis rodeou a praça» (linha 27) e «sombra e humidade» (linha 34), o narrador privilegia o ponto de vista de Ricardo Reis sobre a cidade de Lisboa, destacando-se, nessa passagem, a ideia de
.
Já no excerto compreendido entre «como não» (linha 35) e «valido a pena» (linha 38), é a visão subjetiva do narrador que prevalece, quando este reflete sobre
.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
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Ler um resolve hoje; fazer o tópico inteiro é o que muda a nota.
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