O ponto de partida. O item pede uma exposição — um texto com três partes (introdução, desenvolvimento, conclusão) — que comprove uma afirmação: «A denúncia das condições de vida do povo está presente em obras de José Saramago». Comprovar quer dizer mostrar que é verdade com casos concretos da obra. E a instrução impõe a medida: duas situações ou dois momentos de denúncia, cada um fundamentado em, pelo menos, um exemplo significativo.
Há ainda duas instruções formais que valem dinheiro sem custar nada: escolhes uma obra (Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, não as duas) e começas por escrever o título dessa obra na folha de respostas.
1.º — escolher a obra
Escolhe aquela de que te lembras com mais episódios concretos. As duas servem:
- Memorial do Convento — a denúncia está na construção do convento de Mafra: o povo como massa anónima, os homens recrutados à força, os barracões da Ilha da Madeira, o trabalho extenuante, a má alimentação, a epopeia da pedra, as mortes e mutilações (o cunhado de Baltasar, Álvaro Diogo, morre ao cair das paredes; Francisco Marques morre esmagado no transporte da pedra);
- O Ano da Morte de Ricardo Reis — a denúncia está na Lisboa de 1936: a miséria do povo no bodo do jornal O Século, a repressão e a censura (a realidade deturpada pelos jornais), a vigilância da PVDE (o próprio Ricardo Reis é interrogado), as conversas de Lídia sobre o irmão Daniel e a Revolta dos Marinheiros, a desigualdade que Ricardo Reis vê nas ruas.
Os critérios dão seis tópicos para cada obra e pedem dois. Uma situação ou um momento é um acontecimento identificável do romance, não uma ideia geral.
2.º — planear as duas situações
Com Memorial do Convento, uma boa escolha é:
- o recrutamento forçado e a vida no estaleiro — o rei, impaciente com o ritmo da obra, manda trazer homens de todo o reino; chegam atados, como presos; vivem nos barracões da Ilha da Madeira e trabalham quase sem descanso, como escravos;
- a epopeia da pedra — o transporte da enorme laje de Pero Pinheiro até Mafra, arrastada durante dias por centenas de homens e bois, com fome e perigo constantes, e com a morte de Francisco Marques, esmagado sob o carro.
Cada situação diz o que acontece (o exemplo) e porque é denúncia (o que mostra sobre as condições de vida do povo: exploração, desumanização, desprezo pela vida). Sem a segunda parte, tens um resumo de enredo; com ela, tens uma comprovação.
3.º — escrever a introdução
Uma ou duas frases que apresentem o tema: a obra, o autor e a ideia de que nela se denunciam as condições de vida do povo. Uma boa introdução prepara o desenvolvimento — diz, por exemplo, que a construção do convento serve de pretexto para dar voz aos que a História esqueceu.
4.º — escrever o desenvolvimento
Dois parágrafos, um por situação. Começa cada um com um conector de enumeração («Em primeiro lugar», «Em segundo lugar» / «Além disso»), diz a situação, dá o exemplo concreto e termina com o que ele denuncia. É aqui que está quase todo o dinheiro do item (8 pontos de conteúdo).
5.º — escrever a conclusão
Uma frase ou duas que retomem a ideia à luz do desenvolvimento, sem a repetir palavra por palavra. Exemplo: ao contar a história do convento a partir dos que o construíram, Saramago faz do romance uma homenagem ao povo anónimo e uma denúncia da sua exploração.
com O Ano da Morte de Ricardo Reis
Duas situações igualmente boas: (1) o bodo do jornal O Século, em que uma multidão de pobres se acumula desde a madrugada para receber uma pequena esmola, o que mostra a miséria extrema de uma população que o regime exibe como caridade; (2) a repressão e a vigilância — Ricardo Reis é chamado à PVDE e interrogado sem motivo, e as conversas de Lídia sobre o irmão, Daniel, marinheiro envolvido na revolta dos barcos no Tejo, mostram um povo sob vigilância, para quem qualquer protesto é tratado como rebeldia. A estrutura da exposição é a mesma.
como este item é corrigido
13 pontos em três grelhas que somam: Conteúdo (C) — 8; Estruturação do discurso (ED) — 3; Correção linguística (CL) — 2.
No C, conta-se o número de situações e a sua qualidade:
- nível 4 — 8 pontos: duas situações ou dois momentos, ambos explicitados adequadamente;
- nível 3 — 6 pontos: duas, uma adequada e outra com pequenas imprecisões e/ou omissões;
- nível 2 — 4 pontos: duas, ambas com imprecisões, ou uma só, adequada;
- nível 1 — 2 pontos: uma só, com imprecisões.
No ED, avalia-se a forma de exposição: 3 pontos para um texto com as três partes devidamente proporcionadas e coeso; 2 se as partes estiverem desequilibradas ou houver falhas de coesão que não comprometem a progressão; 1 se o texto estiver insuficientemente estruturado. Uma resposta sem introdução ou sem conclusão perde aqui.
Na CL, a tabela é mais curta, porque só há 2 pontos:
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 2 | 2 | 1 | 1 |
| 1 | 1 | — | — | — |
E zero no C arrasta zero na CL: um texto bem escrito que não comprova a afirmação não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Escrever sobre as duas obras. A instrução diz «ou», a negrito. Uma exposição que salta de uma obra para a outra não cumpre o pedido e baralha as situações.
- Não indicar o título. É uma instrução expressa («Comece por indicar…»). Custa uma linha.
- Ideias gerais em vez de situações. «O povo sofria muito na época» não é uma situação nem um momento; o recrutamento forçado de homens para Mafra é. O nível 4 exige que cada situação seja identificável e tenha um exemplo.
- Resumir sem comprovar. Contar a epopeia da pedra sem dizer o que ela denuncia (exploração, fome, desprezo pela vida) deixa a situação com omissões.
- Confundir personagens e episódios. O cunhado de Baltasar que morre ao cair das paredes é Álvaro Diogo; quem morre esmagado sob a pedra é Francisco Marques. Trocá-los é uma imprecisão.
- Desequilibrar as partes. Uma introdução de dez linhas e uma conclusão de três palavras custam pontos no ED. A introdução e a conclusão são curtas, o desenvolvimento é o corpo.
- Sair do tema. A passarola, Blimunda e as vontades são o centro do romance, mas não são, por si, denúncia das condições de vida do povo. Só servem se os puseres ao serviço do tema.
Na correção linguística:
- Títulos de obras (tipo A): Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e o jornal O Século escrevem-se sublinhados ou entre aspas na folha manuscrita.
- Maiúsculas (tipo A): «Convento de Mafra», «D. João V», «Ilha da Madeira», «PVDE».
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (tipo A), sobretudo depois de sujeitos longos: «Os homens que vinham de todo o reino, chegavam atados» está errado.
para reconhecer o próximo item deste tipo
A exposição sobre um tema do Grupo I tem sempre a mesma arquitetura: título (se pedido), introdução que apresenta o tema, dois parágrafos de desenvolvimento — cada um com situação + exemplo concreto + o que comprova —, e conclusão que fecha. Prepara, para cada obra do programa, três ou quatro episódios que saibas contar com nomes e pormenores: são eles que fazem a diferença entre os 8 e os 4 pontos de conteúdo.