O ponto de partida. Este item junta três coisas: o que sabes sobre a poesia de Alberto Caeiro (o poema da Parte A ajuda, mas o item fala da poesia dele em geral), a leitura da cantiga de amigo de Martim Codax, e um género escolar, a exposição. Não te pedem opinião: pedem-te que compares o modo como a natureza aparece nos dois, explicitando dois aspetos em que se distinguem.
O enunciado dá-te o plano em três pontos — introdução, desenvolvimento, conclusão. Neste item, as três partes são obrigatórias e avaliadas à parte, no parâmetro ED.
1.º — ler a cantiga
- «Ai ondas, que eu vim veer» (v. 1) — quem fala é uma donzela (é uma cantiga de amigo: o trovador dá voz a uma rapariga apaixonada). Dirige-se às ondas do mar — «Ai ondas» é uma apóstrofe — que ela veio ver («veer» é a forma antiga de «ver»; «mirar», no v. 4, também é olhar);
- «se me saberedes dizer / porque tarda meu amigo sem mim?» (vv. 2-3) — pergunta às ondas se lhe saberão dizer porque é que o seu amado («amigo») tarda em voltar. As ondas são tratadas como alguém que sabe e que pode responder: estão personificadas;
- a segunda estrofe repete a primeira com uma variação («mirar», «contar») e o refrão igual: é o paralelismo típico das cantigas de amigo.
A natureza, aqui, não é observada por si mesma: é a confidente da donzela, o interlocutor a quem ela confia a inquietação pela ausência do amado.
2.º — recordar a natureza em Caeiro
Caeiro é o «poeta da Natureza»: vê-a com os sentidos, tal como ela é, sem lhe pôr significados. No poema XXXIX: «As cousas não têm significação: têm existência.» (v. 16). Fala de elementos concretos — o rio, a árvore, a pedra, o regato (e noutros poemas o girassol, o rebanho). Considera-se parte da natureza, tão natural como ela: «E eu, que não sou mais do que eles» (v. 5), em que «eles» são o rio e a árvore.
3.º — escolher dois aspetos
Os critérios aceitam dois destes três (ou outros igualmente relevantes). Cada aspeto tem de pôr os dois lados frente a frente:
- falar «da» natureza / falar «com» a natureza — Caeiro fala da natureza, considerando-se um elemento tão natural como uma árvore; a donzela fala com a natureza, como algo exterior a si;
- perceção objetiva / ponto de vista subjetivo — Caeiro apreende a natureza pelos sentidos e refere elementos concretos; na cantiga, a natureza é vista subjetivamente, como interlocutor ou confidente;
- sem significados / personificação — para Caeiro só existe o que ele vê, e recusa atribuir à natureza significados vindos do pensamento ou da imaginação; a donzela personifica as ondas, atribuindo-lhes a capacidade de responder.
Há um verso do poema XXXIX que serve de ponte perfeita para o terceiro aspeto: «Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?» (v. 4). Para Caeiro, o rio não sabe nada; para a donzela, as ondas saberão dizer-lhe onde está o amado.
A resposta modelo usa o segundo e o terceiro. O primeiro também serve — é uma questão de escolher os dois que melhor consegues fundamentar.
4.º — a introdução e a conclusão
A introdução apresenta o tema: a natureza nos dois textos, e a ideia geral de que é vista de modos diferentes. Uma ou duas frases chegam. A conclusão não repete o desenvolvimento: fecha-o, numa frase que diga o que a comparação mostrou — em Caeiro, a natureza é o que é; na cantiga, é um espelho dos sentimentos de quem fala.
5.º — escrever o texto: partes, parágrafos, coesão
Escreve três partes visíveis: um parágrafo de introdução, um (ou dois) de desenvolvimento, um de conclusão. No desenvolvimento, um parágrafo por aspeto torna a estrutura evidente — e, dentro de cada um, um conector de contraste («pelo contrário», «ao invés», «enquanto») mostra a comparação. Abre cada parte com um conector que marque o percurso: «Em primeiro lugar», «Em segundo lugar», «Em suma».
Fundamenta com o texto: uma transcrição da cantiga (com o verso) em cada aspeto e, para Caeiro, uma referência concreta — um verso do poema XXXIX ou outra referência rigorosa à poesia dele.
como este item é corrigido
São três parâmetros que somam: conteúdo (C, 8 pontos), estruturação do discurso (ED, 3 pontos) e correção linguística (CL, 2 pontos).
No C, o corrector procura dois aspetos em que as duas representações se distinguem, e vê se cada um está explicitado adequadamente:
- nível 4 — 8 pontos: os dois aspetos, ambos adequados;
- nível 3 — 6 pontos: os dois aspetos, um adequado e o outro com pequenas imprecisões e/ou omissões;
- nível 2 — 4 pontos: os dois aspetos, ambos com imprecisões, ou só um aspeto, mas adequado;
- nível 1 — 2 pontos: só um aspeto, com imprecisões, referente só a Caeiro ou só à cantiga.
O que separa o 8 do 6 é quase sempre um aspeto coxo: fala-se de Caeiro e esquece-se a cantiga, ou o contrário. Um aspeto é uma diferença — precisa dos dois lados.
No ED, conta a estrutura em três partes e a coesão: 3 pontos para três partes proporcionadas com coesão que assegura a progressão; 2 pontos se houver desequilíbrios de proporção ou falhas de coesão que não comprometem o todo; 1 ponto para um texto insuficientemente estruturado.
No CL, contam-se os erros do tipo A (pontuação, ortografia e acentuação, morfologia, citação e referência a títulos de obras) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lê-se a tabela:
- sem erros, ou só um erro do tipo A: 2 pontos;
- dois ou três erros do tipo A (e nenhum do tipo B): 1 ponto;
- um erro do tipo B (e nenhum do tipo A): 1 ponto;
- qualquer outra combinação (por exemplo, um erro do tipo B e um do tipo A, ou quatro do tipo A): 0 pontos.
E atenção: zero pontos no C dá zero pontos no CL.
onde se perdem pontos
- Descrever em vez de comparar. Um parágrafo sobre Caeiro e outro sobre a cantiga, sem os pôr frente a frente, não explicita nenhuma diferença.
- Dar um só aspeto. O enunciado pede dois. Um só, por melhor que esteja, nunca passa dos 4 pontos no C.
- Dizer que Caeiro personifica a natureza. É o contrário: ele recusa-se a dar-lhe sentimentos ou saberes («Que sabe o rio disso…?»). Quem personifica é a donzela.
- Ignorar quem fala na cantiga. Numa cantiga de amigo, o sujeito poético é a donzela, não o trovador. Escrever que «Martim Codax fala com as ondas» é uma imprecisão.
- Saltar a introdução ou a conclusão. As três partes são pedidas e pesam no ED.
- Errar nas citações (tipo A). Esquecer as aspas, «corrigir» a forma antiga («veer» → «ver», «saberedes» → «sabereis») ou não indicar o verso.
- Ortografia e acentuação (tipo A). «perspetivada», «perceção», «objetiva», «subjetiva», «heterónimo», «poético», «apóstrofe».
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (tipo A). «A donzela da cantiga, dirige-se às ondas» é erro de pontuação.
- Erros de sintaxe (tipo B). Frases sem verbo principal («Na cantiga, a donzela que fala com as ondas.»), concordâncias erradas («as ondas é confidentes»). Um único erro do tipo B já te tira metade da CL.
- Escrever tudo em maiúsculas. Uma só resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas desvaloriza a prova em cinco pontos.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando um item te pede para comparar a natureza em dois textos, pergunta a cada um: a natureza é vista como é, ou serve para exprimir o que sente quem fala? Em Caeiro, é sempre a primeira: objetiva, concreta, sem significados. Nas cantigas de amigo, a natureza (o mar, as ondas, as flores, os cervos) é confidente da donzela, muitas vezes personificada e interpelada por apóstrofe. Depois, cada aspeto leva os dois lados, uma transcrição e um conector de contraste, e a exposição leva as três partes que o enunciado enumera.