Exame de Português 2025 · 2.ª fase — item III, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 639 · 2025 · 2.ª fase
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica do cartoon «Reflorestação», da autoria de Victor Solís.
No seu texto, deve incluir:
- a descrição da cena apresentada, destacando elementos significativos da composição da imagem;
- um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspetos relevantes e utilizando um discurso valorativo;
- uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.

World Press Cartoon – Caldas da Rainha 2022, p. 143.
Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2025/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:
- um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
- um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
O cartoon «Reflorestação», de Victor Solís, representa uma rua de uma grande cidade, desenhada em tons de cinzento e azul-esverdeado: prédios altos, um autocarro, um automóvel e um céu escuro fecham o espaço. Em primeiro plano, um homem de fato, chapéu e pasta caminha pelo passeio e deixa cair três folhas verdes num chapéu virado para cima, pousado no chão, ao lado de uma árvore raquítica e despida, presa numa pequena caldeira. Um dos ramos ergue-se como um braço estendido e o chapéu completa a cena: a árvore pede esmola. Atrás, os restantes transeuntes olham para uma montra, alheios a tudo.
O primeiro aspeto que merece destaque é a inversão engenhosa dos papéis. A natureza, que sempre deu ao ser humano o ar, a sombra e o alimento, surge reduzida à condição de pedinte, enquanto o homem, responsável pela sua destruição, assume o papel de benfeitor. Esta personificação, simples mas eficaz, obriga o observador a perguntar quem é, afinal, o devedor.
Em segundo lugar, o título encerra uma ironia certeira. «Reflorestação» designa um esforço sério e coletivo para devolver a floresta a um território; no cartoon, porém, reduz-se a um gesto de caridade, distraído e quase mecânico, de quem dá uma esmola para sossegar a consciência. O autor critica, deste modo, as soluções simbólicas com que, tantas vezes, se responde à crise ambiental.
Por fim, a composição cromática reforça a mensagem de forma notável. Num cenário dominado pelo cinzento do betão e do asfalto, as folhas são a única mancha de verde vivo, o que concentra nelas o olhar e sublinha a fragilidade da natureza no espaço urbano. A indiferença das outras personagens, absortas na montra, acentua ainda a crítica a uma sociedade mais atenta ao consumo do que ao ambiente.
Em suma, «Reflorestação» é um cartoon expressivo e inteligente, que, com uma única imagem, denuncia a desproporção entre a gravidade do problema ecológico e a pequenez das nossas respostas. Mais do que fazer sorrir, convida-nos a passar da esmola à responsabilidade.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. O Grupo III vale 44 pontos — mais de um quinto da prova — e, nesta prova, não pede um texto de opinião: pede uma apreciação crítica de um cartoon. São géneros diferentes, e os critérios corrigem cada um pelas suas marcas. No texto de opinião defendes uma tese com argumentos e exemplos; na apreciação crítica descreves um objeto (aqui, uma imagem) e avalias esse objeto, fundamentando a avaliação em aspetos concretos dele.
Lê as instruções como uma lista de verificação, porque é isso que elas são: cada travessão corresponde a um aspeto que o corrector procura no parâmetro A. Precisas de uma descrição da cena com os elementos significativos da composição, de um comentário crítico fundamentado em, pelo menos, três aspetos distintos, de discurso valorativo e de uma conclusão. Tudo entre 200 e 350 palavras.
ler a imagem antes de escrever
Antes de escreveres uma linha, observa o cartoon com método, do geral para o pormenor:
- o cenário: uma rua de uma grande cidade — prédios altos, um autocarro, um automóvel, um céu escuro e pesado;
- a personagem central: um homem de fato, chapéu e pasta, de costas, a caminhar pelo passeio;
- o gesto: com a mão aberta, deixa cair três folhas verdes num chapéu virado para cima, pousado no chão;
- o pormenor que dá sentido a tudo: ao lado do chapéu está uma árvore pequena, seca e despida, numa caldeira do passeio, com um ramo erguido como um braço. O chapéu é o seu: a árvore pede esmola, e o homem dá-lhe folhas como quem dá moedas;
- as cores: tudo é cinzento e azul-esverdeado, frio; as folhas são a única mancha de verde vivo;
- as figuras secundárias: um casal olha para uma montra e uma mulher segura um saco de compras — ninguém repara na árvore;
- o título: «Reflorestação».
1.º — interpretar: o que o cartoon diz
Um cartoon é uma crítica feita com humor. Pergunta-te o que está fora do lugar e quem é o alvo. Aqui, a natureza (a árvore) está reduzida à condição de mendiga, e o ser humano trata-a com uma esmola distraída. O título é irónico: «reflorestação» é plantar florestas inteiras, um esforço sério; o que se vê é uma esmola de três folhas. O alvo é a nossa resposta à crise ambiental — pequena, simbólica, feita de passagem, numa cidade que só tem olhos para o consumo.
Esta interpretação é o centro do comentário. Uma apreciação que só descreve não chega ao nível 1 do comentário crítico; uma que comenta sem ter olhado para a imagem fica sem fundamento.
2.º — planear: cinco parágrafos
Gasta dois ou três minutos num plano, à margem. A estrutura mais segura é esta:
- parágrafo 1 — descrição: identifica o cartoon (título, autor) e descreve a cena, do cenário para a personagem e o gesto;
- parágrafo 2 — aspeto 1: a inversão de papéis (a natureza pedinte, o homem benfeitor);
- parágrafo 3 — aspeto 2: a ironia do título;
- parágrafo 4 — aspeto 3: a composição cromática e as figuras indiferentes;
- parágrafo 5 — conclusão: a avaliação global e o alcance da crítica.
Com três aspetos em três parágrafos, o corrector conta-os sem esforço — e é isso que o nível 4 do parâmetro A exige: «pelo menos, três aspetos distintos».
3.º — a descrição: o que se vê, organizado no espaço
Na descrição usas o presente e organizadores espaciais: «em primeiro plano», «ao fundo», «à esquerda», «ao lado de». Não descrevas tudo: escolhe os elementos significativos da composição — os que vais usar no comentário (a árvore, o chapéu, as folhas, as cores, os transeuntes). Uma descrição que enumera tudo o que se vê, sem hierarquia, não destaca nada.
Começa por identificar a obra: «O cartoon «Reflorestação», de Victor Solís, representa…». O título do cartoon vai entre aspas; é uma regra de citação, e o seu incumprimento é erro do tipo A.
4.º — o comentário: três aspetos distintos, cada um fundamentado
Um aspeto é uma faceta do cartoon que avalias e justificas com o que está na imagem. Para serem distintos, devem olhar para coisas diferentes. Há várias famílias possíveis:
- a mensagem e os recursos expressivos — a personificação da árvore, a inversão de papéis;
- o título — a ironia entre «reflorestação» e o gesto mínimo;
- a composição plástica — as cores, a luz, o enquadramento, o contraste do verde com o cinzento;
- as personagens secundárias — a indiferença dos transeuntes;
- a atualidade e a pertinência do tema — a crise ambiental, as soluções simbólicas.
Cada aspeto precisa de fundamento: um elemento da imagem que o prove. «O cartoon é muito interessante» não é um aspeto; «o verde das folhas, única cor viva num cenário cinzento, concentra o olhar na fragilidade da natureza» é.
Cuidado com a repetição disfarçada: «a árvore pede esmola» e «a natureza é personificada como mendiga» são o mesmo aspeto dito duas vezes, e contam como um.
5.º — o discurso valorativo
A apreciação crítica julga. Os critérios aceitam um juízo de valor explícito — adjetivos e advérbios avaliativos: «inversão engenhosa», «ironia certeira», «de forma notável», «um cartoon expressivo e inteligente» — ou implícito, na escolha das palavras («um gesto de caridade, distraído e quase mecânico»). Garante que cada parágrafo do comentário tem pelo menos uma marca de avaliação: sem elas, o texto passa a ser uma descrição comentada, e o parâmetro A desce.
6.º — a conclusão
A conclusão faz o balanço dos pontos de vista desenvolvidos e fecha o texto: avalia a obra no seu conjunto e diz o alcance da crítica. Não abre um aspeto novo nem repete a descrição. Abre-a com um conector conclusivo: «Em suma,», «Em conclusão,», «Assim,».
7.º — a coesão: o que o parâmetro C procura
O parâmetro C é o mesmo de qualquer texto extenso, e a lista do nível 4 diz-te o que fazer:
- partes proporcionadas: uma descrição suficiente (sem ocupar metade do texto), um comentário mais longo, uma conclusão curta (na resposta modelo: 101, 60, 62, 68 e 41 palavras);
- parágrafos bem marcados: um para a descrição, um por aspeto, um para a conclusão;
- articulação interfrásica: conectores variados e adequados («enquanto», «porém», «deste modo», «Em segundo lugar», «Por fim», «Em suma»);
- cadeias de referência: retomar sem repetir — «uma árvore raquítica e despida» → «a natureza» → «pedinte»; «um homem de fato» → «o homem» → «benfeitor»;
- coordenadas de enunciação coerentes: a descrição no presente, do princípio ao fim; a 3.ª pessoa como base, e o «nós» só quando generalizas («as nossas respostas»).
contar as palavras
Antes de passares a limpo, conta as palavras. A regra é a das Observações: uma palavra é qualquer sequência entre espaços em branco, de modo que «azul-esverdeado» conta uma e «2022» conta uma. A resposta modelo tem 332 palavras, dentro do intervalo de 200 a 350.
Um truque prático: conta as palavras de uma linha média da tua letra e multiplica pelo número de linhas. Se estiveres perto de um dos limites, conta palavra a palavra.
como este item é corrigido
São quatro parâmetros que somam: A (Género/Formato Textual, 10 pontos), B (Tema e Pertinência da Informação, 10 pontos), C (Organização e Coesão Textuais, 10 pontos) e CL (correção linguística, 14 pontos).
No A, o nível 4 (10 pontos) exige a descrição com elementos significativos da composição, o comentário crítico fundamentado em três aspetos distintos com discurso valorativo e a conclusão. Só dois aspetos desce para 8; só um aspeto desce para 5. Falhas na descrição, no discurso valorativo ou na conclusão também fazem descer: com três aspetos e falhas em um ou dois dos outros pontos, ficas nos 8.
No B, o nível 4 pede o tema tratado sem desvios e eficácia: aspetos diversificados e pertinentes tanto na descrição como no comentário, progressão coerente, vocabulário e registo adequados. Interpretar mal o cartoon (por exemplo, ler o homem como alguém que planta uma árvore) ou desviar-te para um texto de opinião genérico sobre o ambiente, sem voltar à imagem, faz descer o nível.
No C, contam as partes proporcionadas, os parágrafos, os conectores, as cadeias de referência e as coordenadas de enunciação: falhas pontuais em um ou dois destes aspetos dão 8; em três ou mais, 5.
Zero no A ou no B arrasta tudo. Se o texto não for uma apreciação crítica, ou não tratar o cartoon proposto, tem zero nos restantes parâmetros da ETD e na CL — por mais bem escrito que esteja.
Na CL, contas os erros do tipo A (pontuação, ortografia e acentuação, morfologia, citação e referência a títulos de obras) e do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) e lês a tabela. Sem erros do tipo B: até 2 erros do tipo A ainda dão 14 pontos; 3 a 5 dão 11; 6 a 8 dão 8; 9 a 11 dão 5; 12 a 14 dão 2. Cada erro do tipo B pesa mais: com 1 erro do tipo B e nenhum do tipo A, ainda tens 14; com 2, 11; com 3 ou 4, 8; com 5, 5; com 6 ou 7 (e nenhum do tipo A), só 2. Para lá do que a tabela mostra, a CL vale zero.
Por fim, a extensão: fora do intervalo de 200 a 350 palavras, desconta-se 1 ponto por cada palavra a mais ou a menos, até ao máximo de 5 pontos, depois de aplicados os outros critérios; um texto com menos de 80 palavras vale zero.
onde se perdem pontos
- Escrever um texto de opinião. É a armadilha desta prova: quem treinou só o texto de opinião escreve «Na minha opinião, a sociedade não protege o ambiente…» e argumenta com exemplos, esquecendo a imagem. Isso mistura géneros e pode levar o parâmetro A ao nível 1 — ou a zero, se não houver apreciação nenhuma, arrastando tudo.
- Descrever sem comentar, ou comentar sem descrever. A descrição sozinha não é apreciação; o comentário sem descrição fica sem base. O parâmetro A pede as duas coisas.
- Ficar por dois aspetos. É a perda mais comum no A: 2 pontos. Conta os aspetos no plano e garante que são três distintos.
- Ler mal a imagem. O pormenor do chapéu no chão ao lado da árvore é o que dá sentido ao cartoon. Quem não o vê lê «um homem a regar uma árvore» ou «um homem que perde folhas», e o comentário inteiro perde pertinência (parâmetro B).
- Não avaliar. Um comentário sem adjetivos avaliativos nem juízos («engenhoso», «certeiro», «eficaz») falha o discurso valorativo.
- Falhar a extensão. Com 195 palavras perdes 5 pontos; com 355 também. Com menos de 80, o texto vale zero. Conta.
- Título do cartoon sem aspas (tipo A). «Reflorestação» é o título da obra: vai entre aspas. Escrever o título sem nenhuma marca é incumprimento das regras de referência a título de uma obra.
- Vírgula entre o sujeito e o predicado (tipo A). «O homem de fato, deixa cair três folhas» é erro inequívoco. O mesmo entre o verbo e o complemento: «O autor critica, as soluções simbólicas» é erro.
- Vírgulas obrigatórias esquecidas (tipo A). Um aposto isola-se («O cartoon «Reflorestação», de Victor Solís, representa…»); uma relativa explicativa também («A natureza, que sempre deu ao ser humano o ar, surge…»); os conectores e expressões intercaladas igualmente («no cartoon, porém, reduz-se…»).
- Ortografia e acentuação (tipo A). «aspeto», «crítica», «irónico», «ironia», «personificação», «indiferença», «há» (verbo) e «à» (preposição + artigo), «mendigo» (não «mendingo»), «caricatura». E as maiúsculas nos nomes próprios (Victor Solís).
- Erros de sintaxe (tipo B). Frases sem verbo principal («Um homem de fato que deixa cair folhas num chapéu.»), concordâncias erradas («as folhas verdes cai»), pronomes mal colocados («se ergue-se»), regências trocadas («o autor critica sobre as soluções»).
- Impropriedade lexical (tipo B). Uma palavra com um sentido que não tem: «a árvore mendiga o homem» por «pede esmola ao homem»; «o cartoon retrata-se uma rua» por «retrata»; «a ironia despoleta a reflexão» por «desencadeia».
- Mudar de registo sem intenção. Expressões coloquiais («tipo», «o boneco», «está fixe») baixam a adequação do registo, avaliada no B.
- Escrever tudo em maiúsculas. Uma resposta escrita integralmente em maiúsculas desvaloriza a prova em cinco pontos.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Lê o género no enunciado antes de tudo: «texto de opinião» pede tese, argumentos e exemplos; «apreciação crítica» pede descrição + comentário crítico fundamentado em três aspetos + discurso valorativo + conclusão. Perante uma imagem, observa do geral para o pormenor e procura o elemento fora do lugar — é aí que está a crítica. Escreve em cinco parágrafos (descrição, três aspetos, conclusão), com um adjetivo avaliativo em cada aspeto, e conta as palavras no fim.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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