O ponto de partida. Descrever um estado de espírito é dizer como o sujeito poético se sente — com adjetivos ou nomes de sentimentos (consciente, determinado, calmo, abnegado) — e mostrar nos versos onde isso se vê. A pergunta pede dois aspetos, só dos versos de 8 a 15, e sempre em relação à vontade divina: não é o estado de espírito em geral, é o que ele sente perante a missão que Deus lhe deu.
1.º — ler os versos de 8 a 15
- vv. 8-10 — «E esta febre de Além, que me consome, / E este querer grandeza são seu nome / Dentro em mim a vibrar»: o sujeito poético sente uma febre — um desejo ardente, que o «consome» — de ir «Além», de ultrapassar os limites; e um querer grandeza. E reconhece que esse desejo é a presença de Deus dentro dele. Está consciente do seu destino;
- vv. 11-12 — «E eu vou, e a luz do gládio erguido dá / Em minha face calma»: «E eu vou» — parte, sem hesitar; o gládio está «erguido», pronto; e a face é «calma». É determinação e calma ao mesmo tempo;
- vv. 13-15 — «Cheio de Deus, não temo o que virá, / Pois, venha o que vier, nunca será / Maior do que a minha alma»: não tem medo do futuro, porque está «Cheio de Deus» — e nada do que venha será maior do que a sua alma. A coragem e a serenidade vêm da inspiração divina.
2.º — escolher dois aspetos
Os critérios dão quatro, e pedem dois — bem abordados:
- ciente do seu destino — sente o desejo de se transcender, de realizar feitos grandiosos («febre de Além» — v. 8; «querer grandeza» — v. 9);
- determinado — prepara-se para cumprir a missão sem recear os perigos («E eu vou» — v. 11; «não temo o que virá» — v. 13);
- calmo — a coragem vem de Deus, que torna a sua alma «Maior» (v. 15); a «face calma» (v. 12) mostra-o;
- abnegado — aceita a sua condição de eleito por vontade divina.
Escolhe dois que se distingam bem. «Ciente do destino» e «calmo» funcionam juntos: um diz o que ele sabe e deseja, o outro como enfrenta o que aí vem. «Determinado» e «calmo» estão mais próximos — se os escolheres, separa-os com versos diferentes («E eu vou» para um, «face calma» para o outro).
3.º — escrever a resposta
Um parágrafo por aspeto. Começa por nomear o estado de espírito («mostra-se consciente…», «revela-se calmo…»), liga-o à vontade divina e prova-o com uma transcrição dos versos 8 a 15, com a indicação do verso. Um conector marca a passagem («Em segundo lugar», «Além disso»), e uma frase final pode juntar os dois.
como este item é corrigido
São 13 pontos em duas grelhas que somam: 10 para o conteúdo e a estruturação do discurso (C-ED) e 3 para a correção linguística (CL).
No C-ED, o corrector escolhe um nível. O que conta é quantos tópicos abordas (dois) e como os abordas — adequadamente ou com pequenas imprecisões e/ou omissões — e se a coesão do teu texto assegura a progressão das ideias:
- nível 5 — 10 pontos: descreve o estado de espírito do sujeito poético face à vontade divina, com os dois tópicos abordados adequadamente e um texto que progride sem tropeçar;
- nível 4 — 8 pontos: os dois tópicos adequados mas com falhas de coesão que comprometem a progressão, ou um tópico adequado e outro com imprecisões, com boa coesão;
- nível 3 — 6 pontos: um adequado e outro impreciso com falhas de coesão, ou os dois imprecisos com boa coesão, ou só um tópico, adequado, com boa coesão;
- nível 2 — 4 pontos: os dois imprecisos com falhas de coesão, ou só um tópico adequado com falhas de coesão;
- nível 1 — 2 pontos: só um tópico, com imprecisões.
O que separa um 10 de um 8 é, quase sempre, uma de duas coisas: um dos tópicos ficou a meio (afirmado sem a transcrição que o prova, ou com uma interpretação vaga), ou as ideias aparecem soltas, sem os conectores e os parágrafos que as encadeiam. Repara também que um tópico só, por perfeito que seja, nunca passa dos 6 pontos: o primeiro dinheiro está em responder ao número de tópicos pedido.
Na CL contam-se os erros e lê-se a pontuação nesta tabela (linhas: erros do tipo B; colunas: erros do tipo A):
| erros do tipo B \ tipo A | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|
| 0 | 3 | 3 | 2 | 1 |
| 1 | 2 | 1 | — | — |
Uma falha do tipo A (pontuação, ortografia, acentuação, maiúscula/minúscula, regras de citação) ainda não custa nada; uma do tipo B (sintaxe, impropriedade lexical) custa logo um ponto; com mais erros do que a tabela prevê, a CL vale zero. E atenção: zero no C-ED arrasta zero na CL — um texto bem escrito que não responde à pergunta não recebe nada pela correção.
onde se perdem pontos
- Citar versos de fora do intervalo. O item manda reler os versos de 8 a 15. «Deu-me Deus o seu gládio» (v. 1) é matéria do item anterior; aqui não fundamenta nada.
- Descrever as ações em vez do estado de espírito. «O sujeito poético vai para a guerra com o gládio» conta o que ele faz. O item pergunta como ele se sente — calmo, determinado, consciente.
- Esquecer a vontade divina. O estado de espírito é face à vontade divina. «Está calmo» é meia resposta; «está calmo porque, cheio de Deus, nada teme» responde à pergunta.
- Ler «febre» como doença. É uma imagem: um desejo intenso, ardente, que o consome. Escrever que o sujeito poético «está doente» é uma imprecisão grave.
- Ver medo ou angústia. «não temo o que virá» diz o contrário. O frio da primeira estrofe («um frio vento», «fria terra») está fora do intervalo e não fala do estado de espírito dele.
Na correção linguística, os erros que este item convida a cometer:
- Citar sem cumprir as regras de citação (erro do tipo A): a transcrição vai entre aspas, palavra por palavra como está no texto, com a mudança de verso marcada por « / » e a indicação do verso entre parênteses — «Cheio de Deus, não temo o que virá» (v. 13). Escrever «não tenho medo do que virá», sem aspas ou sem verso, é uma transcrição que não cumpre as regras.
- Pontuação na oração intercalada (erro do tipo A): «O sujeito poético impelido pela inspiração divina sente…» precisa de vírgulas a isolar a intercalada — «O sujeito poético, impelido pela inspiração divina, sente…».
- Ortografia (erro do tipo A): «espírito» leva acento; «Além», como no poema, com maiúscula quando é transcrição.
- Regência (erro do tipo B): «face à vontade divina» está certo; «face a vontade divina», sem o artigo contraído, é um erro de sintaxe.
- O título da obra sem destaque (erro do tipo A): numa folha manuscrita, Os Lusíadas e Mensagem escrevem-se sublinhados ou entre aspas. Escrever o título sem nenhuma marca é incumprir a regra de referência a título de uma obra.
- Escrever a resposta toda em maiúsculas. A prova inteira perde cinco pontos se houver uma resposta restrita ou extensa escrita integralmente em maiúsculas.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Estado de espírito pede adjetivos de sentimento — calmo, determinado, consciente, abnegado, angustiado — e não ações. Cada adjetivo precisa do seu verso. Em Mensagem, o herói eleito vive quase sempre a mesma combinação: um desejo de grandeza que o ultrapassa e a serenidade de quem sabe que Deus está com ele. Quando um item delimita os versos, respeita o intervalo: é aí que tens de ir buscar a prova.