O ponto de partida. São cinco afirmações e três estão certas. Um item de seleção não se resolve «por impressão»: cada afirmação testa-se contra uma fonte concreta, e a fonte é sempre uma de três – a Figura 1 (o mapa, com a legenda: que rochas há, de que idade, onde estão, como se movem as placas), a Figura 2 (os três quadros do modelo: onde está o magma, o que acontece à crusta) ou o Texto 1. Duas afirmações pedem, além disso, matéria que tens de trazer tu: o paleomagnetismo das dorsais (II) e a relação entre a composição de um magma e a sua viscosidade (V).
O método que funciona sempre: parte cada afirmação nas suas peças («vulcanismo intraplaca» + «no Mesozoico»; «câmaras magmáticas» + «na Moho»), e só a dás por verdadeira se todas as peças estiverem certas. Uma peça errada torna a afirmação inteira falsa.
1.º — afirmação I – falsa: a idade está errada
Peça 1, «vulcanismo intraplaca». Na Figura 1, os harrats (Shama, Khaybar, Kishb) são as manchas negras espalhadas pela Arábia Saudita, centenas de quilómetros a leste do Mar Vermelho – longe dos limites de placas desenhados no mapa. Vulcanismo que ocorre no interior de uma placa é, por definição, intraplaca: esta peça está certa.
Peça 2, «que ocorreu no Mesozoico». A legenda da Figura 1 chama a essas manchas «Rochas vulcânicas do Cenozoico», e o Texto 1 liga os harrats à pluma térmica de Afar, que contribuiu para a abertura do Mar Vermelho «no Cenozoico, aproximadamente há 30 Ma». O Mesozoico é a era anterior: terminou há cerca de 66 Ma. Esta peça está errada, e uma peça errada chega para a afirmação ser falsa.
2.º — afirmação II – verdadeira: a dorsal guarda o registo das inversões
Para avaliar esta precisas do mecanismo, não só do nome. Na Dorsal Oceânica de Sheba – um limite divergente – o magma basáltico sobe no eixo, arrefece e forma crusta oceânica nova, que vai sendo afastada para os dois lados à medida que se forma mais crusta no eixo. Ao arrefecer abaixo de uma certa temperatura (o ponto de Curie), os minerais ferromagnéticos do basalto, como a magnetite, ficam magnetizados segundo o campo magnético da Terra desse momento, e conservam essa orientação depois de a rocha solidificar.
O campo magnético terrestre inverteu a polaridade muitas vezes ao longo do tempo geológico (o norte magnético passou a sul e vice-versa). Rochas formadas em épocas diferentes registam, por isso, polaridades diferentes – e como a crusta se afasta para os dois lados, o resultado são bandas paralelas ao eixo, simétricas de um lado e do outro, alternadamente com polaridade normal e inversa.
Agora a leitura da figura: a legenda diz que a faixa da Dorsal de Sheba é de «Rochas da crusta oceânica com idades diferentes» (os dois tons de cinzento). Amostras recolhidas em regiões diferentes têm idades diferentes e, portanto, poderão conter o registo de inversões. Repara no verbo: a afirmação não diz que todas as amostras têm polaridades diferentes, diz que poderão conter esse registo – e isso é exatamente o que o modelo prevê. Verdadeira.
3.º — afirmação III – verdadeira: as câmaras estão na base da crusta
Aqui a resposta está desenhada. Na Figura 2B, por baixo dos harrats, há pequenas massas negras alongadas – as câmaras magmáticas – encostadas à base da crusta continental; delas partem condutas verticais até aos pequenos cones da superfície.
A base da crusta é a fronteira entre a crusta e o manto, e essa fronteira tem nome: é a descontinuidade de Mohorovicic (a Moho), identificada pelo aumento brusco da velocidade das ondas sísmicas. Porque é que o magma se acumula ali? O magma vindo da pluma é menos denso do que o manto e sobe; ao chegar à base da crusta continental, que é menos densa do que ele, perde impulso e acumula-se. Só depois, por fraturas, continua a subir até à superfície. Verdadeira.
4.º — afirmação IV – falsa: o calor está a sul
O fluxo térmico é a quantidade de calor interno que atravessa a superfície por unidade de área e de tempo. É mais elevado onde há magma próximo da superfície e onde a litosfera é mais fina.
Agora lê a Figura 1 de norte para sul. As rochas da crusta oceânica – sinal de que o rifte já passou à fase oceânica, com magma a subir no eixo – só aparecem no Mar Vermelho a sul, numa faixa estreita entre cerca de 15º N e 18º N. A grande mancha vulcânica de Afar, por cima da pluma térmica, está no extremo sul, perto de 10º N. A norte de 20º N não há crusta oceânica desenhada: o processo está menos avançado e a litosfera continental ainda não rompeu.
É de prever, portanto, fluxo térmico mais elevado a sul, não a norte. A afirmação inverte a geografia do processo. Falsa.
5.º — afirmação V – verdadeira: basalto e gabro denunciam um magma fluido
O Texto 1 diz que os diques são basálticos e gabroicos. Basalto (vulcânico) e gabro (plutónico) têm a mesma composição: são rochas básicas, pobres em sílica (cerca de 45 % a 52 % de SiO2) e ricas em minerais ferromagnesianos.
A ligação à viscosidade faz-se pelo mecanismo: num magma, a sílica organiza-se em tetraedros SiO4 que se ligam uns aos outros em cadeias e redes. Quanto mais sílica, mais ligações, e mais o magma resiste a escoar – mais viscoso. Um magma básico tem pouca sílica e, além disso, é muito quente (cerca de 1100 a 1200 ∘C), o que também baixa a viscosidade. A litologia dos diques permite, portanto, inferir um magma de baixa viscosidade. Verdadeira.
Resposta: II, III e V.
porque é que I e IV são tentadoras
- I – é uma meia-verdade bem construída: a peça que salta à vista («intraplaca») está certa, e a peça errada («Mesozoico») é uma palavra só, no fim da frase. Quem confirma a primeira metade e não lê a segunda cai. A pista estava na própria legenda («do Cenozoico») e no texto («há 30 Ma»).
- IV – inverte a geografia: o rifte está mais evoluído, e a pluma mais próxima, no sul. É tentadora para quem associa «norte» a «mais frio» – mas isso é o clima, não o calor interno – ou para quem vê os harrats espalhados pelo norte da Arábia e conclui que o calor está lá. Os harrats são vulcanismo pontual; a crusta oceânica e Afar, a sul, são onde a litosfera já cedeu.
onde se perdem pontos
Item de seleção, 8 pontos, classificado de forma dicotómica: só a identificação das três afirmações corretas vale os 8 pontos. Duas certas, ou as três certas e uma a mais, valem zero.
- Aceitar a I por ter uma parte certa. Uma afirmação com um erro é falsa, por muito que o resto esteja bem.
- Rejeitar a III por não conheceres os *harrats*. A resposta está desenhada na Figura 2B; o que tens de trazer é só a equivalência «base da crusta = Moho».
- Rejeitar a II por achar que só as dorsais «grandes» (como a Atlântica) têm bandas magnéticas. O mecanismo é o mesmo em qualquer dorsal: crusta que se forma no eixo e se afasta, num campo que se inverte.
- Escrever quatro números «por segurança». O enunciado pede três; uma resposta com quatro não é a resposta correta.
- Não indicar a versão da prova. Sem versão inequívoca, os itens de seleção valem zero. Esta chave é a da Versão 1 (na Versão 2 as afirmações certas são outras).
a regra a fixar
Num item de seleção com figuras, parte cada afirmação nas suas peças e testa cada uma contra uma fonte: o tipo de vulcanismo e a idade; o processo e o local. E fixa três ligações que voltam sempre em Geologia: dorsal → crusta de idades diferentes → registo das inversões magnéticas, em bandas simétricas; base da crusta = descontinuidade de Mohorovicic; basalto e gabro → magma básico → pouca sílica e temperatura alta → baixa viscosidade. E para o fluxo térmico, procura no mapa onde a litosfera já rompeu (crusta oceânica, vulcanismo intenso): é aí que o calor chega à superfície.