O ponto de partida. O item pede-te para explicares duas coisas que parecem contraditórias: o segundo sismo foi causado pelo primeiro e, no entanto, não é uma réplica dele. Para as conciliar precisas da definição de réplica e de saber como nasce um sismo.
- Um sismo resulta da rotura das rochas ao longo de uma falha, quando as tensões acumuladas ultrapassam a resistência das rochas; a energia acumulada liberta-se de uma vez.
- As réplicas são sismos que se seguem a um sismo principal, resultantes do reajustamento das rochas na mesma falha (na zona que fraturou), e têm, geralmente, magnitude inferior à do sismo principal.
Sobre a primeira ideia, o modelo é o do ressalto elástico: os dois blocos de uma falha tentam deslizar, mas o atrito prende-os; a rocha deforma-se elasticamente e acumula energia, como uma mola a ser comprimida; quando a tensão ultrapassa a resistência, a falha desliza de repente e a energia liberta-se em ondas sísmicas. O ponto onde a rotura começa é o foco (ou hipocentro); o ponto da superfície na vertical do foco é o epicentro.
Com estas duas ideias, cada metade da resposta sai do texto do Grupo III — e o enunciado exige que a uses: «utilizando as informações do texto».
1.º — primeiro elemento: porque é uma consequência
O texto diz: «De acordo com alguns investigadores, este sismo terá alterado as tensões existentes na região.» É a chave. Quando uma falha rompe, as rochas à volta ficam sujeitas a tensões diferentes das que tinham. Uma falha vizinha que já estivesse perto do limite de rotura pode ser levada a romper.
Foi o que aconteceu: o primeiro sismo alterou as tensões na região, e essa alteração levou à rotura da Falha de Sürgü, cerca de nove horas depois. Sem o primeiro sismo, o segundo não teria ocorrido naquele momento — por isso é uma consequência dele.
Repara na ideia fina: o primeiro sismo não criou a tensão na Falha de Sürgü — essa falha já estava carregada, pelo mesmo movimento das placas que carregou as outras. O que o primeiro sismo fez foi acrescentar tensão (ou reduzir o que a segurava), empurrando-a para lá do limite. Por isso se diz que o segundo sismo foi desencadeado pelo primeiro.
2.º — segundo elemento: porque pode não ser uma réplica
Compara os dois sismos com a definição de réplica, usando os dados do texto e da Figura 5:
- a falha é outra. O primeiro sismo ocorreu na intersecção da Falha do Mar Morto com a Falha Oriental da Anatólia; o segundo, na Falha de Sürgü, a norte. Uma réplica dá-se na mesma falha que originou o sismo principal;
- a magnitude é próxima. O primeiro teve magnitude 7,8 e o segundo 7,5 — o texto diz «também com magnitude elevada». Uma réplica tem, geralmente, magnitude claramente inferior à do sismo principal.
Para perceberes quão próxima: a magnitude mede a energia libertada no foco numa escala logarítmica — cada unidade a mais corresponde a cerca de 32 vezes mais energia. Uma diferença de 0,3 corresponde a pouco menos do triplo da energia: os dois sismos estão na mesma ordem de grandeza. Uma réplica típica de um sismo de magnitude 7,8 teria magnitude bem inferior.
Os critérios aceitam qualquer uma destas razões (repara no «OU» do elemento B). Escrever as duas não custa nada e torna a explicação mais sólida.
3.º — juntar numa explicação
O enunciado usa um «mas»: consequência, mas não réplica. Escreve a resposta nessa ordem, com um conector que mostre a oposição («No entanto…»). E não te esqueças de dizer o que é uma réplica — é o termo de comparação que dá sentido às tuas razões.
uma resposta de nível 4, frase a frase
- «O primeiro sismo […] alterou as tensões existentes nas rochas da região. Essa alteração aumentou as tensões a que estava sujeita a Falha de Sürgü, […] que sofreu rotura cerca de nove horas depois, originando o segundo sismo.» → elemento A: a alteração das tensões e a sua consequência;
- «No entanto, o segundo sismo poderá não ser considerado uma réplica do primeiro, porque teve origem numa falha diferente […] e porque a sua magnitude (7,5) é próxima da magnitude do primeiro (7,8).» → elemento B, com as duas razões aceites;
- «As réplicas resultam do reajustamento das rochas na mesma falha que originou o sismo principal e têm, geralmente, magnitude inferior à deste.» → a definição que dá sentido ao elemento B.
Repara que a resposta usa os dados do texto (o nome da falha, as duas magnitudes, as nove horas), como o enunciado exige.
como este item é corrigido (é por níveis, não por etapas)
O corrector procura dois elementos — (A) o segundo sismo resultou da alteração das tensões provocada pelo primeiro; (B) poderá não ser uma réplica porque teve origem noutra falha ou porque a magnitude é próxima da do primeiro — e avalia o rigor científico. Escolhe um nível:
- nível 4 — 9 pontos: os dois elementos, com rigor científico;
- nível 3 — 7 pontos: os dois elementos, com falhas no rigor científico;
- nível 2 — 5 pontos: apenas um elemento, com rigor científico;
- nível 1 — 3 pontos: apenas um elemento, com falhas no rigor científico.
onde se perdem pontos
- Explicar a consequência pela proximidade no tempo ou no espaço. «Aconteceu logo a seguir e perto» não explica nada: é a alteração das tensões que liga os dois sismos. Sem ela, o elemento A não está lá.
- Dizer que as «ondas sísmicas» do primeiro provocaram o segundo. O texto fala de tensões, não de ondas. É uma explicação diferente da que o item pede, e uma falha de rigor.
- Confundir magnitude com intensidade. Os dois sismos tiveram a mesma intensidade máxima (grau IX), mas o argumento do critério é a magnitude (7,8 e 7,5). A intensidade mede os efeitos num local; a magnitude, a energia libertada no foco. Trocar os termos é uma falha de rigor científico.
- Afirmar que o segundo sismo «foi uma réplica, mas maior». Contradiz o próprio enunciado; e elementos contraditórios não se consideram.
- Não usar as informações do texto. O enunciado pede-o expressamente. A falha (Sürgü) e as magnitudes estão lá — cita-as.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Perante «porque é X mas não é Y», escreve a definição de Y e mostra, com os dados do texto, a característica que falha. Para réplicas, as perguntas são sempre as mesmas: é na mesma falha? a magnitude é menor? E para a causa de um sismo, pensa sempre em tensões acumuladas e rotura das rochas.
E distingue sempre magnitude (energia no foco, um valor por sismo) de intensidade (efeitos num local, varia de sítio para sítio e mede-se em graus): é a troca que mais pontos custa nos itens de sismologia.