O ponto de partida. A fração molar de um componente de uma mistura é a fração que ele representa no número total de partículas — ou, o que é o mesmo, na quantidade de matéria total:
x(NH3)=ntotaln(NH3)=n(NH3)+n(H2O)n(NH3)É um número sem unidades, entre 0 e 1, e as frações molares de todos os componentes somam 1. Precisas, portanto, de duas quantidades de matéria: a do soluto e a do solvente, a água.
O enunciado dá-te duas grandezas que se referem ao volume de solução, e é isso que as torna úteis em conjunto:
- a concentração c=Vn diz quantas moles de NH3 há por cada dm3 de solução;
- a massa volúmica ρ=Vm diz quantos gramas de solução (soluto mais solvente) há por cada cm3 de solução.
Num mesmo volume de solução, sabes a massa total e consegues a massa de NH3; a diferença é a massa de água, e daí a quantidade de água. O plano é:
V⟶n(NH3), m(NH3)em(soluc¸a˜o)⟶m(H2O)⟶n(H2O)⟶x(NH3)escolhe o volume de solução
O enunciado não fala de volume nenhum, e não precisa: a fração molar é uma propriedade intensiva — uma amostra de 1 dm3 ou de 5 dm3 da mesma solução tem a mesma composição. Escolhe o volume que simplifica as contas, V=1,000 dm3.
Cuidado com as unidades: a concentração está em moldm−3 e a massa volúmica em gcm−3. Como 1 dm3=1000 cm3, vais usar V=1,000 dm3 com a concentração e V=1000 cm3 com a massa volúmica.
1.º — a massa de NH3 no volume considerado
n(NH3)=cV=14,8 moldm−3×1,000 dm3=14,8 molm(NH3)=nM=14,8 mol×17,04 gmol−1=252,2 gPrimeira etapa (2 pontos). A massa molar do NH3 é dada no enunciado — usa essa, não a recalcules.
2.º — a massa do volume de solução considerado
m(soluc¸a˜o)=ρV=0,8980 gcm−3×1000 cm3=898,0 gSegunda etapa (2 pontos). Os critérios aceitam estas duas primeiras etapas por qualquer ordem.
3.º — a quantidade de água
A solução é só amoníaco e água, por isso a massa de água é a diferença:
m(H2O)=m(soluc¸a˜o)−m(NH3)=898,0−252,2=645,8 gA massa molar da água calcula-se com as massas atómicas relativas da Tabela Periódica da prova:
M(H2O)=2×1,01+16,00=18,02 gmol−1n(H2O)=Mm=18,02645,8=35,84 molTerceira etapa (4 pontos) — a que mostra que percebeste que a massa volúmica é da solução e não da água.
4.º — a fração molar
x(NH3)=n(NH3)+n(H2O)n(NH3)=14,8+35,8414,8=50,6414,8=0,292A fração molar do NH3 nesta solução é 0,292. Não tem unidades.
partindo de uma massa de solução
Os critérios dizem «por exemplo em 1 dm3»: qualquer amostra serve. Se preferires partir de 100,0 g de solução, o volume é V=ρm=0,8980100,0=111,4 cm3=0,1114 dm3; nele há n(NH3)=14,8×0,1114=1,648 mol, ou seja, 28,08 g de NH3 e 71,92 g de água (3,991 mol). E x(NH3)=1,648+3,9911,648=0,292 — o mesmo valor, como tinha de ser. O volume de 1 dm3 é mais cómodo porque a quantidade de NH3 sai diretamente da concentração.
o resultado faz sentido
- 0<0,292<1, e a fração molar da água é 1−0,292=0,708: a água continua a ser o componente maioritário, como deve ser num solvente.
- A fração mássica do amoníaco é 898,0252,2=0,281 — uma solução a 28 % em massa, que é precisamente a do amoníaco concentrado comercial. E a massa volúmica abaixo de 1 gcm−3 é a que se espera: o amoníaco é muito menos denso do que a água, e as soluções aquosas de amoníaco ficam tanto menos densas quanto mais concentradas — a massa volúmica de uma solução não se deduz da massa molar do soluto.
- A fração molar (0,292) é um pouco maior do que a mássica (0,281) porque cada mole de NH3 (17,04 g) pesa menos do que cada mole de água (18,02 g).
como escrever o resultado
Uma fração molar escreve-se sem unidades: x(NH3)=0,292. Mantém os valores intermédios com os algarismos dos critérios (252,2 g, 898,0 g, 35,84 mol) para não acumular erros de arredondamento.
onde se perdem pontos
O item é classificado por etapas, e a classificação é a soma das etapas percorridas, à qual se descontam os erros: 1 ponto se houver só erros de tipo 1 (de cálculo numérico, de transcrição, de arredondamento de valores fornecidos, de conversão de unidades), 2 pontos por um erro de tipo 2 (de cálculo analítico, ausência de conversão de unidades, ausência ou erro de unidades no resultado pedido), 4 pontos por mais do que um erro de tipo 2.
- Não converter as unidades de volume. Multiplicar 0,8980 gcm−3 por 1 dm3 como se fossem a mesma unidade dá uma solução de 0,898 g — menos do que o amoníaco que ela contém, e uma massa de água negativa, sem significado físico. As etapas que usam esse valor valem zero.
- Tratar a massa da solução como massa de água. Quem faz n(H2O)=18,02898,0=49,83 mol esquece-se de que a solução inclui o amoníaco, e chega a x=0,229. A massa volúmica é da solução.
- Esquecer o soluto no denominador. 35,8414,8=0,413 é a razão entre as quantidades de amoníaco e de água, não a fração molar. O denominador é a quantidade de matéria total.
- Calcular a fração mássica em vez da molar. 0,281 é outra grandeza: o item pede a fração molar. Apresentar o valor de uma grandeza não solicitada faz perder a última etapa.
- Apresentar só o resultado. «0,292» sem cálculos vale zero: o enunciado pede todos os cálculos efetuados.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Uma solução com concentração e massa volúmica dadas, e uma pergunta sobre fração molar, fração mássica ou molalidade: fixa um volume de solução (o mais cómodo é 1 dm3), tira a quantidade e a massa de soluto da concentração, a massa da solução da massa volúmica, e a massa de solvente pela diferença. A partir daí, qualquer forma de exprimir a composição sai com n=Mm.