Exame de Física e Química A 2026 · 1.ª fase — item 8.1, resolvido
Cotação 12 pontosResposta abertaVerificado
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 715 · 2026 · 1.ª fase
8.
Jorge Dias de Deus, no livro Galileu e a Parábola, explicou que Galileu não teria conseguido atingir o rigor obtido nas suas medições largando bolas metálicas do cimo da torre de Pisa e que «na prática, ele estudou a descida de esferas [...] numa tábua inclinada em certo ângulo com o chão».
Considere que as esferas em análise podem ser representadas pelo seu centro de massa (modelo da partícula material).
8.1.
Numa das experiências, Galileu largou uma esfera metálica de uma altura, h, e mediu a distância percorrida sobre uma tábua de 1,50m de comprimento durante 1,0s, dΔt=1,0s , tal como se esquematiza na Figura 6, que não está à escala.
Figura 6
Galileu repetiu este procedimento para alturas diferentes.
A tabela seguinte, adaptada do livro referido, apresenta os registos experimentais obtidos. A razão 1,50h exprime a inclinação da tábua em cada ensaio.
1,50h
dΔt=1,0s/m
0,10
0,47
0,13
0,59
0,18
0,77
0,25
1,16
0,31
1,40
Determine o módulo da aceleração gravítica nas condições em que Galileu realizou a experiência.
No tratamento de dados, tal como Galileu, não considere o contributo da força de atrito.
Na sua resposta:
deduza uma expressão matemática que relacione dΔt=1,0s com 1,50h;
apresente a equação da reta de ajuste ao gráfico de dΔt=1,0s em função de 1,50h;
calcule, a partir da equação da reta de ajuste, o valor solicitado, com dois algarismos significativos.
Apresente todos os cálculos efetuados.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Desprezando o atrito, atuam na esfera o peso, P, e a reação normal, N, perpendicular à tábua. Na direção do movimento, a resultante das forças é a componente do peso paralela à tábua, Psinθ, com sinθ=1,50h. Pela Segunda Lei de Newton:
ma=mgsinθ⟹a=g1,50h
A esfera parte do repouso com aceleração constante (movimento retilíneo uniformemente acelerado), pelo que, em Δt=1,0s:
dΔt=1,0s=21aΔt2=21g1,50h×1,02⟹d=2g×1,50h
Recorrendo à calculadora, represento o gráfico de dispersão de dΔt=1,0s em função de 1,50h e determino a reta de ajuste:
Na calculadora gráfica
h/1,50 = { 0,10 ; 0,13 ; 0,18 ; 0,25 ; 0,31 }
d = { 0,47 ; 0,59 ; 0,77 ; 1,16 ; 1,40 }
Estatística › gráfico de dispersão de d em função de h/1,50, com a recta de regressão · janela ajustada aos dados.
A equação da reta de ajuste ao gráfico de dΔt=1,0s em função de 1,50h é d=4,531,50h−0,0009 (SI).
Comparando com a expressão deduzida, o declive é 2g:
2g=4,53⟹g=2×4,53=9,1ms−2
O módulo da aceleração gravítica nas condições da experiência é 9,1ms−2.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Galileu não conseguia medir com rigor a queda livre de uma esfera — é rápida de mais para os relógios do seu tempo. A ideia genial foi «diluir» a gravidade num plano inclinado: a esfera continua a acelerar por causa do peso, mas só a componente do peso ao longo do plano a faz andar, e essa componente é uma fração do peso tanto menor quanto menos inclinado o plano estiver. A aceleração fica mais pequena, as distâncias medem-se com calma, e da relação entre a distância e a inclinação tira-se o valor de g.
O item pede três coisas por ordem, e cada uma é um elemento dos critérios: deduzir a expressão que liga d a 1,50h (dinâmica + cinemática), ajustar uma reta aos dados (calculadora) e lerg no declive.
1.º — as forças e a aceleração ao longo do plano
Sem atrito (como manda o enunciado), atuam na esfera duas forças: o peso, P, vertical, e a reação normal, N, perpendicular à tábua. Decompõe o peso em duas componentes: uma perpendicular à tábua, Pcosθ, que a normal anula (a esfera não salta nem afunda na tábua), e outra paralela à tábua, Psinθ, que não tem nada a equilibrá-la. A resultante das forças é, portanto, essa componente, dirigida ao longo da tábua, para baixo:
FR=Psinθ=mgsinθ
Pela Segunda Lei de Newton, FR=ma:
ma=mgsinθ⟹a=gsinθ
A massa cancela-se: todas as esferas descem com a mesma aceleração, seja qual for a massa — um resultado que já era de Galileu. E a aceleração é constante, porque g e θ não mudam durante a descida.
2.º — o seno da inclinação é a razão da tabela
A tábua, o chão e a vertical formam um triângulo retângulo: a tábua (1,50m) é a hipotenusa, a altura h é o cateto oposto ao ângulo θ que a tábua faz com o chão. Por definição de seno:
sinθ=hipotenusacateto oposto=1,50h⟹a=g1,50h
É por isso que o enunciado diz que a razão 1,50h «exprime a inclinação da tábua»: é o seno do ângulo de inclinação.
3.º — a distância percorrida em 1,0 s
Com aceleração constante, o movimento é retilíneo uniformemente acelerado, e a posição ao longo da tábua segue a equação do formulário, x=x0+v0t+21at2. A esfera é largada, ou seja, parte do repouso (v0=0); medindo a distância a partir do ponto de partida (x0=0):
dΔt=1,0s=21aΔt2=21g1,50h(1,0)2d=2g×1,50h
Este é o primeiro elemento dos critérios. Repara no que a expressão diz: d é diretamente proporcional a 1,50h, e a constante de proporcionalidade é 2g (a rigor, 2gΔt2, com Δt2=1,0s2 — é daí que vêm as unidades do declive, m, e de g, ms−2). O gráfico de d em função de 1,50h é uma reta que passa na origem, e o seu declive dá g.
pôr os dados na calculadora
Na aplicação de Estatística, cria duas listas. A primeira, que vai para o eixo horizontal, é a de 1,50h: 0,10; 0,13; 0,18; 0,25; 0,31. A segunda, a de d (em metros): 0,47; 0,59; 0,77; 1,16; 1,40. Pede o gráfico de dispersão e a regressão linear:
Na calculadora gráfica
h/1,50 = { 0,10 ; 0,13 ; 0,18 ; 0,25 ; 0,31 }
d = { 0,47 ; 0,59 ; 0,77 ; 1,16 ; 1,40 }
Estatística › gráfico de dispersão de d em função de h/1,50, com a recta de regressão · janela ajustada aos dados.
4.º — a equação da reta de ajuste
A calculadora devolve declive ≈4,530 e ordenada na origem ≈−0,0009 (coeficiente de correlação ≈0,997, os pontos estão muito perto de uma reta):
d=4,531,50h−0,0009(SI)
Este é o segundo elemento. Diz sempre de que gráfico é a reta (de d em função de 1,50h) e indica «(SI)», para que se saiba em que unidades estão as grandezas. Os critérios aceitam também a forma y=4,53x−0,0009 (SI) e aceitam que omitas a ordenada na origem.
A ordenada na origem devia ser zero, pela teoria; um valor de −0,0009m (menos de um milímetro) é desprezável face às distâncias medidas e é atribuível aos erros experimentais.
5.º — do declive a g
Compara a reta de ajuste com a expressão deduzida, d=2g×1,50h: o declive corresponde a 2g.
2g=4,53⟹g=2×4,53=9,06ms−2
O enunciado pede dois algarismos significativos:
O módulo da aceleração gravítica, nas condições em que Galileu realizou a experiência, é 9,1ms−2. É o terceiro elemento, e bate com os critérios.
o resultado faz sentido
O valor tabelado é 9,80ms−2, e o de Galileu sai um pouco abaixo. É o que se espera: no tratamento de dados desprezou-se o atrito (e a rotação da esfera, que o modelo da partícula material ignora), mas na tábua real eles existem e reduzem a aceleração. Atribuir toda a aceleração medida ao peso subestima g. Um valor acima de 9,80 teria sido sinal de erro.
Uma confirmação linha a linha: para 1,50h=0,25, d=1,16m dá g=0,252×1,16=9,3ms−2 — da mesma ordem. Mas isto serve só para conferir: o enunciado manda calcular g a partir da equação da reta de ajuste, e um valor tirado de um ensaio isolado não respeita a instrução.
como o item é corrigido (por níveis)
Os critérios procuram três elementos: (1) a dedução de d=2g×1,50h; (2) a equação da reta de ajuste, d=4,531,50h−0,0009 (SI); (3) g=9,1ms−2. A resposta encaixa num só nível:
nível 5 — 12 pontos: os três elementos;
nível 4 — 10 pontos: os três, com uma destas incorreções: erros de cálculo, unidade em falta ou errada no resultado final, número de algarismos significativos diferente de dois;
nível 3 — 8 pontos: apenas dois elementos, ou os três com duas ou mais daquelas incorreções;
nível 2 — 6 pontos: apenas dois elementos com, pelo menos, um erro de cálculo;
nível 1 — 4 pontos: apenas um elemento.
Ao contrário de outros itens por níveis, aqui qualquer elemento sozinho vale 4 pontos: mesmo sem conseguires a dedução, a reta de ajuste certa já pontua.
onde se perdem pontos
Escrever g=9,06ms−2. Três algarismos significativos, quando o enunciado pede dois: desce para o nível 4 (10 pontos). Aqui, ao contrário dos itens por etapas, o número de algarismos significativos conta, porque há uma instrução explícita.
Esquecer a unidade de g. Também desce um nível; com os algarismos errados ao mesmo tempo, desce dois.
Tomar o declive por g. Responder g=4,5ms−2 é esquecer o 21 da equação do movimento: o declive é 2g, não g.
Usar d=at2 ou d=vt. São expressões incorretas para um movimento uniformemente acelerado a partir do repouso; a dedução não vale, e o g que daí sai também não.
Calcular g a partir de um só ensaio (ou da média dos ensaios). O enunciado pede o valor «a partir da equação da reta de ajuste»; um processo que não respeita a instrução não é considerado para esse elemento.
Trocar os eixos. Com 1,50h na vertical, o declive é g2≈0,22; a equação deixa de ser a pedida (o gráfico é de d em função de 1,50h).
Usar cosθ em vez de sinθ. A razão 1,50h é cateto oposto sobre hipotenusa: é o seno. A componente do peso ao longo do plano é Psinθ.
Usar g=9,80ms−2 na dedução e «confirmar» o valor. O item pede que determines g a partir dos dados; o valor da tabela de constantes não entra aqui.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando um item te pede uma grandeza «a partir da equação da reta de ajuste», o método é sempre: (1) escreve as leis físicas (aqui, Segunda Lei de Newton no plano inclinado, a=gsinθ, e d=21at2 a partir do repouso); (2) arruma a expressão na forma y=mx com x e y as grandezas da tabela; (3) identifica o que vale o declive; (4) faz a regressão e lê a grandeza no declive. Num plano inclinado sem atrito, lembra-te sempre: a aceleração é gsinθ e não depende da massa.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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