Exame de Física e Química A 2026 · Época especial — item 6.2, resolvido
Cotação 12 pontosResposta abertaVerificado
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 715 · 2026 · Época especial
6.
Algumas embarcações estavam equipadas com canhões. Estes usavam pólvora como carga explosiva propulsora dos projéteis.
A pólvora é uma mistura constituída por nitrato de potássio, KNO3(s), enxofre, S(s), e carbono, C(s), cuja reação de combustão, na forma simplificada, pode ser traduzida por
2KNO3(s)+S(s)+3C(s)⟶K2S(s)+N2(g)+3CO2(g)
Nesta reação, a variação de entalpia associada à combustão de 1mol de S(s) é −597,73kJ.
6.2.
Considere que um canhão dispara um projétil de 5,4kg. Para tal, o canhão é carregado com 1,8kg de pólvora contendo 8,0%, em massa, de enxofre, estando todos os reagentes em proporções estequiométricas.
Admita que 7,0% da energia libertada na combustão da pólvora é transformada em energia cinética do projétil.
Considere que o projétil pode ser representado pelo seu centro de massa (modelo da partícula material) e que a resistência do ar é desprezável.
Determine o tempo que o projétil, caso fosse disparado na vertical, demoraria a regressar à posição de partida.
Apresente todos os cálculos efetuados.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Massa e quantidade de enxofre na pólvora:
mS=0,080×1,8×103g=144gnS=32,06144=4,49mol
Como os reagentes estão em proporções estequiométricas, todo o enxofre reage; a combustão de 1mol de S liberta 597,73kJ:
Elibertada=4,49×597,73=2,68×103kJ
Energia cinética e velocidade inicial do projétil:
Disparado na vertical e sem resistência do ar, o projétil tem movimento retilíneo uniformemente variado, com a=−g (eixo vertical, sentido positivo para cima, origem na posição de partida). Regressa à posição de partida quando y=0:
O projétil demoraria 54s a regressar à posição de partida.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Este item é uma cadeia que atravessa a química e a física, e cada elo é uma etapa dos critérios:
massa de poˊlvora→nS→energia libertada→Ec→v0→t
Três ideias governam a cadeia:
a variação de entalpia de uma reação, ΔH, é a energia trocada com o exterior, a pressão constante, por uma quantidade definida de reação. Aqui ΔH<0: a reação é exotérmica e liberta 597,73kJpor cada mole de enxofre que reage. Como a energia libertada é proporcional à quantidade que reage, se souberes quantas moles de enxofre reagem, sabes a energia;
uma fração dessa energia (7,0%) passa a energia cinética do projétil, Ec=21mv2, e daí sai a velocidade com que ele sai do canhão;
sem resistência do ar, o projétil disparado na vertical fica sujeito apenas ao peso: é um movimento de queda livre, retilíneo e uniformemente variado, com aceleração g dirigida para baixo, seja a subir ou a descer.
1.º — a quantidade de enxofre
A pólvora tem 8,0%, em massa, de enxofre: a fração mássica do enxofre é 0,080. Em 1,8kg=1,8×103g de pólvora,
mS=0,080×1,8×103g=144g
A massa molar do enxofre lê-se na Tabela Periódica da prova: M(S)=32,06gmol−1.
nS=M(S)mS=32,06gmol−1144g=4,49mol
Primeira etapa (3 pontos). Converte os quilogramas em gramas antes de dividir pela massa molar, que está em gmol−1.
2.º — a energia libertada na combustão
Porque é que a energia se calcula pelo enxofre, e não pelo nitrato de potássio ou pelo carbono? Por duas razões que o enunciado te dá: o ΔH está referido a 1mol de S (que é também o coeficiente do S na equação — a «mole de reação» tem uma mole de enxofre); e os reagentes estão em proporções estequiométricas, por isso nenhum sobra — todo o enxofre reage.
O sinal negativo de ΔH diz que a energia sai do sistema químico; a «energia libertada» é o seu módulo, positivo. Segunda etapa (3 pontos).
3.º — a velocidade inicial do projétil
Só 7,0% da energia libertada vai para o projétil (o resto aquece o canhão, os gases, o ar, e sai como som e luz). Passa a energia para joules, porque a seguir vais usar unidades SI (kg, ms−1):
Ec=0,070×2,685×106J=1,879×105J
Da definição de energia cinética, Ec=21mv02, isolas a velocidade:
v0=m2Ec=5,42×1,879×105=264ms−1
A massa é a do projétil (5,4kg), não a da pólvora. Terceira etapa (3 pontos).
4.º — o tempo até regressar à posição de partida
Escolhe um eixo vertical, com origem na boca do canhão e sentido positivo para cima. A única força é o peso, por isso a aceleração é constante, a=−g=−9,80ms−2, durante todo o movimento — na subida, no ponto mais alto e na descida. A equação das posições (formulário) fica
y=y0+v0t+21at2=264t−4,90t2(SI)
O projétil regressa à posição de partida quando y=0:
0=t(264−4,90t)⟹t=0out=4,90264=g2v0=53,8s
A solução t=0 é o instante do disparo; a que interessa é a outra. Com dois algarismos significativos (os dados 5,4kg, 1,8kg, 8,0% e 7,0% têm dois):
O projétil demoraria 54s a regressar à posição de partida. Quarta etapa (3 pontos).
pela simetria da subida e da descida
Sem resistência do ar, a subida e a descida demoram o mesmo tempo. No ponto mais alto a velocidade é nula; pela equação das velocidades, v=v0+at:
0=264−9,80tsubida⟹tsubida=9,80264=26,9s
e o tempo total é o dobro: t=2×26,9=54s. Também podes ver por energia: como a energia mecânica se conserva, o projétil volta à posição de partida com velocidade de módulo v0, mas a apontar para baixo, v=−264ms−1; e −264=264−9,80t dá t=53,9s≈54s.
Se usares a simetria, diz que a usas e porquê (sem resistência do ar): é uma propriedade do movimento, não uma regra mágica.
os números fazem sentido
264ms−1 é cerca de 950km/h — da ordem de grandeza da velocidade de saída de um projétil de canhão antigo. E, sem ar, um projétil lançado a essa velocidade subiria h=2gv02≈3,6km, o que é coerente com quase um minuto no ar. (Na realidade a resistência do ar é tudo menos desprezável a estas velocidades, e o tempo seria bem menor — é por isso que o enunciado a manda desprezar.)
como escrever o resultado
Mantém nos cálculos intermédios mais algarismos do que os que escreves no fim (4,49mol, 2,685×106J, 263,8ms−1) e arredonda só o tempo: 54s, com unidade.
onde se perdem pontos
O item é obrigatório e classificado por etapas: 3+3+3+3 pontos. Aos pontos das etapas feitas descontam-se os erros: 1 ponto se só houver erros de tipo 1 (de cálculo numérico, de transcrição, de arredondamento de valores fornecidos, de conversão de unidades); 2 pontos por um erro de tipo 2 (de cálculo analítico, falta de conversão de unidades, falta de unidades ou unidade errada no resultado pedido); 4 pontos por mais do que um erro de tipo 2.
Dar só o tempo de subida.t=gv0=27s é o tempo até ao ponto mais alto. O enunciado pede o regresso à posição de partida: o dobro.
Esquecer os 7,0%. Toda a energia libertada como energia cinética daria v0=997ms−1 e t=204s. A etapa da velocidade fica com o valor errado, e a seguinte também.
Usar a massa da pólvora (1,8kg) na energia cinética. A energia cinética é a do projétil: 5,4kg.
Usar a massa de pólvora toda como se fosse enxofre (1800/32,06=56,1mol). Só 8,0% da massa é enxofre.
Calcular a energia pelo KNO3 ou pelo C com o mesmo 597,73kJ. Este valor é «por mole de S». Se partires de outro reagente, tens de passar pela proporção estequiométrica (2mol de KNO3 ou 3mol de C por cada mole de S).
Não converter kJ em J antes de calcular a velocidade. A ausência de conversão de unidades é um erro de tipo 2 (−2 pontos): obtinhas v0=8,3ms−1, um valor sem significado para um canhão.
Usar g=10ms−2. A prova dá g=9,80ms−2; usar outro valor é usar um valor diferente do fornecido, e a etapa em que o usas vale zero.
Apresentar só o resultado. «54s» sem cálculos vale zero.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Num item-cadeia, desenha primeiro a cadeia de grandezas (como no início desta resolução) e só depois faz contas: cada seta é uma relação que já conheces — n=Mm, E=n∣ΔH∣, Ec=21mv2, as equações do movimento. No lançamento vertical sem resistência do ar, o tempo de ida e volta à mesma posição é sempre t=g2v0, e a aceleração é g para baixo durante todo o movimento.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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