O ponto de partida. Este item é sobre as fontes de campo magnético. Uma agulha magnética — a agulha de uma bússola — é um pequeno íman que pode rodar livremente. Num campo magnético, ela roda até ficar alinhada com esse campo, com o seu polo norte a apontar no sentido das linhas de campo. Longe de tudo, o único campo que a atua é o campo magnético terrestre, e por isso a agulha aponta para o norte geográfico. Esse é o princípio de funcionamento da bússola, e é também a chave do item: se a agulha se mexe sem ninguém lhe tocar, é porque apareceu ali outro campo magnético.
Durante séculos, conheceu-se uma só fonte de campo magnético: os ímanes (e a própria Terra, que se comporta como um grande íman). A experiência de Oersted, em 1820, mostrou que há uma segunda fonte — as correntes elétricas — e foi o primeiro elo entre a eletricidade e o magnetismo, que hoje se estudam juntos com o nome de eletromagnetismo.
O enunciado diz-te por onde começar: primeiro, o que Oersted observou e o que concluiu; depois, a relação com o que os marinheiros viam. São estes, por esta ordem, os três elementos dos critérios.
1.º — o que Oersted observou
Oersted montou um circuito com uma pilha e um fio condutor retilíneo, e colocou uma agulha magnética por baixo do fio, paralela a ele (portanto, na direção norte-sul). Enquanto o circuito estava aberto, nada acontecia. Quando fechava o circuito e o fio passava a ser percorrido por corrente elétrica, a agulha desviava-se, tendendo a ficar perpendicular ao fio. Quando abria o circuito, a agulha voltava à direção norte-sul. E, invertendo o sentido da corrente, a agulha desviava-se para o lado contrário.
É este o primeiro elemento dos critérios: na proximidade de um condutor percorrido por corrente elétrica, as agulhas das bússolas desviam-se.
2.º — o que Oersted concluiu
Uma agulha magnética só é desviada por um campo magnético. Se a agulha se desvia quando há corrente, e só quando há corrente, então é a corrente elétrica que cria, no espaço à sua volta, um campo magnético. A conclusão de Oersted: as correntes elétricas produzem campos magnéticos.
Hoje sabes mais sobre esse campo: à volta de um fio retilíneo, as linhas de campo magnético são circunferências centradas no fio, em planos perpendiculares a ele; o campo é tanto mais intenso quanto maior for a corrente e quanto mais perto do fio estiveres, e o seu sentido inverte-se quando a corrente se inverte. É por isso que a agulha tende a ficar perpendicular ao fio — fica tangente às linhas de campo.
Repara num pormenor: o que cria o campo magnético não é a carga elétrica em si, mas a carga elétrica em movimento, isto é, a corrente. Um fio carregado mas sem corrente não desvia a agulha.
Este é o segundo elemento.
3.º — relacionar com as observações dos marinheiros
Um raio é uma descarga elétrica entre uma nuvem e o solo (ou entre nuvens): uma quantidade enorme de carga elétrica que atravessa o ar num intervalo de tempo muito curto. Carga em movimento é corrente elétrica — o raio é uma corrente elétrica muito intensa, de dezenas de milhares de amperes.
Então o raio faz o que o fio de Oersted fazia, em ponto grande: cria um campo magnético à sua volta. Esse campo sobrepõe-se ao campo magnético terrestre, e a agulha da bússola passa a alinhar-se com o campo resultante, que já não aponta para norte. Como a corrente do raio aparece e desaparece em frações de segundo (e um raio é, muitas vezes, uma sucessão de descargas), o campo que ele cria também aparece, varia e desaparece — e a agulha, que tenta acompanhar um campo que muda, oscila, até voltar à direção norte-sul quando a trovoada se afasta.
É este o terceiro elemento: a descarga elétrica cria um campo magnético em seu redor, que faz oscilar as agulhas magnéticas das bússolas.
como se escreve um texto bem estruturado
O enunciado impõe a ordem, e um texto organizado segue-a:
- a observação de Oersted (agulha desviada perto de um fio com corrente);
- a conclusão de Oersted (as correntes elétricas criam campos magnéticos);
- a aplicação ao raio: o raio é uma corrente elétrica, logo cria um campo magnético, que faz oscilar as agulhas.
O que transforma três frases soltas num texto articulado é a ligação entre elas: «daqui concluiu que…», «um raio é uma descarga elétrica, ou seja, uma corrente…», «tal como no fio de Oersted…». Os critérios gerais dizem que o texto deve evidenciar essa articulação, seja qual for a ordem em que os elementos apareçam — mas aqui o próprio enunciado pede que comeces por Oersted.
como o item é corrigido
O item é classificado por níveis de desempenho, e contam duas coisas: quantos elementos apresentas e se o texto está articulado e com linguagem científica adequada.
- Os três elementos, bem articulados e com linguagem científica adequada: 10 pontos. Com falhas de articulação ou de linguagem: 8.
- Só dois elementos: 6 ou 4, conforme a articulação e a linguagem.
- Só um elemento, com linguagem científica adequada: 2. Um elemento só, mal escrito, não tem nível — vale zero.
Na prática: quem escreve só «o raio cria um campo magnético que faz mexer as agulhas» tem, no máximo, 2 pontos. Descrever a experiência e a conclusão de Oersted vale, sozinho, mais do que a ligação ao raio.
onde se perdem pontos
- Saltar Oersted e ir direto ao raio. O enunciado manda começar pelas observações e conclusões de Oersted. São dois dos três elementos.
- Trocar Oersted por Faraday. Oersted mostrou que uma corrente elétrica cria um campo magnético; Faraday mostrou o recíproco, que um campo magnético variável cria uma corrente (indução eletromagnética). Escrever que «o campo do raio induz uma corrente na agulha» é misturar os dois fenómenos, e a agulha não oscila por isso.
- Atribuir o desvio ao campo elétrico. A agulha magnética responde a campos magnéticos. Dizer que «o campo elétrico do raio atrai a agulha» é cientificamente errado, e os critérios gerais não pontuam elementos que evidenciem contradições.
- Dizer que é a carga elétrica que cria o campo magnético. Uma carga parada cria um campo elétrico, não um campo magnético. O que cria o campo magnético é a carga em movimento — a corrente.
- Descrever a experiência sem dizer a conclusão. «A agulha mexeu-se» é a observação; «as correntes elétricas produzem campos magnéticos» é a conclusão. São elementos diferentes, e os dois valem.
- Abreviaturas e frases soltas. «Raio → corrente → B → agulha» não é um texto. Abreviaturas que não sejam de uso comum contam como falhas de linguagem científica e descem um nível.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Sempre que uma bússola se desvia «sem razão aparente», pergunta: que corrente elétrica está por perto? Fios com corrente, raios, motores, até um cabo de alimentação — todos criam campos magnéticos (Oersted). Guarda o par que o exame adora: corrente → campo magnético é Oersted (1820); campo magnético variável → corrente é Faraday (1831).