Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. O ácido ascórbico é um ácido fraco: em água, só uma pequena fração das moléculas cede um protão à água, e o sistema chega a um equilíbrio químico. A extensão desse equilíbrio mede-se pela constante de acidez, que se escreve com as concentrações de equilíbrio (a água, o solvente, não entra):
Ka1=[C6H8O6]e[C6H7O6−]e[H3O+]e
Um Ka1 pequeno (8,0×10−5) quer dizer que, no equilíbrio, quase todo o ácido continua por ionizar. O pH define-se a partir da concentração de H3O+:
pH=−log([H3O+]/moldm−3)
O caminho é, portanto: concentração inicial do ácido → concentração de H3O+ no equilíbrio, pela constante →pH. O primeiro troço tem uma armadilha: o enunciado não dá o volume da solução — dá massas e uma massa volúmica.
1.º — o volume da solução
A solução é tudo o que está misturado: o soluto e o solvente. A sua massa é a soma das duas massas (a massa conserva-se ao dissolver):
msoluc¸a˜o=80,5+210=290,5g
A massa volúmica liga massa e volume, ρ=Vm, logo
V=ρmsoluc¸a˜o=1,22gcm−3290,5g=238cm3=0,238dm3
Repara que não são 210cm3 (o volume da água sozinha) nem 290,5cm3 (como se a massa volúmica fosse 1gcm−3). É a primeira etapa (3 pontos).
2.º — a concentração inicial do ácido
A quantidade de ácido dissolvido vem da massa e da massa molar:
O volume entra em decímetros cúbicos, porque a concentração se exprime em moldm−3. É a segunda etapa (3 pontos).
3.º — as concentrações no equilíbrio
Por cada molécula de ácido que se ioniza formam-se um ião C6H7O6− e um ião H3O+ (estequiometria 1:1:1). Chama x à concentração de H3O+ no equilíbrio:
C6H8O6
C6H7O6−
H3O+
inicial / moldm−3
1,92
0
≈0
variação / moldm−3
−x
+x
+x
equilíbrio / moldm−3
1,92−x
x
x
Duas aproximações estão escondidas no «≈0» e no «apenas a primeira ionização»: os H3O+ vindos da autoionização da água (cerca de 10−7moldm−3) são desprezáveis perante os do ácido, e a segunda ionização — muito menos extensa — não se considera, como o enunciado manda.
4.º — a concentração de H3O+
Substitui na expressão da constante:
Ka1=1,92−xx⋅x=8,0×10−5
Multiplicando e arrumando, fica uma equação do segundo grau:
x2+8,0×10−5x−8,0×10−5×1,92=0
A solução com significado físico é a positiva (uma concentração não pode ser negativa):
Na calculadora gráfica podes resolver a equação diretamente (ou procurar o zero positivo da função). [H3O+]e=1,24×10−2moldm−3 — terceira etapa (3 pontos).
5.º — o pH
pH=−log(1,24×10−2)=1,91
A regra dos algarismos significativos do pH: o número de casas decimais do pH é igual ao número de algarismos significativos da concentração. Três algarismos significativos em 1,24×10−2, duas casas decimais em 1,91 (o valor 1,908 arredonda para 1,91).
O pH da solução de ácido ascórbico é 1,91.
desprezando x perante a concentração inicial
Como Ka1 é pequeno e a concentração é elevada, a fração ionizada é pequena e 1,92−x≈1,92. Então
A aproximação tem de ser justificada e verificada: cx=1,921,24×10−2≈0,6%, muito menos do que 5% — é legítima, e dá o mesmo pH, 1,91. Se a percentagem saísse acima de cerca de 5%, terias de resolver a equação do segundo grau.
qual dos dois caminhos usar
Com a calculadora gráfica, a equação do segundo grau resolve-se num instante e não precisa de justificação: é o caminho mais seguro. A aproximação é mais rápida à mão e mostra que percebeste o que é um ácido fraco, mas obriga-te a confirmar que x é pequeno perante c. Os critérios aceitam os dois.
o resultado faz sentido
Um ácido forte com c=1,92moldm−3 teria pH=−log1,92≈−0,28. Um ácido fraco ioniza-se pouco, e o pH tem de ser maior do que isso, mas ainda bem abaixo de 7, porque a solução é muito concentrada. 1,91 está onde devia.
onde se perdem pontos
O item é obrigatório e classificado por etapas: 3+3+3+3 pontos. Aos pontos das etapas feitas descontam-se os erros: 1 ponto se só houver erros de tipo 1; 2 pontos por um erro de tipo 2 (por exemplo, uma conversão de unidades que falta); 4 pontos por mais do que um.
Usar o volume da água. Com V=210cm3 a concentração sai 2,18moldm−3. A concentração é por volume de solução, e a massa volúmica é dada precisamente para o calcular.
Esquecer a massa do soluto na massa da solução.1,22210=172cm3 é o volume de quê? De nada: 1,22gcm−3 é a massa volúmica da solução, e aplica-se à massa da solução.
Não converter cm3 em dm3. Dividir 0,4570mol por 238 dá 1,92×10−3 — mil vezes menos. É um erro de tipo 2.
Tratar o ácido como forte. Igualar [H3O+] à concentração inicial ignora o Ka1 e dá um pH negativo. O enunciado diz «ácido fraco» e dá a constante: é para a usar.
Escrever mal a expressão de Ka1. Pôr a água na expressão, ou inverter numerador e denominador, é usar uma expressão incorreta: as etapas em que ela entra são pontuadas com zero.
Considerar a segunda ionização. O enunciado manda considerar apenas a primeira. Seguir outro processo é não respeitar a instrução.
Apresentar só o resultado. «pH=1,91» sem cálculos vale zero: o enunciado pede todos os cálculos efetuados.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Num pH de ácido fraco, o percurso é sempre: concentração inicial (se o volume não é dado, tira-o da massa volúmica da solução, com msoluc¸a˜o=msoluto+msolvente) →tabela de equilíbrio com x→Ka=c−xx2→pH=−logx. E confere no fim: um ácido fraco tem pH maior do que um ácido forte com a mesma concentração.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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