O ponto de partida. Este é um problema de estequiometria com reagente em excesso, que acaba num cálculo de pH. Três ideias governam-no:
- O ácido clorídrico é um ácido forte. Em água ioniza-se completamente, HCl(aq)+H2O(l)⟶H3O+(aq)+Cl−(aq), e por isso cada mole de HCl em solução é uma mole de H3O+. É isto que te deixa passar da quantidade de ácido para a concentração de H3O+, a grandeza de que o pH depende.
- A equação química é uma relação entre quantidades de matéria. Os coeficientes dizem-te que 1 mol de Al(OH)3 reage com 3 mol de HCl. O enunciado diz que a reação é completa: o reagente limitante esgota-se e o outro sobra.
- O pH define-se a partir da concentração de H3O+ (está no formulário): pH=−log([H3O+]/moldm−3). Quanto menos H3O+ houver no mesmo volume, maior o pH.
Como o antiácido funciona: o Al(OH)3 é uma base — os seus iões hidróxido captam os iões H3O+ do ácido e formam água. Em termos iónicos, a reação do enunciado é Al(OH)3(s)+3H3O+(aq)⟶Al3+(aq)+6H2O(l) (os iões Cl− são espetadores). Por cada mole de Al(OH)3 desaparecem três moles de H3O+.
O plano é, por isso, o que os critérios seguem: quanto ácido havia, quanto reagiu, quanto sobrou, que pH dá o que sobrou.
1.º — quanto ácido havia no início
A concentração está em moldm−3, por isso o volume tem de estar em dm3: 800 cm3=0,800 dm3 (um decímetro cúbico tem 1000 centímetros cúbicos). Da definição de concentração, c=Vn:
nHCl=cV=3,16×10−2 moldm−3×0,800 dm3=2,528×10−2 mol2.º — quanto ácido reage com o comprimido
Primeiro a quantidade de Al(OH)3. A massa molar está em gmol−1, logo a massa vai para gramas: 240 mg=0,240 g. Da definição de massa molar, M=nm:
nAl(OH)3=Mm=78,01 gmol−10,240 g=3,077×10−3 molAgora a proporção estequiométrica. A equação diz 1 mol de Al(OH)3 para 3 mol de HCl:
nAl(OH)3nHCl,reage=13⇔nHCl,reage=3×3,077×10−3=9,231×10−3 molSem arredondar a quantidade de Al(OH)3 obténs 9,230×10−3 mol; os critérios apresentam 9,231×10−3 mol porque partem de 3,077×10−3 mol. A diferença está no último algarismo e não muda o resultado final — qualquer dos dois valores é aceite.
Repara no que este número te diz: o comprimido consegue neutralizar 9,231×10−3 mol de ácido, mas havia 2,528×10−2 mol. O Al(OH)3 é o reagente limitante e esgota-se; o HCl está em excesso. A solução continua ácida.
3.º — quanto ácido sobra
O que sobra é o que havia menos o que reagiu:
nHCl,excesso=2,528×10−2−9,231×10−3=2,528×10−2−0,9231×10−2=1,605×10−2 molComo o HCl é um ácido forte, todo este ácido está ionizado: a quantidade de H3O+ em excesso é nH3O+=1,605×10−2 mol. (O enunciado manda-te considerar que a variação de pH se deve exclusivamente à adição de Al(OH)3: não tens de te preocupar com outras espécies que possam alterar a acidez, como o ião Al3+ formado.)
4.º — o pH da solução final
O pH depende da concentração de H3O+, não da quantidade. O volume não varia (o enunciado di-lo), por isso continua a ser 0,800 dm3:
[H3O+]=VnH3O+=0,800 dm31,605×10−2 mol=2,006×10−2 moldm−3pH=−log(2,006×10−2)=1,698Resposta: o pH da solução após a adição de 240 mg de Al(OH)3(s) é 1,698.
a ordem das duas primeiras etapas
Os critérios dizem que a ordem das duas primeiras etapas é arbitrária: podes começar pelo comprimido (quanto ácido ele neutraliza) e só depois calcular quanto ácido havia. As etapas são as mesmas e valem o mesmo; escolhe a ordem que te parecer mais natural.
Também podes trabalhar sempre em concentrações: a concentração inicial de H3O+ é 3,16×10−2 moldm−3 e o comprimido retira 0,8009,231×10−3=1,154×10−2 moldm−3, o que deixa 2,006×10−2 moldm−3 — o mesmo número. Só que, por este caminho, a terceira etapa dos critérios (a quantidade em excesso, 1,605×10−2 mol) não aparece escrita. Na prova, segue as quantidades.
quantas casas decimais tem um pH
Num logaritmo, os algarismos significativos da concentração passam a casas decimais do pH (a parte inteira só diz a potência de dez). Os dados têm três ou quatro algarismos significativos (3,16×10−2, 0,240, 78,01), e os critérios apresentam o resultado com três casas decimais: 1,698. O pH não tem unidades.
o resultado faz sentido?
Antes do comprimido, pH=−log(3,16×10−2)=1,500. Depois, 1,698. O pH subiu — o antiácido retirou ácido — mas continua muito abaixo de 7, porque o Al(OH)3 era o reagente limitante e só neutralizou 2,528×10−29,231×10−3≈37% do ácido. A concentração de H3O+ passou de 3,16×10−2 para 2,006×10−2 moldm−3: ficou com cerca de 63% do valor inicial, e −log(0,63)≈0,20 é exatamente a subida do pH.
Se te saísse um pH acima de 7, terias tratado o HCl como reagente limitante; se te saísse menor do que 1,500, terias somado em vez de subtrair.
onde se perdem pontos
O item é classificado por etapas: 3+3+3+3 pontos, e às etapas percorridas subtraem-se pontos pelo tipo de erro (critérios gerais): 1 ponto se houver só erros de tipo 1, 2 pontos se houver um erro de tipo 2, 4 pontos se houver mais do que um.
- Esquecer o coeficiente 3. Com nHCl,reage=3,077×10−3 mol usas uma relação estequiométrica errada; a etapa em que a usas vale zero, e o excesso e o pH saem errados.
- Não converter as unidades. Usar 800 em vez de 0,800 dm3, ou 240 em vez de 0,240 g, é um erro de tipo 2 (ausência de conversão; conta como um só, sejam quantas forem as conversões em falta). Converter mal (8,00 dm3, por exemplo) é um erro de tipo 1.
- Calcular o pH com a quantidade em vez da concentração. −log(1,605×10−2)=1,795 não é o pH de nada: o pH é definido com [H3O+] em moldm−3. A última etapa perde-se.
- Saltar o excesso. Calcular o pH com a concentração inicial (1,500) ignora o comprimido; calcular só com o ácido que reagiu responde a outra pergunta.
- Prosseguir para além do pedido. Se, depois de obteres 1,698, calculares o pOH ou a [OH−] e concluíres com esse valor, a última etapa é pontuada com zero (situação 13 dos critérios gerais).
- Apresentar só o resultado. O enunciado pede «todos os cálculos efetuados»: só o resultado final vale zero pontos, e uma etapa sem o cálculo apresentado também vale zero.
- Arredondar a meio. Com nAl(OH)3=3,1×10−3 mol o excesso dá 1,598×10−2 mol e o pH 1,700. Guarda pelo menos quatro algarismos até ao fim.
para reconhecer o próximo exercício deste tipo
Quando um ácido forte reage com uma base e te pedem o pH no fim, o caminho é sempre o mesmo: (1) quantidade de cada reagente (n=cV para a solução, n=Mm para o sólido); (2) quanto reage, pela proporção dos coeficientes; (3) quanto sobra do reagente em excesso; (4) concentração do que sobra, com o volume final; (5) pH=−log[H3O+]. Se for a base a sobrar, o último passo passa pela [OH−] e pelo produto iónico da água.