O ponto de partida. Um radical livre (ou, simplesmente, radical) é uma espécie química — átomo, molécula ou ião — com pelo menos um eletrão desemparelhado, isto é, um eletrão sozinho numa orbital. Representa-se com um ponto junto do símbolo, como Cl∙: o ponto é esse eletrão.
Os eletrões tendem a estar emparelhados (dois numa orbital, com spins opostos), porque é nessa situação que a energia é mais baixa. Um eletrão desemparelhado procura emparelhar — formando uma ligação, captando ou cedendo um eletrão —, e é por isso que os radicais são, em regra, muito reativos: reagem com quase tudo o que encontram, e depressa.
Para responder, tens de confirmar duas coisas: que o átomo de cloro tem, de facto, um eletrão desemparelhado no estado fundamental, e que consequência isso tem na sua reatividade.
1.º — a configuração eletrónica do cloro
O cloro tem número atómico 17 (Tabela Periódica): o átomo neutro tem 17 eletrões. No estado fundamental, os eletrões ocupam as orbitais por ordem crescente de energia:
17Cl: 1s2 2s2 2p6 3s2 3p5Todas as subcamadas estão completas exceto a 3p, que tem três orbitais (3px, 3py, 3pz) e só cinco eletrões. Cada orbital comporta, no máximo, dois eletrões com spins opostos (Princípio da Exclusão de Pauli); e, pela Regra de Hund, os eletrões ocupam primeiro as orbitais degeneradas um a um, e só depois emparelham. Com cinco eletrões em três orbitais, a distribuição fica:
3px2 3py2 3pz1Duas orbitais com dois eletrões emparelhados e uma com um eletrão desemparelhado. Todas as outras orbitais (1s, 2s, 2p, 3s) estão completas. O átomo de cloro tem, portanto, um eletrão desemparelhado — é um radical.
2.º — a consequência: muito reativo
Ao cloro falta um eletrão para completar a camada de valência (3s23p6, a configuração do árgon). Esse eletrão desemparelhado emparelha com muita facilidade com um eletrão de outra espécie: o Cl∙ arranca um átomo de oxigénio a uma molécula de ozono (Cl∙+O3⟶ClO∙+O2), forma ligações com quase tudo o que encontra. É uma espécie muito reativa.
É por isso que, na natureza, o cloro não aparece como átomos isolados: aparece em moléculas Cl2, em que os dois eletrões desemparelhados formaram uma ligação covalente, ou em iões Cl−, que já ganharam o eletrão em falta.
Resposta: opção (A).
porque é que isto importa para o ozono
A grande reatividade do Cl∙ é a razão pela qual os CFC são tão destrutivos na estratosfera: o radical reage com o ozono, é regenerado no fim do ciclo (é o que mostra a Figura 1, no item seguinte) e volta a reagir. Um só radical cloro pode destruir milhares de moléculas de ozono antes de ser retirado do ciclo.
a origem de cada opção errada
- (B) não possui eletrões desemparelhados, sendo uma espécie muito reativa — a primeira metade contradiz a própria definição: uma espécie sem eletrões desemparelhados não é um radical. Essa descrição serve para a molécula Cl2, em que todos os eletrões estão emparelhados — e o Cl2 é reativo, mas não é um radical.
- (C) possui um eletrão desemparelhado, sendo uma espécie pouco reativa — acerta na estrutura e erra a consequência. Um eletrão desemparelhado é precisamente o que torna a espécie instável e reativa. Quem a escolhe pode ter associado o cloro a substâncias estáveis do dia a dia (o sal de cozinha), onde o cloro está como ião Cl−, e não como radical.
- (D) não possui eletrões desemparelhados, sendo uma espécie pouco reativa — erra as duas metades. É a descrição do ião cloreto, Cl− (18 eletrões, 1s22s22p63s23p6, todos emparelhados, com a configuração de gás nobre) — ou de um átomo de árgon. Não é a do átomo de cloro neutro.
onde se perdem pontos
Item de escolha múltipla: os 10 pontos são tudo ou nada.
- Confundir o átomo com o ião. O Cl− tem todos os eletrões emparelhados e é pouco reativo; o átomo Cl tem 17 eletrões, um deles desemparelhado.
- Ficar pelos «sete eletrões de valência». O número de eletrões de valência não diz, por si, quantos estão desemparelhados: distribui os cinco eletrões 3p pelas três orbitais 3p e vês que um fica sozinho — com um número ímpar de eletrões, não há maneira de os emparelhar todos.
- Ligar «desemparelhado» a «estável». É o contrário: o eletrão sozinho procura emparelhar, e essa procura é a reatividade.
- Não indicar a versão da prova. Pelos critérios gerais, a ausência de indicação inequívoca da versão implica zero pontos nos itens de seleção.
- Assinalar duas opções. Só é classificada a resposta que surgir em primeiro lugar.
para reconhecer o próximo exercício deste tipo
Para saber se uma espécie é um radical, escreve a configuração eletrónica e conta os eletrões nas orbitais de valência: se houver um número ímpar de eletrões no total, há pelo menos um desemparelhado — é um radical (o Cl∙, o H∙, o NO∙, o ClO∙). E fixa a consequência: radical = eletrão desemparelhado = muito reativo.