Exame de Física e Química A 2026 · 1.ª fase — item 8.2, resolvido
Cotação 10 pontosEscolha múltiplaVerificado
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 715 · 2026 · 1.ª fase
8.
Jorge Dias de Deus, no livro Galileu e a Parábola, explicou que Galileu não teria conseguido atingir o rigor obtido nas suas medições largando bolas metálicas do cimo da torre de Pisa e que «na prática, ele estudou a descida de esferas [...] numa tábua inclinada em certo ângulo com o chão».
Considere que as esferas em análise podem ser representadas pelo seu centro de massa (modelo da partícula material).
8.2.
Qual dos diagramas seguintes pode representar, na mesma escala, as forças que efetivamente atuam numa das esferas, com movimento uniformemente acelerado, durante a descida no plano inclinado?
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Duas ideias decidem este item. A primeira está na palavra «efetivamente»: num diagrama de forças só entram forças reais, e uma força é real quando há um corpo que a exerce — cada força é uma interação com outro corpo. A segunda está em «movimento uniformemente acelerado, durante a descida»: pela Segunda Lei de Newton, FR=ma, a resultante das forças é constante, não nula, e tem o sentido da aceleração; num movimento acelerado a aceleração tem o sentido da velocidade, logo a resultante aponta para baixo, ao longo do plano.
1.º — que forças atuam realmente na esfera
o peso, P, exercido pela Terra — vertical, para baixo;
a reação normal, N, exercida pelo plano — perpendicular ao plano;
a força de atrito, Fa, também exercida pelo plano — paralela ao plano, com sentido oposto ao do movimento: a esfera desce, o atrito aponta para cima, ao longo do plano.
Mais nenhuma. Em particular, não há nenhuma «força do movimento» a empurrar a esfera para baixo ao longo do plano: quem a faz descer é a componente do peso paralela ao plano, e essa já está contida no peso. Desenhá-la como uma seta à parte é contar o peso duas vezes — e nenhum corpo a exerce. Isto elimina (B) e (D), que têm uma seta paralela ao plano a apontar para baixo, além do peso.
2.º — a direção perpendicular ao plano
A esfera não se afasta do plano nem o atravessa: na direção perpendicular, a aceleração é nula e as forças equilibram-se. A normal anula a componente perpendicular do peso:
N=Pcosθ
Com uma inclinação pequena (cerca de 17∘ nos diagramas), cosθ≈0,96: a normal é quase tão comprida como o peso. É o que se vê em (A) e em (C).
3.º — a direção do plano decide entre (A) e (C)
Ao longo do plano, a componente do peso, Psinθ, aponta para baixo; o atrito, Fa, aponta para cima. Para a resultante apontar para baixo (descida acelerada):
FR=Psinθ−Fa=ma>0⟹Fa<Psinθ
Com θ≈17∘, Psinθ≈0,29P. O atrito tem de ser mais curto do que cerca de um terço do peso.
Em (C), o atrito é muito curto (perto de um décimo do peso): Fa<Psinθ, a resultante aponta para baixo ao longo do plano. Descida acelerada. ✔
Em (A), o atrito é comprido (perto de 0,43P): Fa>Psinθ, a resultante apontaria para cima, ao longo do plano, oposta à velocidade — a esfera estaria a descer cada vez mais devagar (movimento uniformemente retardado). ✘
Resposta: opção (C).
a origem de cada opção errada
(A) — tem só forças reais, mas o atrito é maior do que a componente do peso ao longo do plano. Serviria para uma esfera a travar durante a descida, não a acelerar. É o diagrama de quem não compara o atrito com Psinθ, ou de quem pensa que a resultante tem o sentido do atrito por ser «a força que se opõe».
(B) — acrescenta uma força inexistente, paralela ao plano e para baixo, com o comprimento de Psinθ: é a componente do peso desenhada como se fosse uma segunda força. E, mesmo com ela, o atrito é tão grande que as duas componentes ao longo do plano quase se anulariam. Dois erros juntos.
(D) — o atrito está certo (pequeno), mas volta a desenhar a componente do peso como uma força à parte. É o diagrama de quem confunde decompor uma força com acrescentar forças: as componentes ajudam nas contas, mas não são forças novas.
onde se perdem pontos
Item de escolha múltipla e facultativo: dos oito itens facultativos da prova, só contam os quatro com melhor pontuação. Os 10 pontos são tudo ou nada.
Desenhar a componente do peso como uma força. Para cada seta, pergunta «quem exerce esta força?». Se a resposta for «ninguém», a seta não existe.
Esquecer o atrito por causa do item anterior. No 8.1 o enunciado mandava desprezar o atrito no tratamento de dados; aqui pergunta-se pelas forças que efetivamente atuam — e o atrito, mesmo pequeno, atua.
Pensar que a esfera precisa de uma força no sentido do movimento maior do que todas as outras. Precisa de uma resultante nesse sentido: o que se exige é que a componente do peso ao longo do plano seja maior do que o atrito.
Escrever duas respostas. Os critérios gerais dizem que, se aparecer mais do que uma resposta ao mesmo item, só se classifica a que surgir em primeiro lugar. Riscar mal ou acrescentar «ou (…)» não salva nada.
Não indicar a versão da prova. Sem indicação inequívoca da versão, todos os itens de seleção valem zero. Esta chave é a da Versão 1; na Versão 2 as opções estão por outra ordem.
a regra a fixar
Para conferir um diagrama de forças: (1) cada seta tem de ter um agente (Terra, superfície, fio, …) — componentes não se desenham como forças; (2) na direção onde não há movimento, as forças equilibram-se (N=Pcosθ num plano inclinado sem outras forças perpendiculares); (3) na direção do movimento, a resultante tem o sentido da aceleração — igual ao da velocidade se o movimento é acelerado, oposto se é retardado, nula se é uniforme.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
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