O ponto de partida. O gelo, inicialmente a uma temperatura abaixo de 0 ∘C, recebe energia do ambiente, mais quente, como calor. O que essa energia faz depende da fase em que a água está, e o gráfico tem um troço para cada situação. Duas leis governam o item:
- sem mudança de estado, a energia recebida faz subir a temperatura segundo E=mcΔT, onde c é a capacidade térmica mássica — a energia necessária para elevar de 1 K a temperatura de 1 kg do material;
- durante uma mudança de estado de uma substância pura, a temperatura mantém-se constante: a energia recebida é usada para vencer as ligações entre as partículas (passar da estrutura do sólido para a do líquido) e não para aumentar a sua agitação. A energia necessária é E=mΔh, com Δh a variação de entalpia mássica de fusão. Para o gelo, à pressão normal, a fusão dá-se a 0 ∘C.
1.º — o que esperar em cada troço
Considera a energia a chegar à água a um ritmo aproximadamente constante, P=ΔtE (é o que um esboço com troços retos admite). Num troço sem mudança de estado, E=mcΔT dá
PΔt=mcΔθ⟹ΔtΔθ=mcPO declive do gráfico θ(t) — a rapidez com que a temperatura sobe — é inversamente proporcional a c: com a mesma massa e o mesmo ritmo de transferência, quanto menor a capacidade térmica mássica, mais depressa a temperatura sobe.
O gráfico tem então de ter, por esta ordem:
- 1.º troço — aquecimento do gelo, de uma temperatura negativa até 0 ∘C;
- 2.º troço — fusão, a 0 ∘C: um patamar horizontal, porque a temperatura não varia enquanto houver gelo a fundir;
- 3.º troço — aquecimento da água líquida, de 0 ∘C até à temperatura ambiente.
2.º — o patamar elimina duas opções
Os esboços (C) e (D) passam de temperaturas negativas a positivas sem parar em 0 ∘C. Isso diria que o gelo funde enquanto a temperatura sobe, o que contradiz a constância da temperatura durante a mudança de estado. Ficam (A) e (B), que têm o patamar.
3.º — os declives decidem entre (A) e (B)
O enunciado dá a informação decisiva: cgelo<caˊgua lıˊquida. A massa é a mesma nos dois troços (é a mesma água, só mudou de estado), e o ritmo de transferência considera-se o mesmo. Pela relação ΔtΔθ=mcP, o troço do gelo tem de ser mais inclinado do que o troço da água líquida. Para ter uma ideia: com valores típicos, cgelo≈2,1×103 Jkg−1K−1, cerca de metade dos 4,18×103 Jkg−1K−1 da água líquida — o gelo aquece cerca de duas vezes mais depressa.
Em (A), o primeiro troço é íngreme e o terceiro é menos inclinado: está certo. Em (B) é ao contrário.
Resposta: opção (A).
o que o esboço simplifica
Na realidade, à medida que a água se aproxima da temperatura ambiente, a diferença de temperatura diminui e a energia entra cada vez mais devagar: o último troço iria encurvando até ficar horizontal à temperatura ambiente. O esboço desenha troços retos, admitindo um ritmo de transferência constante. Isso não muda a comparação que o item pede — o patamar a 0 ∘C e a relação entre as inclinações do gelo e da água.
a origem de cada opção errada
- (B) — tem o patamar, mas com as inclinações trocadas: o gelo aquece devagar e a água líquida depressa. É o erro de quem associa «maior capacidade térmica mássica» a «aquece mais depressa». É ao contrário: uma capacidade térmica mássica maior quer dizer que é preciso mais energia para a mesma subida de temperatura — logo, com o mesmo ritmo de energia, a subida é mais lenta.
- (C) — inclinações certas (gelo mais íngreme), mas sem patamar: ignora a fusão, como se o gelo passasse a água líquida sem gastar energia nessa transformação.
- (D) — erra as duas coisas: não tem patamar e tem as inclinações trocadas.
onde se perdem pontos
Item de escolha múltipla: é tudo ou nada. Os 10 pontos vêm inteiros ou não vêm, e uma resposta errada não desconta noutro item.
- Não indicar a versão da prova. Sem indicação inequívoca da versão, as respostas a todos os itens de seleção valem zero — as letras certas da Versão 1 e da Versão 2 são diferentes.
- Escrever duas letras. Se aparecer mais do que uma resposta ao mesmo item, só se classifica a que surgir em primeiro lugar.
É um dos itens opcionais: conta para a nota se estiver entre os quatro melhores dos oito.
- Olhar só para as inclinações e escolher (C), esquecendo a mudança de estado.
- Ler a capacidade térmica mássica ao contrário. Ela mede a «resistência» de um material a aquecer: quanto maior, mais devagar aquece com a mesma energia por unidade de tempo.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Num gráfico de aquecimento (ou de arrefecimento) de uma substância pura: mudança de estado = patamar horizontal à temperatura de fusão ou de ebulição; fora das mudanças de estado, a inclinação é proporcional a mc1 — com a mesma massa e o mesmo ritmo de energia, a fase com menor capacidade térmica mássica tem o troço mais inclinado.