Exame de Física e Química A 2025 · 1.ª fase — item 2.2, resolvido
Cotação 12 pontosResposta abertaVerificado
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 715 · 2025 · 1.ª fase
Texto do item 2
2.
Outro módulo interativo, existente no museu de ciência, proporciona a um utilizador uma experiência de queda livre. A Figura 2, que não se encontra à escala, apresenta um esquema desse módulo.
A experiência começa quando o utilizador larga o cabo na posição A, a 8,0m do solo, com velocidade inicial nula, caindo até à posição B sem contacto com a rampa.
Ao passar na posição B, o utilizador inicia o contacto com a rampa, com atrito significativo.
Entre as posições C e D, o utilizador percorre 4,0m, com aceleração constante de módulo 2g, parando na posição D.
Figura 2
Considere o solo como nível de referência da energia potencial gravítica.
Admita que o utilizador pode ser representado pelo seu centro de massa (modelo da partícula material) e que, entre as posições A e B, o utilizador está em queda livre.
2.2.
Determine a percentagem de energia mecânica do utilizador, de massa m, dissipada entre as posições B e C.
Apresente todos os cálculos efetuados.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Entre A e B só atua o peso, uma força conservativa, pelo que a energia mecânica se conserva:
Em,B=Em,A=Ec,A+Epg,A=0+mghA=m×g×8,0=8,0mg
Entre C e D, a resultante das forças tem módulo FR=m2g e sentido oposto ao do movimento. Pelo Teorema da Energia Cinética:
WFR=ΔEc⟹−m2g×4,0=0−Ec,C⟹Ec,C=2,0mg
Como C está no solo, Epg,C=0 e Em,C=Ec,C=2,0mg.
Em,BEm,B−Em,C×100%=8,0mg8,0mg−2,0mg×100%=75%
A percentagem de energia mecânica do utilizador dissipada entre as posições B e C é 75%.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. «Percentagem de energia mecânica dissipada entre B e C» é uma fração: a energia mecânica que se perdeu, comparada com a que havia no início desse troço.
percentagem dissipada=Em,BEm,B−Em,C×100%
Precisas, portanto, de duas energias mecânicas: em B e em C. O problema é que o enunciado não te dá nada diretamente sobre esses dois pontos — não sabes a altura de B, nem a velocidade em B, nem a velocidade em C. O que sabes é o que acontece antes de B (troço A → B) e depois de C (troço C → D). A estratégia é esta: chegar a B a partir de A, e chegar a C a partir de D.
Repara também que não conheces a massa m nem precisas de substituir g: as duas energias vão sair em função de mg, e o mg cancela na fração. É por isso que os critérios apresentam os valores intermédios como 8,0mg e 2,0mg.
1.º — a energia mecânica em B, pela conservação desde A
Entre A e B o utilizador está em queda livre: só atua o peso, que é uma força conservativa. Quando só forças conservativas realizam trabalho, a energia mecânica conserva-se. Logo, a energia mecânica em B é igual à energia mecânica em A:
Em,B=Em,A
E em A conheces tudo: a velocidade é nula (o utilizador larga o cabo com velocidade inicial nula), portanto Ec,A=0; e a altura em relação ao solo — que é o nível de referência — é hA=8,0m.
Escreve a justificação da conservação. É ela que te autoriza a usar a altura de A para calcular uma energia em B. Sem ela, o cálculo parece uma troca de pontos sem motivo.
(Não tentes calcular Epg,B e Ec,B separadamente: a altura de B não é dada, e a Figura 2 não está à escala. Só a soma das duas é conhecida — e é exatamente a soma que te interessa.)
2.º — a energia cinética em C, a partir da travagem até D
Entre C e D o utilizador desliza no solo e trava: percorre 4,0m com aceleração constante de módulo 2g e para em D. Tens uma distância, uma aceleração e a velocidade final — é o caso típico do Teorema da Energia Cinética: o trabalho da resultante das forças é igual à variação da energia cinética.
Pela Segunda Lei de Newton, a resultante tem módulo
FR=ma=m2g
e, como o utilizador está a travar, aponta no sentido oposto ao do movimento. Por isso o seu trabalho é negativo (cos180∘=−1):
WFR=FRdcos180∘=−m2g×4,0=−2,0mg
Em D o utilizador está parado, Ec,D=0. Aplicando o teorema entre C e D:
WFR=Ec,D−Ec,C⟹−2,0mg=0−Ec,C⟹Ec,C=2,0mg
pela cinemática, em vez do Teorema da Energia Cinética
Também podes obter a velocidade em C pelas equações do movimento retilíneo uniformemente retardado e depois calcular a energia cinética. Com a origem em C, o sentido positivo o do movimento e a=−2g:
v=vC−2gtx=vCt−212gt2
Em D, v=0, logo tD=g2vC. Substituindo em x=4,0:
O resultado é o mesmo. O Teorema da Energia Cinética é mais curto porque liga diretamente distância e energia, sem passar pelo tempo; a cinemática é a escolha natural se te sentires mais seguro com as equações do movimento.
3.º — a energia mecânica em C
O ponto C está no solo, que é o nível de referência: hC=0 e Epg,C=0. Toda a energia mecânica em C é cinética:
Em,C=Ec,C+Epg,C=2,0mg+0=2,0mg
4.º — a percentagem dissipada
Entre B e C a rampa tem atrito significativo: é aí que a energia mecânica se dissipa. A energia dissipada é a diminuição da energia mecânica:
Em,B−Em,C=8,0mg−2,0mg=6,0mg
Em percentagem da energia mecânica que havia em B:
8,0mg6,0mg×100%=0,75×100%=75%
O mg cancela, como previsto. A percentagem de energia mecânica dissipada entre B e C é 75%.
o resultado faz sentido?
Em A o utilizador tem 8,0mg de energia mecânica, em C tem 2,0mg e em D tem 0. A energia mecânica só diminui, nunca aumenta — coerente com a presença de atrito depois de B. E a percentagem tem de estar entre 0% e 100%: 75% está. Se te tivesse saído 25%, terias calculado a fração que resta, não a que se dissipa.
como escrever a resposta
Termina com a percentagem e o símbolo %, e uma frase que diga o que ela é. Escrever só 0,75 é dar uma fração quando o enunciado pede uma percentagem.
onde se perdem pontos
O item é classificado por etapas: 4+4+4 pontos. A ordem das duas primeiras é arbitrária (a nota dos critérios diz isso mesmo) — podes começar por C ou por B.
Apresentar só o resultado final. «75%» sozinho vale zero pontos — é a situação 1 dos critérios gerais. O enunciado pede «Apresente todos os cálculos efetuados».
Inventar uma massa ou uma altura para B. Dar ao utilizador 70kg, ou medir a altura de B na figura (que não está à escala), é usar valores numéricos não fornecidos: as etapas em que forem usados valem zero. Trabalha com m e mg — cancelam no fim.
Tentar calcular Epg,B. Sem a altura de B, não há como. A energia mecânica em B só se obtém pela conservação desde A — e é essa ideia que a primeira etapa pontua.
Aplicar a conservação da energia mecânica depois de B. Entre B e C há atrito significativo: a energia mecânica não se conserva, e é exatamente essa perda que o item pede. Igualar Em,B a Em,C daria 0%.
Esquecer o sinal do trabalho na travagem. Se escreveres W=+m2g×4,0, o Teorema da Energia Cinética dá Ec,C=−2,0mg, um valor negativo que carece de significado físico — e a etapa vale zero.
Calcular a fração que resta.8,0mg2,0mg=25% é a percentagem de energia mecânica que sobra em C, não a dissipada.
Dividir pela energia errada. A percentagem é relativa à energia em B (o início do troço). Dividir por Em,C daria 300% — o que devia fazer soar o alarme.
Erros de cálculo e de unidades. Pelos critérios gerais, erros de cálculo numérico (tipo 1) descontam 1 ponto no total; um erro de tipo 2 — por exemplo, um erro de cálculo analítico ou a ausência do % no resultado final — desconta 2 pontos, e mais do que um desconta 4.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Quando te pedem a energia dissipada entre dois pontos de que não sabes quase nada, procura os troços vizinhos onde sabes tudo. Num troço sem forças dissipativas, usa a conservação da energia mecânica para transportar a energia até ao ponto que te interessa. Num troço com uma aceleração (ou uma força) conhecida e uma distância, usa o Teorema da Energia Cinética. E se a massa não é dada, não a inventes: deixa-a como m — o problema foi feito para ela cancelar.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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