Exame de Matemática A 2025 · 1.ª fase — item 15, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 635 · 2025 · 1.ª fase
Sejam a, b e c números reais não nulos, e seja f a função, de domínio R, definida por
f(x)=ax3+bx+cSeja r uma reta que intersecta o gráfico da função f no ponto de abcissa zero.
Mostre que, se a reta r intersectar o gráfico da função f noutros dois pontos distintos, então esses pontos têm abcissas simétricas.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
A reta r passa no ponto do gráfico de abcissa zero, (0,f(0))=(0,c), e, como interseta o gráfico em mais do que um ponto, não é vertical. Assim, uma equação de r é da forma y=mx+c, com m∈R.
As abcissas dos pontos de interseção de r com o gráfico de f são as soluções da equação f(x)=mx+c. Como a=0,
ax3+bx+c=mx+c⇔x(ax2+b−m)=0⇔x=0 ∨ x2=am−bSe r intersetar o gráfico de f noutros dois pontos distintos, a equação x2=am−b tem duas soluções distintas, que são x=−am−b e x=am−b.
Logo, as abcissas desses dois pontos são simétricas.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Isto é uma demonstração, e uma demonstração tem uma forma fixa: parte-se da hipótese (o que se admite) e chega-se à tese (o que se quer provar), só com passos justificados. Um exemplo concreto não serve — tem de valer para todos os a, b, c não nulos.
Escreve a hipótese e a tese antes de começar:
- Hipótese: a,b,c∈R∖{0}, f(x)=ax3+bx+c, e a recta r intersecta o gráfico de f no ponto de abcissa 0 e ainda em dois outros pontos distintos.
- Tese: as abcissas desses dois outros pontos são simétricas (isto é, uma é o negativo da outra).
Uma observação que vale a pena escrever logo: a recta r não é vertical. Uma recta vertical, de equação x=k, intersecta o gráfico de uma função em um ponto no máximo (a cada objecto corresponde uma só imagem); como r intersecta o gráfico em três pontos, r tem declive e pode escrever-se na forma y=mx+b′. É isto que autoriza os dois processos que se seguem.
E um valor que ambos os processos usam:
f(0)=a×03+b×0+c=cou seja, o ponto de abcissa zero é A=(0,c).
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pelos declives (a colinearidade)
A ideia: três pontos estão na mesma recta se e só se o declive entre o primeiro e o segundo for igual ao declive entre o primeiro e o terceiro. É a tradução algébrica de "estar alinhado".
Designa por A o ponto do gráfico de f de abcissa nula, e por B e C os outros dois pontos de intersecção, de abcissas xB e xC, não nulas (são pontos diferentes de A) e diferentes entre si (são dois pontos distintos).
1.º — traduzir o alinhamento
Se A, B e C pertencem todos à recta r, então as rectas AB e AC são a mesma recta e, em particular, têm o mesmo declive. Recordando que o declive da recta que passa por (x1,y1) e (x2,y2) é x2−x1y2−y1:
xB−0f(xB)−f(0)=xC−0f(xC)−f(0)2.º — substituir e simplificar
Como f(0)=c e xB−0=xB:
xBaxB3+bxB+c−c=xCaxC3+bxC+c−cO c cancela em ambos os numeradores — e é este cancelamento que faz o exercício funcionar: a ordenada na origem desaparece, sobrando só a parte ímpar da função.
xBaxB3+bxB=xCaxC3+bxCPõe x em evidência em cada numerador:
xBxB(axB2+b)=xCxC(axC2+b)Agora simplifica-se — e diz-se porquê: xB=0 e xC=0 (são as abcissas de pontos distintos de A, cuja abcissa é 0), logo pode dividir-se numerador e denominador por eles:
axB2+b=axC2+b3.º — isolar a conclusão
axB2=axC2⟺axB2−axC2=0⟺a(xB2−xC2)=0Como, por hipótese, a=0, um produto só é nulo se o outro factor for nulo:
xB2−xC2=0⟺xB2=xC2⟺xB=xC ∨ xB=−xC4.º — fechar (a etapa que muita gente não escreve)
A equação deu duas hipóteses; falta eliminar uma. Como B e C são pontos distintos do gráfico de uma função, têm abcissas diferentes: xB=xC. Fica apenas
xB=−xCou seja, as abcissas de B e C são simétricas, como se queria mostrar. ■
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pela equação da recta (resolver a intersecção)
A ideia: escrever a equação de r, igualar a f, e resolver. Em vez de deduzir uma relação entre as abcissas, calculam-se as próprias abcissas.
5.º — a equação da recta r
Como r não é vertical, tem uma equação da forma y=mx+k, em que m é o declive e k a ordenada na origem. Mas r passa no ponto do gráfico de f de abcissa zero, que é (0,c); substituindo, c=m×0+k, ou seja, k=c. Logo
r: y=mx+c(Repara que se usou a letra m para o declive: não se pode reutilizar b, que já está ocupado pelo coeficiente de f.)
6.º — as abcissas dos pontos de intersecção
Um ponto pertence ao gráfico de f e à recta r exactamente quando a sua abcissa satisfaz a igualdade das duas ordenadas. Portanto, as abcissas dos pontos de intersecção são as soluções da equação
f(x)=mx+c7.º — resolver
ax3+bx+c=mx+cOs c cancelam-se (e é isso que garante que x=0 é sempre solução — como tinha de ser, porque a recta foi construída a passar nesse ponto):
ax3+bx−mx=0⟺ax3+(b−m)x=0⟺x(ax2+b−m)=0Lei do anulamento do produto:
x=0 ∨ ax2+b−m=0⟺x=0 ∨ x2=am−b(A divisão por a é legítima porque a=0, por hipótese.)
8.º — usar a hipótese "noutros dois pontos distintos"
A solução x=0 corresponde ao ponto que já conhecíamos. Os "outros dois pontos distintos" têm de vir da segunda condição, logo a equação x2=am−b tem de ter duas soluções distintas — e uma equação da forma x2=k só tem duas soluções quando k>0. Portanto am−b>0 e
x=−am−b ∨ x=am−b9.º — concluir
As abcissas dos outros dois pontos de intersecção são −am−b e am−b: são números simétricos, como se queria mostrar. ■
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Qual dos dois processos usar
O 1.º processo é o caminho de quem pensa geometricamente: não precisas de escrever a equação de r nem de introduzir o declive m, e a ideia "alinhados ⇒ mesmo declive" reaproveita-se em dezenas de exercícios de geometria analítica. É ligeiramente mais rápido, mas exige cuidado com a divisão por xB e xC.
O 2.º processo é o caminho de quem pensa algebricamente, e dá mais informação: além de provar a simetria, calcula as abcissas e revela a condição de existência am−b>0 — ou seja, diz-te quando é que tais rectas existem. Se te sentires mais seguro a factorizar do que a manipular quocientes, é este o teu.
Se tiveres tempo, apresenta um e verifica com o outro; na prova, escolhe um e escreve-o até ao fim.
onde se perdem pontos
- Começar num processo e acabar no outro. É a perda mais cara deste item e a mais fácil de cometer: escreves a igualdade dos declives, atrapalhas-te no cancelamento e passas a resolver f(x)=mx+c. As duas listas de etapas são grelhas separadas — o classificador escolhe uma e pontua por ela, sem somar o que fizeste na outra. Decide o caminho antes da primeira linha e vai com ele até ao fim.
- Confirmar com um exemplo. Escolher a=b=c=1, traçar uma recta e ver que as abcissas saem simétricas não é demonstração nenhuma: o item pede que se mostre para todos os a, b e c não nulos. Vale 0 pontos, por muito bem feito que esteja.
- Parar em xB2=xC2 (ou nas duas raízes) sem fechar. «Concluir o pretendido» é uma etapa própria, 1 ponto, nos dois processos — e no 1.º processo há ainda os 2 pontos de escrever xB=xC ∨ xB=−xC e eliminar a primeira hipótese. Um «logo são simétricas» explícito é o que transforma contas em demonstração.
- Usar as hipóteses sem as invocar. xB=0, xC=0 e a=0 não são detalhes de estilo: são o que autoriza a simplificação dos quocientes e a divisão por a. O enunciado diz «números reais não nulos» de propósito; num item de mostrar, um passo sem a sua condição é um passo que o corrector pode não dar por cumprido.
- No 2.º processo, escrever f(x)=mx+c sem dizer o que é. A frase «as abcissas dos pontos de intersecção são as soluções desta equação» vale 3 pontos — é a etapa mais cara desse processo. Quem iguala as duas expressões como se fosse evidente faz a conta certa e perde a justificação.
- Não dizer porque é que am−b>0. Sem essa leitura, x2=am−b podia ter uma solução ou nenhuma, e não haveria «outros dois pontos» para falar. É aqui que a hipótese do enunciado entra, e são 2 pontos.
A ideia de fundo (para reconhecer o próximo exercício deste tipo)
A função g(x)=ax3+bx é ímpar: g(−x)=−g(x). O gráfico de f(x)=ax3+bx+c é o de g deslocado c unidades na vertical, logo é simétrico relativamente ao ponto (0,c) — que é exactamente o ponto A. Uma recta que passa por um centro de simetria corta a figura em pontos que se correspondem dois a dois por essa simetria; e a simetria central em (0,c) troca a abcissa x por −x. É por isso que o resultado tinha de ser verdade antes de qualquer conta.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
Como te correu?