O ponto de partida. O enunciado nomeia o teorema que queres usar — Bolzano-Cauchy. Isso muda a natureza do item: não há nada a descobrir, há hipóteses a verificar uma a uma, por escrito. A pontuação está espalhada por essas verificações, não pelo resultado.
O corolário do teorema de Bolzano-Cauchy (o teorema do valor intermédio, na versão que interessa aqui) diz: se uma função g é contínua no intervalo fechado [a,b] e g(a) e g(b) têm sinais contrários, então existe pelo menos um c∈]a,b[ tal que g(c)=0.
Três palavras desse enunciado são as três etapas a cumprir: contínua, fechado, sinais contrários.
1.º — equacionar o problema
"O gráfico da função f intersecta a recta de equação y=3x+4 num ponto de abcissa em ]0,1[" significa, em símbolos, que existe x∈]0,1[ tal que a ordenada do gráfico e a ordenada da recta coincidem:
f(x)=3x+4Esta tradução vale 2 pontos por si. Escreve-a antes de mais nada.
2.º — a função auxiliar (o passo que o teorema obriga)
Bolzano-Cauchy fala de uma função e dos seus valores nos extremos de um intervalo. Não fala de duas funções nem de intersecções. Por isso não podes aplicá-lo directamente a f e à recta: tens de transformar a igualdade numa procura de zero.
A técnica é sempre a mesma — passar tudo para o mesmo membro e dar um nome ao que sobra:
f(x)=3x+4⟺f(x)−3x−4=0Define então a função g, de domínio R, por
g(x)=f(x)−3x−4=3ex−2e−x−3x−4Com esta definição, provar que os gráficos se intersectam num ponto de abcissa em ]0,1[ é exactamente o mesmo que provar que g tem um zero em ]0,1[. É esse zero que o teorema vai entregar.
3.º — a continuidade, e no intervalo fechado
g é uma soma algébrica de funções contínuas em R: as exponenciais ex e e−x são contínuas em R, e −3x−4 é uma função polinomial, também contínua em R. A soma, a diferença e o produto por constantes de funções contínuas são funções contínuas.
Logo g é contínua em R e, em particular, contínua em [0,1].
⚠️ Escreve o intervalo fechado, com parênteses rectos para dentro: [0,1]. Se escreveres "contínua em ]0,1[", essa etapa vale 0 pontos, mesmo com tudo o resto perfeito — porque sem os extremos 0 e 1 não podes falar de g(0) nem de g(1), e é deles que o teorema vive. (Escrever apenas "g é contínua", sem especificar onde, é aceite pelo critério; escrever o intervalo aberto não é.)
4.º — os valores nos extremos
g(0)=3e0−2e−0−3×0−4=3−2−0−4=−3g(1)=3e1−2e−1−3×1−4=3e−e2−7Repara que e−1=e1, e por isso 2e−1=e2.
5.º — mostrar que g(1) é positivo (e podes fazê-lo sem calculadora)
Não chega escrever g(1)=3e−e2−7: tens de saber que sinal tem esse número. Como e≈2,718:
g(1)≈3×2,718−2,7182−7≈8,155−0,736−7≈0,42>0Se quiseres um argumento que não dependa da calculadora, faz o enquadramento com e>2,7:
- de e>2,7 vem 3e>8,1;
- de e>2,7 vem também e2<2,72<0,75 (dividir por um número maior dá um resultado menor);
- logo g(1)>8,1−0,75−7=0,35>0.
6.º — a desigualdade, escrita
g(0)=−3<0<g(1)Esta linha é uma etapa autónoma, cotada com 2 pontos. Ter os dois valores calculados mas não dizer explicitamente que um é negativo e o outro positivo deixa esses pontos por ganhar — e, pelo critério, arrasta consigo os 2 pontos da conclusão.
7.º — concluir, citando o teorema
A função g é contínua em [0,1] e 0 está compreendido entre g(0) e g(1). Pelo corolário do teorema de Bolzano-Cauchy, existe pelo menos um c∈]0,1[ tal que
g(c)=0⟺f(c)−3c−4=0⟺f(c)=3c+4Ou seja: o ponto de abcissa c pertence simultaneamente ao gráfico de f e à recta de equação y=3x+4.
Fica assim provado que o gráfico da função f intersecta a recta de equação y=3x+4 em, pelo menos, um ponto de abcissa pertencente ao intervalo ]0,1[. ■
onde se perdem pontos
- Escrever "g é contínua em ]0,1[". É o erro mais caro da prova por unidade de tinta. A nota 2 do critério manda pontuar essa etapa com 0 pontos, e a nota 3 acrescenta que zero nessa etapa obriga a zero na conclusão: dois parênteses virados ao contrário custam 4 dos 14. E há uma ironia a aproveitar — pela nota 1, escrever apenas "g é contínua", sem dizer onde, cumpre a etapa. Na dúvida, menos é mais seguro do que errado.
- Comparar f com a recta "à vista", sem definir g. A função auxiliar é uma etapa própria de 2 pontos, e sem ela não há zero para o teorema entregar: as etapas de g(0), g(1) e da desigualdade deixam de ter objecto e caem atrás dela.
- Começar por g(x)=f(x)−3x−4 sem escrever antes f(x)=3x+4. Parece redundante e não é: equacionar o problema é a primeira etapa, vale 2 pontos, e é a única linha que liga a palavra "intersecta" do enunciado a tudo o que vem depois.
- Deixar g(1)=3e−e2−7 e não escrever g(0)<0<g(1). A desigualdade é etapa autónoma (2 pontos) e não se deduz de ter os dois valores calculados — uma expressão não é um sinal. É o passo que a maior parte das resoluções salta por lhe parecer óbvio.
- Concluir sem nomear o teorema. A última etapa chama-se concluir o pretendido, e o enunciado pediu explicitamente "recorrendo ao teorema de Bolzano-Cauchy". Terminar em "logo existe c" deixa a existência sem origem, e são mais 2 pontos.
- Afirmar que existe *exactamente* um ponto. O teorema dá pelo menos um; a unicidade exigiria estudar a monotonia de g, que ninguém pediu. Repara em como este item reparte a cotação: sete etapas, 2 pontos cada, e só 4 deles são conta (g(0) e g(1)). Os outros 10 pagam-se a escrever o que se está a fazer — o que parece burocracia é, aqui, quase toda a nota.
A regra a fixar
Sempre que um enunciado disser "mostre, recorrendo ao teorema de Bolzano-Cauchy, que ... intersecta ..." ou "... tem pelo menos uma solução em ]a,b[", o guião é sempre o mesmo, por esta ordem: (1) equaciona; (2) define g= lado esquerdo − lado direito; (3) justifica a continuidade de g em [a,b] fechado; (4) calcula g(a) e g(b); (5) escreve a desigualdade de sinais; (6) conclui citando o teorema pelo nome. Seis linhas, seis etapas, catorze pontos.