Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. \"Equidistante\" é uma palavra de distâncias, e no plano complexo a distância entre os afixos de dois números é o módulo da diferença:
d(z,z′)=∣z−z′∣
Por isso a condição do enunciado traduz-se numa única equação:
∣w−z1∣=∣w−z2∣
E o plano de ataque sai daí: pôr z1, z2 e wtodos na forma algébrica — só nessa forma se calculam módulos pelo Teorema de Pitágoras —, escrever aquela equação e resolvê-la em ordem a k.
1.º — simplificar z1
z1=2i19
As potências de i repetem-se de quatro em quatro: i1=i, i2=−1, i3=−i, i4=1, e volta ao princípio. Logo só interessa o resto da divisão do expoente por 4:
19=4×4+3⇒i19=i3=−iz1=2×(−i)=−2i
O afixo de z1 é o ponto (0,−2).
2.º — simplificar z2
z2=1+i−3+i
Um número complexo não se deixa escrito em fração. O obstáculo é o i no denominador, e a técnica que o elimina é multiplicar o numerador e o denominador pelo conjugado do denominador — porque (a+bi)(a−bi)=a2+b2 dá sempre um número real.
z2=(1+i)(1−i)(−3+i)(1−i)
Denominador, pela diferença de quadrados:
(1+i)(1−i)=12−i2=1−(−1)=2
Numerador, aplicando a propriedade distributiva e usando i2=−1:
Para passar da forma exponencial à algébrica usa-se a fórmula de Euler, eiθ=cosθ+isenθ. Com θ=43π, que é um ângulo do 2.º quadrante (cosseno negativo, seno positivo):
ei43π=cos43π+isen43π=−22+22i
Multiplica agora pelo factor −2k, distribuindo pelas duas parcelas:
w=−2k(−22+22i)=22×2k−22×2ki
Como 2×2=2, cada coeficiente é 22=1:
w=k−ki
O afixo de w é o ponto (k,−k). Esta etapa vale 3 pontos e é a que transforma um enunciado com exponenciais num problema de geometria elementar.
⚠️ Atenção: k é um número real qualquer, e pode ser negativo. Não presumas nada sobre o quadrante onde está o afixo de w — trata k como incógnita e segue em frente.
4.º — impor a equidistância
∣w−z1∣=∣w−z2∣
Calcula cada diferença em separado, juntando parte real com parte real e parte imaginária com parte imaginária:
O módulo de a+bi é a2+b2 (é o Teorema de Pitágoras aplicado ao afixo), logo a condição fica:
k2+(2−k)2=(k+1)2+(−k−2)2
5.º — resolver em ordem a k
Dois números não negativos são iguais se, e só se, os seus quadrados forem iguais. Como os módulos nunca são negativos, podes elevar ao quadrado os dois membros sem risco de introduzir soluções falsas — e assim as raízes desaparecem:
k2+(2−k)2=(k+1)2+(−k−2)2
Desenvolve cada quadrado com cuidado. Nota que (−k−2)2=(k+2)2, porque elevar ao quadrado apaga o sinal:
k2+k2−4k+4=k2+2k+1+k2+4k+42k2−4k+4=2k2+6k+5
Os termos em k2 cancelam-se nos dois membros — e isso não é sorte: a condição de equidistância entre dois pontos define uma mediatriz, que é uma reta, logo a equação tem de acabar do 1.º grau.
−4k+4=6k+5⟺−4k−6k=5−4⟺−10k=1⟺k=−101
Resposta: k=−101.
Verificação (vale os trinta segundos)
Com k=−101, o afixo de w é o ponto (−101,101). Compara os quadrados das distâncias:
São iguais: o afixo de w está mesmo à mesma distância dos afixos de z1 e de z2.
onde se perdem pontos
Calcular mal i19. Divide o expoente por 4 e usa o resto: resto 0→1, resto 1→i, resto 2→−1, resto 3→−i. Aqui o resto é 3, logo i19=−i e z1=−2i. É uma etapa de 1 ponto, mas um engano aqui muda o afixo (0,−2) e arrasta as duas etapas de 3 pontos que vêm a seguir.
Multiplicar pelo conjugado só no numerador. Escrever a fração (1+i)(1−i)(−3+i)(1−i) é uma etapa pontuada por si. Multiplicar por 1−i1−i é multiplicar por 1 e não altera o número; mexer só em cima altera-o, e o z2=−1+2i (que vale 2 pontos) deixa de sair.
Tratar −2k como se fosse um módulo. Um módulo nunca é negativo, e k é um real qualquer — pode ser negativo. Ou distribuis o factor −2k pela forma algébrica de ei43π, ou passas o sinal para o argumento, −2kei43π=2kei47π — os critérios aceitam os dois caminhos. O que não podes é deitar fora o menos: são 3 pontos, e sem ele sai −k+ki em vez de k−ki.
Escrever a distância como ∣w∣−∣z1∣. A distância entre afixos é o módulo da diferença, não a diferença dos módulos — a segunda até pode dar negativa, o que já mostra que não é distância. A igualdade ∣w−z1∣=∣w−z2∣ vale 3 pontos, e é a etapa que traduz a palavra «equidistante».
Errar o sinal na subtracção. Em w−z1=(k−ki)−(−2i), subtrair −2i é somar2i, logo w−z1=k+(2−k)i. É o erro de distração mais caro do item: a equação k2+(2−k)2=(k+1)2+(−k−2)2 vale outros 3 pontos, e sem ela a última também cai.
Parar em −10k=1. A etapa final é o valor de k, e é sobre isso que vai 1 ponto. Escreve-o, e como fração irredutível: o item é sem calculadora, e −0,1 não é o que os critérios procuram.
O que este item é, por trás
O conjunto dos pontos equidistantes de dois pontos fixos é a mediatriz do segmento que os une. Sem lhe dares o nome, o que fizeste foi intersectar a mediatriz de [z1z2] com a reta y=−x — que é onde vivem todos os afixos possíveis de w, já que o afixo é (k,−k). Uma reta e uma mediatriz não paralelas cruzam-se num único ponto: por isso a resposta é um só valor de k.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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