Exame de Matemática A 2025 · 1.ª fase — item 7, resolvido
Cotação 14 pontosResposta abertaVerificado
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 635 · 2025 · 1.ª fase
7.
Na Figura 1, estão representados, em referencial o.n. Oxy, a circunferência de centro C, definida pela equação (x+1)2+(y−1)2=4, o triângulo [ABC] e o ângulo BAC, de amplitude α, em radianos, com α∈]0,2π[.
Figura 1
Sabe-se que:
os pontos A e B pertencem à circunferência;
AB⋅AC=6.
Determine, sem recorrer à calculadora, o valor exato do comprimento do arco AB.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
A circunferência tem centro C(−1,1) e raio 2, logo CA=CB=2 e o triângulo [ABC] é isósceles.
Seja M o ponto médio de [AB]. Como o triângulo é isósceles, [CM] é perpendicular a [AB] e, no triângulo retângulo [AMC], cosα=2AM. Logo, AM=2cosα e AB=4cosα.
AB⋅AC=AB×AC×cosα=4cosα×2×cosα=8cos2α
8cos2α=6⇔cos2α=43 e, como α∈]0,2π[, cosα=23, ou seja, α=6π.
A amplitude do ângulo ACB é π−2×6π=32π.
O comprimento do arco AB é 2×32π=34π.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. Há três ferramentas em jogo, e convém nomeá-las antes de tocar nas contas:
a definição de produto escalar através do ângulo: u⋅v=∥u∥×∥v∥×cosθ, sendo θ o ângulo formado pelos dois vetores;
a leitura da equação reduzida da circunferência: em (x−a)2+(y−b)2=r2, o centro é (a,b) e o raio é r;
o comprimento de um arco: ℓ=r×θ, com θ o ângulo ao centro medido em radianos.
Repara no desenho do problema: o que te é dado é um produto escalar; o que te é pedido é um arco. A ponte entre os dois é o ângulo ao centroAC^B — é para aí que tens de caminhar.
1.º — o raio da circunferência
(x+1)2+(y−1)2=4
Escrita na forma-padrão, isto é (x−(−1))2+(y−1)2=22. O centro é C(−1,1) e, sobretudo, o raio é 2 — é 4, e não 4, porque o segundo membro representa r2.
É 1 ponto, ganho na primeira linha da resolução.
2.º — o triângulo é isósceles
Os pontos A e B pertencem à circunferência e C é o centro, logo [CA] e [CB] são raios da mesma circunferência:
CA=CB=2
Ou seja, [ABC] é isósceles, com os dois lados iguais a partirem de C. Daqui vem tudo o resto, porque num triângulo isósceles a altura relativa à base é também mediana: a perpendicular tirada de C para [AB] cai exactamente no ponto médio de [AB].
Esta justificação é uma etapa pontuada — escreve a razão, não te limites a afirmar que é isósceles.
3.º — escrever o produto escalar em função de α
O ângulo α é o ângulo do triângulo com vértice em A, entre os lados [AB] e [AC]. É exactamente o ângulo entre os vetores AB e AC, porque ambos partem de A (se um deles apontasse para A, o ângulo seria o suplementar e o sinal do produto escalar mudava). Por definição:
AB⋅AC=∥AB∥×∥AC∥×cosα
Já sabes que ∥AC∥=2. Falta ∥AB∥ — e é aí que o isósceles entra ao serviço.
4.º — o comprimento de [AB] em função de α
Designa por M o ponto médio de [AB]. Pelo que se disse no passo 2, [CM] é perpendicular a [AB], portanto o triângulo [ACM] é retângulo em M.
Nesse triângulo retângulo, visto a partir do vértice A: a hipotenusa é [AC], que mede 2, e o cateto adjacente a α é [AM]. Pela definição de cosseno num triângulo retângulo (cateto adjacente a dividir pela hipotenusa):
cosα=ACAM=2AM⟺AM=2cosα
E como M é o ponto médio de [AB], tem-se AB=2×AM:
AB=2×2cosα=4cosα
5.º — juntar tudo e resolver em α
AB⋅AC=4cosα×2×cosα=8cos2α
O enunciado diz que este produto escalar vale 6, o que dá uma equação:
8cos2α=6⟺cos2α=86=43⟺cosα=±23
Aqui não podes ficar com os dois sinais. O enunciado diz α∈]0,2π[, e no 1.º quadrante o cosseno é positivo. A solução negativa rejeita-se, e essa rejeição tem de ficar escrita:
cosα=23⇒α=6π
(6π é um dos valores da tabela dos ângulos notáveis, que tens de saber de cor: o item é sem calculadora.)
6.º — do ângulo em A para o ângulo ao centro
A soma dos ângulos internos de um triângulo é π. Como [ABC] é isósceles com CA=CB, os ângulos da base — os de vértices A e B — são iguais, ambos 6π:
AC^B=π−6π−6π=π−3π=32π
7.º — o comprimento do arco
AC^B tem o vértice no centro da circunferência, logo é um ângulo ao centro e a amplitude do arco AB é a dele. Com raio 2:
ℓAB=r×AC^B=2×32π=34π
Resposta: o arco AB tem comprimento 34π. É o valor exato que o enunciado pede — deixa-o assim, não o substituas por 4,19.
ir directo ao ângulo ao centro
Os critérios aceitam um caminho alternativo, que dispensa o ângulo α, o ponto médio e a trigonometria do triângulo retângulo. Resolve-se tudo com álgebra de vetores, e vale a pena conhecê-lo.
A ideia é escrever AB como um caminho que passa pelo centro (relação de Chasles):
AB=AC+CB
Substituindo no produto escalar e usando a distributividade:
AB⋅AC=(AC+CB)⋅AC=AC⋅AC+CB⋅AC
A primeira parcela é imediata, porque o produto escalar de um vetor por si próprio é o quadrado da sua norma:
AC⋅AC=∥AC∥2=22=4
A segunda parcela esconde uma armadilha de sinal. O ângulo AC^B é o ângulo entre CA e CB — os dois a partir de C — e não entre AC e CB. Como AC=−CA, tem de aparecer um sinal menos:
CB⋅AC=−CB⋅CA=−∥CB∥×∥CA∥×cos(AC^B)=−4cos(AC^B)
Juntando as duas parcelas e igualando a 6:
4−4cos(AC^B)=6⟺−4cos(AC^B)=2⟺cos(AC^B)=−21
Um cosseno negativo diz-te logo que o ângulo ao centro é obtuso. Sendo um ângulo interno de um triângulo, está em ]0,π[, e nesse intervalo há um só ângulo com cosseno −21:
AC^B=32π
Daí em diante é igual ao 1.º processo: ℓAB=2×32π=34π.
Quando vale a pena cada um. O 1.º processo é o caminho natural quando o enunciado insiste no ângulo α e a figura já traz o triângulo marcado — e é o que te obriga a olhar para o isósceles, que muitas vezes é reaproveitado noutra alínea. O 2.º é preferível sempre que o que se pede depende do ângulo ao centro: evita a construção auxiliar do ponto médio e transforma o item numa conta de três linhas.
onde se perdem pontos
Ler o raio como 4 . Em (x+1)2+(y−1)2=4 , o 4 é r2 . Além do ponto da própria etapa, o erro entra em todas as contas seguintes — ∥AC∥ , o produto escalar e o comprimento do arco — e não sobra praticamente nada dos 14 pontos.
Afirmar que [ABC] é isósceles sem dizer porquê. A justificação é a etapa: [CA] e [CB] são raios da mesma circunferência, logo medem ambos 2 . Uma etapa que exige justificação e não a traz é pontuada com zero, mesmo estando a conclusão certa.
Ficar com cosα=±23 . A equação cos2α=43 dá sempre dois sinais; é o α∈]0,2π[ do enunciado que manda rejeitar o negativo. Sem essa rejeição escrita ficas com duas respostas — e duas respostas ao mesmo item classificam-se pela primeira que aparecer.
Trocar de processo a meio. Os critérios têm duas grelhas: uma que passa pelo ponto médio M e pelo ângulo α , outra que parte AB=AC+CB e vai direita ao ângulo ao centro. As etapas de uma não somam com as da outra. Se decidires pelo segundo caminho, o sinal é tudo: CB⋅AC=−CB⋅CA , e esquecê-lo dá cos(AC^B)=21 e um arco de 32π — metade do correcto.
Aplicar ℓ=rθ com o ângulo errado, ou em graus. O arco mede-se pelo ângulo com vértice no centro, AC^B=32π , e não pelo ângulo em A — com α=6π sai 3π , a resposta errada mais frequente do item. E a fórmula só vale em radianos: com 120∘ obténs 240 , que não é comprimento de coisa nenhuma.
Entregar 4,19 . É pedido o valor exato, 34π , e o item é sem recorrer à calculadora: dar a aproximação desconta na etapa final, e usar a máquina onde ela está proibida põe a zero a etapa em causa e todas as que dependam dela.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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