O ponto de partida. Quando um enunciado diz que algo é atribuído ao acaso, está a garantir-te que todos os casos são igualmente prováveis — e isso autoriza a Regra de Laplace:
P=nuˊmero de casos possıˊveisnuˊmero de casos favoraˊveisO item todo se resume a contar duas coisas. E a ordem de ataque é sempre a mesma: primeiro o denominador, que costuma ser o mais simples; só depois o numerador.
1.º — os casos possíveis
Um código é uma sequência de quatro algarismos, retirados dos dez algarismos 0,1,…,9. A ordem conta (1526 é diferente de 5126) e pode haver repetição — o próprio enunciado te dá o exemplo 0232, com o 2 repetido.
Contagem com ordem e com repetição chama-se arranjos com repetição:
10A4′=104=10000Existem 10000 códigos possíveis. Esta etapa vale 4 dos 14 pontos — quase um terço da cotação, na parte mais fácil do item. Nunca a deixes por escrever.
2.º — traduzir as três condições
Os casos favoráveis têm de cumprir, ao mesmo tempo:
- os quatro algarismos são todos diferentes;
- um deles é o zero;
- a soma dos quatro é ímpar.
As duas primeiras usam-se directamente. A terceira é a que decide o exercício, e tem de ser traduzida em algo que se consiga contar.
3.º — a chave: quando é que uma soma é ímpar?
A paridade de uma soma não é caprichosa: par + par = par, ímpar + ímpar = par, par + ímpar = ímpar. Daqui sai a regra de que precisas:
A soma de várias parcelas é ímpar se, e só se, o número de parcelas ímpares for ímpar.
São quatro parcelas, logo o número de algarismos ímpares no código tem de ser 1 ou 3 — não pode ser 0, 2 nem 4, que são pares.
Mas há mais informação a usar: um dos quatro algarismos é o zero, e o zero é par. Sobram três algarismos, escolhidos de 1 a 9, todos diferentes entre si e do zero. É nesses três que está toda a paridade do código. Só há, portanto, dois arranjos possíveis:
- Caso A — além do zero, 1 algarismo ímpar e 2 algarismos pares;
- Caso B — além do zero, 3 algarismos ímpares e nenhum par.
Escrever estes dois casos em voz alta vale 2 pontos por si. É a etapa que os alunos fazem de cabeça e não põem no papel — e o que não está no papel não se corrige.
Conta o material disponível: os ímpares são {1,3,5,7,9}, cinco; os pares diferentes de zero são {2,4,6,8}, quatro.
4.º — contar os casos favoráveis
A maneira mais segura de contar é separar duas perguntas: que algarismos entram no código (sem ordem) e por que ordem aparecem. Como os quatro são todos diferentes, cada conjunto de quatro algarismos gera exactamente 4! códigos distintos.
Caso A — zero, 1 ímpar e 2 pares. Escolher o ímpar, de entre os cinco: 5 maneiras. Escolher os dois pares, de entre os quatro, sem interessar a ordem (o conjunto {2,4} é o mesmo que {4,2}): 4C2=6 maneiras.
5×4C2=5×6=30 conjuntosCaso B — zero e 3 ímpares. Escolher os três ímpares de entre os cinco, sem ordem:
5C3=10 conjuntosOs dois casos são incompatíveis (um código não pode ter simultaneamente um e três algarismos ímpares), por isso os números somam-se. Só no fim se multiplica pelas ordenações, porque o 4! se aplica a qualquer dos conjuntos:
(5C3+4C2×5)×4!=(10+30)×24=960Há 960 códigos favoráveis. Esta é a etapa de 6 pontos, a mais cara do item.
5.º — a probabilidade, na forma pedida
P=10000960O enunciado exige fração irredutível, portanto o trabalho ainda não acabou. Simplifica por etapas:
10000960=100096=12512Está irredutível: 12=22×3 e 125=53 não têm nenhum divisor primo em comum.
Resposta: P=12512.
Um segundo modo de contar (a mesma resposta, outra arrumação)
Em vez de escolher o conjunto e ordenar no fim, podes colocar o zero primeiro e ir ordenando à medida. O zero tem 4 posições possíveis no código; sobram 3 posições para os outros:
4×(4C2×3A2×5+5A3)=4×(6×6×5+60)=4×240=960Dentro do parêntesis, a primeira parcela é o Caso A (escolher os dois pares, colocá-los em duas das três posições — 3A2 —, e o ímpar na posição que sobra) e a segunda é o Caso B (três ímpares ordenados em três posições, 5A3).
Dá 960, como tinha de dar. Vale a pena conheceres os dois: o primeiro modo é mais seguro, porque separa \"quem entra\" de \"por que ordem\"; o segundo é mais rápido quando um dos elementos é especial, como aqui o zero.
Verificação de bom senso. 12512=0,096, isto é, cerca de 9,6%. É um valor pequeno, como seria de esperar quando se exigem três condições em simultâneo. Um resultado maior do que 1 ou negativo denunciaria erro de imediato — e os critérios dizem-no de forma explícita: um valor fora de [0,1] perde a etapa final.
onde se perdem pontos
- Contar os casos possíveis sem repetição. Escrever 10A4=5040 em vez de 104 custa a etapa mais bem paga e mais fácil do item: 4 dos 14 pontos. A condição «todos diferentes» é do numerador; o denominador conta todos os códigos, e o enunciado dá-te o exemplo 0232 precisamente para o dizer.
- Fazer a análise da paridade de cabeça. «Além do zero, um ímpar e dois pares, ou três ímpares» é uma etapa pontuada com 2 pontos por si só. Quem a pensa e não a escreve fica sem ela — e a regra geral só dá por percorrida uma etapa não explicitada se a resolução a tornar inequívoca.
- Entregar o número 960 sem a expressão que o produziu. A nota 1 dos critérios é taxativa: se a expressão apresentada não for equivalente a 4×(4C2×3A2×5+5A3) ou a (5C3+4C2×5)×4! , a etapa vale 0 pontos — e são 6 , a mais cara do item. Pior ainda: apresentar apenas o resultado final dá zero à resposta inteira.
- Multiplicar por 4! só num dos casos. O 4! está em evidência porque ordena qualquer dos conjuntos, venha ele do caso A ou do caso B. Metido dentro de uma das parcelas, perdes mais de metade dos códigos favoráveis e a etapa de 6 pontos deixa de ser equivalente às formas aceites.
- Trocar soma com produto. Dentro de um caso, escolhas sucessivas multiplicam-se; entre casos incompatíveis, somam-se. É o engano estrutural de toda a combinatória, e aqui aparece nas duas frentes ao mesmo tempo.
- Parar em 10000960 ou responder 0,096 . É pedida a fração irredutível, 12512 , e a forma do resultado é cotada na etapa final. A nota 2 fecha o resto da porta: se as duas contagens tiverem ficado a zero, ou se o valor obtido não estiver em [0, 1] , essa etapa vale 0 de qualquer maneira.