Este é um item de Bolzano-Cauchy (teorema dos valores intermédios), e esses itens têm sempre a mesma anatomia: traduzir o pedido numa equação, garantir a continuidade num intervalo FECHADO, calcular os valores nos extremos, mostrar que o valor procurado fica entre eles, e só então concluir. Os critérios pontuam cada uma dessas peças em separado — por isso nenhuma se salta, nem mesmo a que parece óbvia.
1.º — traduzir «o gráfico intersecta a reta y=2» numa equação
Um ponto do gráfico de g tem coordenadas (x,g(x)). Um ponto da reta y=2 tem ordenada 2. Os dois coincidem exactamente quando
g(x)=2Logo, o que tens de mostrar é que a equação g(x)=2 tem pelo menos uma solução em ]−1,1[.
Escreve esta frase na folha. Vale 2 pontos por si, e é a etapa que a maioria dos alunos dá por subentendida.
2.º — a continuidade — e o pormenor do intervalo FECHADO
A função f é contínua em R (é hipótese do enunciado) e a função x↦e2x é contínua em R, por ser composta de funções contínuas. A diferença de duas funções contínuas é contínua, logo g é contínua em R.
Em particular, g é contínua no intervalo [−1,1].
⚠️ Escreve o intervalo fechado. Os critérios são explícitos: quem escrever «g é contínua em ]−1,1[» leva 0 pontos nesta etapa — e, pela nota 3, leva também 0 pontos na conclusão. São 5 dos 14 pontos perdidos por um par de parênteses. O teorema exige continuidade no fechado precisamente porque usa os valores nos extremos.
(Se escreveres apenas «g é contínua», sem dizer onde, a etapa é considerada cumprida.)
3.º — calcular g(1)
g(1)=e2×1−f(1)=e2−(−2)=e2+2≈9,39Repara no duplo sinal: f(1)=−2, e subtrai-se f(1), portanto soma-se 2. É uma troca de sinal fácil de fazer à pressa.
4.º — usar a imparidade para chegar a f(−1)
Aqui está a ideia que o item guarda: não te é dado f(−1). É dado que f é ímpar, e uma função ímpar verifica, por definição,
f(−x)=−f(x)para todo o x∈RCom x=1:
f(−1)=−f(1)=−(−2)=2Esta etapa vale 2 pontos e tem de aparecer escrita: não chega usar o valor 2 sem dizer de onde veio.
5.º — calcular g(−1)
g(−1)=e2×(−1)−f(−1)=e−2−2≈0,135−2≈−1,866.º — enquadrar o 2 e invocar o teorema
Tens g(−1)≈−1,86 e g(1)≈9,39. Como −1,86<2<9,39:
g(−1)<2<g(1)Estão reunidas as duas condições do Teorema de Bolzano-Cauchy: g é contínua em [−1,1] e 2 é um valor estritamente compreendido entre g(−1) e g(1).
Conclui-se que existe pelo menos um c∈]−1,1[ tal que g(c)=2 — ou seja, o gráfico de g intersecta a reta y=2 num ponto de abcissa em ]−1,1[, como se pretendia mostrar.
pela função auxiliar h(x)=g(x)−2
Há quem prefira reduzir tudo a um zero. Define h(x)=g(x)−2=e2x−f(x)−2, contínua em [−1,1] pelas mesmas razões.
h(−1)=e−2−2−2=e−2−4≈−3,86<0h(1)=e2+2−2=e2≈7,39>0Como h(−1)×h(1)<0, o corolário de Bolzano garante um zero de h em ]−1,1[, e um zero de h é uma solução de g(x)=2. As duas redacções valem a mesma cotação — escolhe a que te sair mais natural, mas não misturas as duas.
a conclusão é razoável?
A função g passa de um valor negativo em x=−1 para quase 9,4 em x=1; num salto desses tem mesmo de passar por 2 algures. E repara que o teorema garante pelo menos um ponto, não exactamente um: sem saber mais nada sobre f, não podes afirmar que a solução é única (para isso precisarias, por exemplo, de monotonia de g).
onde é que se perdem pontos
- Escrever «g é contínua em ]−1,1[»: 0 pontos na etapa da continuidade e 0 pontos na conclusão (nota 3). É a perda mais cara do item.
- Não escrever a equação g(x)=2, saltando directamente para os cálculos: −2 pontos.
- Usar f(−1)=2 sem justificar pela imparidade: −2 pontos.
- Trocar o sinal em g(1)=e2−(−2) e escrever e2−2.
- Confundir função ímpar com função par e escrever f(−1)=f(1)=−2.
- Escrever a desigualdade ao contrário, g(1)<2<g(−1), por não comparar os valores.
- Concluir «existe c tal que g(c)=0» — o valor intermédio aqui é 2, não 0.
- Terminar nos cálculos sem a frase de conclusão: são 3 pontos.
para reconhecer o próximo exercício deste tipo
Sempre que leres «mostre, recorrendo ao teorema de Bolzano-Cauchy», escreve mentalmente a lista de verificação e cumpre-a por ordem: equação · contínua no FECHADO · valor num extremo · valor no outro extremo · o alvo fica entre os dois · conclusão com o intervalo aberto.
E fixa o sinal de alarme: quando o enunciado te dá uma paridade (f par ou ímpar) e o valor da função só num dos extremos, é porque a paridade é a ponte para o outro extremo. Essa ponte é sempre uma etapa pontuada.