Este item não te pede contas: pede duas justificações. Cada proposição cai por causa de uma das três condições do enunciado, e o teu trabalho é ligar a condição certa à proposição certa e dizê-lo com as palavras da Matemática. Repara que te dão três informações e que cada uma delas tem um papel:
- f′(x)<0 para qualquer x∈R — dá-te a monotonia;
- f(0)=2 — dá-te um valor de referência para comparar;
- f(1)×f(2)<0 — dá-te sinais contrários em 1 e em 2 , que é o gatilho do teorema de Bolzano-Cauchy.
1.º — justificar que a proposição I é falsa
A proposição I afirma que f(1)>2 . Para a negar não precisas de saber quanto vale f(1) ; chega saber de que lado de 2 ele está.
O sinal da derivada dá o sentido de variação da função. Como f′(x)<0 para qualquer x∈R , a função f é decrescente em R .
Numa função decrescente, a ordens maiores correspondem imagens menores. Como 0<1 , vem
f(1)<f(0)E como f(0)=2 , conclui-se que f(1)<2 . Portanto é falso que f(1)>2 : a proposição I é falsa.
O que tem de estar escrito, para a justificação contar como completa: (i) que f é decrescente em R porque f′(x)<0 em todo o domínio; (ii) a comparação f(1)<f(0) ; (iii) a substituição f(0)=2 e a conclusão. Saltar o passo (i) é o erro que baixa o nível.
2.º — justificar que a proposição II é falsa
A proposição II afirma que o domínio de f1 é R . O domínio de um quociente exclui os zeros do denominador:
Df1={x∈Df:f(x)=0}Ou seja: se f tiver pelo menos um zero, o domínio de f1 não pode ser R , porque esse zero fica de fora. Falta então garantir que f tem um zero — e é para isso que serve a terceira condição.
A função f é contínua em R , logo é contínua no intervalo [1,2] . E de f(1)×f(2)<0 conclui-se que f(1) e f(2) são não nulos e de sinais contrários. Estão reunidas as condições do corolário do teorema de Bolzano-Cauchy, que garante que
∃c∈]1,2[:f(c)=0Esse c não pertence a Df1 . Como c∈R , o domínio de f1 está estritamente contido em R e, portanto, não é R : a proposição II é falsa.
O que tem de estar escrito: (i) a continuidade de f em [1,2] ; (ii) os sinais contrários, lidos de f(1)×f(2)<0 ; (iii) a invocação do teorema de Bolzano-Cauchy (ou do seu corolário) com a conclusão f(c)=0 para algum c∈]1,2[ ; (iv) a definição do domínio de f1 e a conclusão.
um segundo argumento para a proposição II
Há um caminho que dispensa Bolzano e usa a monotonia que já provaste. Como f é decrescente e f(1)×f(2)<0 , tem de ser f(1)>0 e f(2)<0 (a hipótese contrária, f(1)<0 e f(2)>0 , daria f(1)<f(2) , o que contraria a função ser decrescente). Uma função contínua que passa de positiva a negativa anula-se algures — e voltas a precisar de Bolzano para o afirmar.
Por isso, na prática, o teorema de Bolzano-Cauchy é incontornável neste item. O que este raciocínio acrescenta é o sinal de cada imagem, que torna a resposta mais completa e mostra que percebeste a interação entre as três condições. Não substitui o teorema: complementa-o.
como é que este item é corrigido
O item é classificado por níveis de desempenho, em dois parâmetros:
- A — Conteúdos, até 12 pontos: 12 com as duas justificações completas; 9 com uma completa e a outra incompleta; 6 com apenas uma completa ou com as duas incompletas; 3 com apenas uma incompleta.
- B — Linguagem Científica, até 2 pontos: 2 se usares adequadamente o vocabulário específico da Matemática, 1 se o usares com uma ou mais falhas.
Duas consequências práticas. Primeira: nunca deixes uma das proposições sem resposta — mesmo uma justificação incompleta vale nível, e o salto de 6 para 9 pontos custa só escrever a segunda. Segunda: os 2 pontos do parâmetro B ganham-se com nomes corretos — «função decrescente», «teorema de Bolzano-Cauchy», «domínio», «contínua no intervalo [1,2]» . Escrever «a função vai para baixo» ou «o de baixo não pode ser zero» custa esses pontos.
onde é que isto se perde
- Responder só a uma das proposições. É o corte mais caro: de 12 para 6 pontos no parâmetro A.
- Afirmar que f é decrescente sem dizer porquê. A razão é f′(x)<0 para qualquer x∈R , e tem de estar escrita. Sem ela a justificação fica incompleta.
- Tentar calcular f(1) ou o zero de f . Não há função nenhuma dada; não há nada para calcular. Quem procura uma expressão de f perde o tempo todo do item.
- Usar Bolzano sem verificar as hipóteses. O teorema exige continuidade no intervalo fechado [1,2] e imagens de sinais contrários nos extremos. Invocar o teorema sem enunciar as duas condições é uma justificação incompleta.
- Concluir que a função tem exatamente um zero. O teorema garante pelo menos um. Neste caso a monotonia até garantiria a unicidade, mas isso não é preciso para negar a proposição — e afirmá-lo sem justificar é uma falha de linguagem científica.
- Confundir o domínio de f com o domínio de f1 . f tem domínio R ; f1 é R sem os zeros de f . É esta diferença que faz a proposição II ser falsa.