Exame de Física e Química A 2025 · Época especial — item 2.3, resolvido
Cotação 12 pontosResposta abertaVerificado
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 715 · 2025 · Época especial
Texto do item 2
2.
Na Berlenga Grande, uma ilha ao largo de Peniche, a ligação entre o cais e o farol faz-se por uma rampa. A Figura 1 representa uma pessoa que sobe um troço retilíneo dessa rampa, com 15∘ de inclinação, puxando uma caixa, na qual exerce uma força, F1, que faz um ângulo de 30∘ com o deslocamento.
Considere que a caixa pode ser representada pelo seu centro de massa (modelo da partícula material) e que a resultante das forças de atrito que atuam na caixa não é desprezável.
Figura 1
2.3.
Num dado momento da subida, a corda parte-se, e a caixa, de massa 50,0kg, inicia um movimento descendente. A caixa passa numa posição A com velocidade de módulo 1,00ms−1 e percorre 100m até uma posição B, onde passa com velocidade de módulo 4,00ms−1.
Considere que a inclinação da rampa e a força de atrito são constantes entre os pontos A e B da rampa.
Determine, a partir de considerações energéticas, a razão entre a intensidade da força de atrito e a intensidade do peso da caixa, PFa.
Apresente todos os cálculos efetuados.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Variação de energia cinética da caixa entre A e B:
Entre A e B, atuam na caixa o peso, a reação normal (que não realiza trabalho, por ser perpendicular ao deslocamento) e a força de atrito. Pelo Teorema da Energia Cinética:
Intensidade do peso da caixa: P=mg=50,0×9,80=490,0N
PFa=490,01,231×102=0,251
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
O ponto de partida. O enunciado pede «considerações energéticas»: não uses a Segunda Lei de Newton nem as equações do movimento; usa trabalho e energia. A força de atrito é uma força não conservativa, e o trabalho das forças não conservativas é o que faz variar a energia mecânica:
WF.n.c.=ΔEm
Se calculares quanto variou a energia mecânica entre A e B, sabes o trabalho do atrito; e, como o atrito é constante e paralelo ao deslocamento, WFa=−Fad dá-te a sua intensidade.
Antes de começar, faz o inventário das forças na caixa, que já não tem a corda: o peso (conservativa), a reação normal (perpendicular ao deslocamento, não realiza trabalho) e a força de atrito (não conservativa, paralela à rampa, para cima — a caixa desce). A única força não conservativa que realiza trabalho é o atrito.
A caixa ganha energia cinética: está a acelerar pela rampa abaixo. Esta é a primeira etapa dos critérios (vale 4 pontos), na primeira das duas formas que eles aceitam.
2.º — a variação de energia potencial gravítica
A caixa percorre 100mao longo da rampa; o que conta para a energia potencial gravítica é quanto desce na vertical. A rampa faz 15∘ com a horizontal, e o desnível é o cateto oposto a esse ângulo num triângulo cuja hipotenusa é o percurso:
Usa g=9,80ms−2, o valor da tabela de constantes da prova.
3.º — a variação de energia mecânica
ΔEm=ΔEc+ΔEpg=375,0−1,268×104=−1,231×104J
A energia mecânica diminui: a caixa ganha 375J de energia cinética, mas perde cerca de 12700J de energia potencial gravítica. Os mais de 12000J que faltam foram dissipados pelo atrito. Este valor é a outra forma de cumprir a primeira etapa.
4.º — a intensidade da força de atrito
O atrito é a única força não conservativa que realiza trabalho, e tem sentido oposto ao deslocamento (α=180∘, cosα=−1):
WFa=ΔEm⟹−Fa×100=−1,231×104⟹Fa=1,231×102N
Esta é a etapa que vale mais (5 pontos). Escreve a relação WFa=ΔEm antes de pôr números: é ela que mostra a «consideração energética».
5.º — a razão pedida
A intensidade do peso é P=mg=50,0×9,80=490,0N. Então
PFa=490,01,231×102=0,251
É uma razão entre duas forças: não tem unidades.
A razão entre a intensidade da força de atrito e a intensidade do peso da caixa é 0,251.
pelo Teorema da Energia Cinética
Em vez da energia mecânica, podes usar a soma dos trabalhos de todas as forças, que é igual à variação de energia cinética:
WP+WN+WFa=ΔEc
WN=0 (a normal é perpendicular ao deslocamento) e WP=mgh=1,268×104J (positivo: o peso aponta para baixo e a caixa desce). Então
1,268×104−Fa×100=375,0⟹Fa=1,231×102N
É a mesma conta arrumada de outra maneira — o trabalho do peso é o simétrico da variação de energia potencial gravítica. Neste caminho, a primeira etapa é o ΔEc=375,0J.
qual dos dois caminhos usar
São equivalentes, e os critérios aceitam os dois. O Teorema da Energia Cinética é mais direto quando já tens as velocidades e o desnível; a variação da energia mecânica é mais natural quando o item fala em energia dissipada. Escolhe aquele em que te enganas menos nos sinais: no primeiro, o trabalho do peso é positivo; no segundo, a variação de energia potencial é negativa.
o resultado faz sentido
Se a caixa descesse com velocidade constante, o atrito equilibraria a componente do peso ao longo da rampa e seria Fa=Psin15∘=0,259P. Como a caixa acelera (passa de 1,00 para 4,00ms−1), o atrito tem de ser um pouco menor do que isso. E 0,251<0,259. Bate certo.
como escrever o resultado
A última etapa pede a razão: escreve PFa=0,251, sem unidades. Mantém nos cálculos intermédios mais algarismos do que no fim (25,88m, 1,268×104J), para não acumular erros de arredondamento.
onde se perdem pontos
O item é obrigatório e classificado por etapas: 4+5+3 pontos. Aos pontos das etapas feitas descontam-se os erros: 1 ponto se só houver erros de tipo 1 (de cálculo numérico, por exemplo); 2 pontos por um erro de tipo 2; 4 pontos por mais do que um.
Usar os 100m como altura. A caixa percorre 100m ao longo da rampa e desce 25,88m. Com h=100m, o atrito daria quase 486N — praticamente igual ao peso, o que devia fazer soar o alarme.
Usar cos15∘ em vez de sin15∘. O desnível é o cateto oposto ao ângulo da rampa. Com o cosseno obténs 96,6m de desnível e uma razão de 0,958.
Esquecer a variação de energia cinética. Quem admite que toda a energia potencial perdida foi dissipada obtém Fa=126,8N e uma razão de 0,259 — a razão de quem descesse com velocidade constante. A caixa acelera; parte da energia potencial passou a cinética.
Trocar o sinal do trabalho do atrito. O atrito opõe-se ao movimento: o seu trabalho é negativo. Com o sinal trocado, a intensidade da força sai negativa, e uma intensidade nunca é negativa.
Usar g=10ms−2. A prova dá g=9,80ms−2. Com 10, a força de atrito sai 125,7N — fora do valor dos critérios. (Curiosamente, a razão final quase não muda, porque g aparece também no peso; mas a etapa da força de atrito fica com o valor errado.)
Resolver pela dinâmica. Calcular a aceleração com as equações do movimento e aplicar a Segunda Lei de Newton chega ao mesmo número, mas o enunciado pede «considerações energéticas». Respeita o método pedido.
Apresentar só o resultado. «0,251» sem cálculos vale zero: o enunciado pede todos os cálculos efetuados.
para reconhecer o próximo item deste tipo
Sempre que um item te der duas velocidades, uma distância percorrida e te pedir uma força de atrito «a partir de considerações energéticas», o caminho é: ΔEc pelas velocidades; ΔEpg pelo desnível vertical (h=dsinθ num plano inclinado); ΔEm pela soma; e WFa=−Fad=ΔEm. E confirma o resultado com o caso limite da velocidade constante.
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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