Item de demonstração: não há número para descobrir, há uma existência para garantir. E quando o que se pede é «prove que existe pelo menos um», em Matemática A do 12.º ano o instrumento é quase sempre o mesmo — o teorema de Bolzano-Cauchy.
traduzir a frase geométrica para uma equação
A bissetriz do primeiro quadrante é a reta de equação y=x. Um ponto do gráfico de h tem coordenadas (x,h(x)). Esse ponto está na bissetriz quando a ordenada é igual à abcissa:
h(x)=xProvar o enunciado é, portanto, provar que esta equação tem, pelo menos, uma solução em [0,a]. Esta tradução é uma etapa de 2 pontos e é onde o item se ganha ou se perde: sem ela não há por onde começar.
1.º — construir a função auxiliar
Bolzano-Cauchy fala de uma função tomar um valor intermédio; na forma que usas para existência de zeros, fala de a função ter um zero. Como a tua equação é h(x)=x e não algo=0, passas tudo para o mesmo lado e dás nome ao que fica:
f(x)=h(x)−x,x∈[0,a]Assim, h(x)=x⟺f(x)=0: a solução que procuras é um zero de f. Mais 2 pontos.
2.º — f é contínua em [0,a]
É a hipótese que o teorema exige, e sem ela nada feito.
h é contínua em [0,a] (dado do enunciado) e a função x↦x é contínua em R por ser polinomial. A diferença de duas funções contínuas é contínua, logo f é contínua em [0,a].
2 pontos. O critério é generoso aqui: se apenas referires que f é contínua, a etapa conta como cumprida — mas escrever o porquê não custa uma linha.
3.º — o sinal nos extremos, e é aqui que entra o contradomínio
Repara no dado que ainda não usaste: o contradomínio de h é [0,a]. Isso significa que, para qualquer x do domínio,
0≤h(x)≤aÉ esta desigualdade que faz o item funcionar. Aplica-a nos dois extremos.
Em x=0: f(0)=h(0)−0=h(0). Como h(0)≥0, vem
f(0)≥0Em x=a: f(a)=h(a)−a. Como h(a)≤a, vem h(a)−a≤0, ou seja,
f(a)≤0São 2 pontos cada, e note-se que as desigualdades não são estritas — h(0) pode ser exactamente 0, e h(a) pode ser exactamente a.
4.º — separar os casos, porque as desigualdades são largas
Bolzano-Cauchy na sua forma corrente exige sinais estritamente contrários: f(0)×f(a)<0. Como aqui só tens ≥ e ≤, tens de tratar à parte os casos em que algum deles é zero. Esta separação é uma etapa pontuada por si (2 pontos) e é a que quase toda a gente esquece.
Caso 1 — f(0)=0. Então h(0)=0 e o ponto (0,0) pertence ao gráfico de h e à bissetriz. Está provado.
Caso 2 — f(a)=0. Então h(a)=a e o ponto (a,a) pertence ao gráfico de h e à bissetriz. Está provado.
Caso 3 — f(0)>0 e f(a)<0. É o único que sobra, e é aqui que o teorema faz o trabalho.
5.º — aplicar Bolzano-Cauchy no caso que sobra
No caso 3 tens as três hipóteses todas: f contínua no intervalo fechado [0,a], e f(a)<0<f(0). O teorema de Bolzano-Cauchy garante então que f toma, em ]0,a[, todos os valores entre f(a) e f(0) — em particular o valor 0.
∃c∈ ]0,a[ : f(c)=0E f(c)=0⟺h(c)−c=0⟺h(c)=c. Logo o ponto (c,h(c))=(c,c) pertence ao gráfico de h e à bissetriz do primeiro quadrante.
Como os três casos esgotam todas as possibilidades, em qualquer deles existe pelo menos um ponto nas condições pedidas. Fica provado. Últimos 2 pontos.
o desenho que torna isto óbvio
Pensa na caixa quadrada [0,a]×[0,a]. O gráfico de h está todo dentro dela (é o que o contradomínio diz), começa algures no lado esquerdo e acaba algures no lado direito. A bissetriz atravessa a caixa de canto a canto. Uma curva contínua que vai de um lado ao outro não consegue passar por cima dessa diagonal sem lhe tocar — é exactamente isso que a demonstração escreve em linguagem de teorema.
onde é que se perdem pontos
- Aplicar o teorema a h em vez de f. h não tem de ter zeros nem de mudar de sinal — é até não-negativa. A função auxiliar não é um truque de estilo: é o que torna o teorema aplicável.
- Não usar o contradomínio. É o único sítio de onde saem h(0)≥0 e h(a)≤a. Quem só usa o domínio fica sem argumento.
- Saltar os casos f(0)=0 e f(a)=0 e aplicar Bolzano com desigualdades largas. São 2 pontos perdidos, e é uma falha lógica real: nesses casos o teorema, na forma com sinais estritos, não se aplica.
- Não referir a continuidade de f. É hipótese do teorema; sem a enunciar, a conclusão não está justificada.
- Concluir «existe c tal que f(c)=0» e parar. Falta a última tradução: voltar a h(c)=c e dizer que o ponto (c,c) está na bissetriz. O item pergunta por um ponto do gráfico, não por um zero de uma função auxiliar.
- Escrever intervalo aberto na continuidade. O teorema pede f contínua em [0,a] fechado; é nos extremos que avalias os sinais.
para reconhecer o próximo exercício deste tipo
«Prove que existe pelo menos um...» ⇒ Bolzano-Cauchy, e o guião é sempre este: traduzir para uma equação → passar tudo para um lado e criar f → afirmar a continuidade → avaliar os sinais nos extremos → concluir. E guarda esta em particular: a equação h(x)=x (um ponto fixo) resolve-se sempre com f(x)=h(x)−x.