Exame de Matemática A 2025 · Época especial — item 13, resolvido
Enunciado
Instituto de Avaliação Educativa · prova 635 · 2025 · Época especial
Seja f uma função, de domínio R , positiva e duas vezes diferenciável, cujo gráfico tem concavidade voltada para cima e cuja primeira derivada não se anula.
Seja g a função, de domínio R , definida por g(x)=[f(x)]2 .
Estude a função g quanto ao sentido das concavidades do seu gráfico.
Resposta de exame
O que se escreve na prova para ter a cotação toda.
Como g(x)=[f(x)]2 , tem-se, pela regra de derivação da potência, g′(x)=2f(x)×f′(x) .
Derivando de novo, pela regra de derivação do produto, g′′(x)=2[f′(x)×f′(x)+f(x)×f′′(x)]=2[f′(x)]2+2f′′(x)×f(x) , para qualquer número real x . As derivadas existem em R porque f é duas vezes diferenciável.
Para qualquer número real x tem-se f(x)>0 , porque a função f é positiva, e f′′(x)≥0 , porque o gráfico de f tem a concavidade voltada para cima. Logo f′′(x)×f(x)≥0 .
Além disso, f′(x)=0 para qualquer número real x , porque a primeira derivada de f não se anula, e f′(x) é um número real, pelo que [f′(x)]2>0 .
Assim, g′′(x)=2[f′(x)]2+2f′′(x)×f(x) é a soma de um número positivo com um número não negativo, pelo que g′′(x)>0 para qualquer número real x .
Conclui-se que o gráfico da função g tem a concavidade voltada para cima em todo o seu domínio, R , não tendo pontos de inflexão.
Tenta primeiro no papel.
Quem lê a resolução antes de tentar acha que percebeu — e volta a errar no exame.
Mostra só o que se escreve na prova. A resolução explicada fica fechada — abres depois, se quiseres.
Resolução explicada
Passo a passo, com o porquê de cada passo.
Este item não tem uma única expressão concreta: f é uma função qualquer com quatro propriedades dadas. Isso assusta, mas é bom sinal — quer dizer que a resposta sai só da manipulação simbólica e do sinal de cada parcela, e não há contas para errar.
O que governa o item é a definição: o sentido da concavidade do gráfico de g lê-se no sinal de g′′ . Concavidade voltada para cima onde g′′>0 , voltada para baixo onde g′′<0 . Portanto o plano é um só: calcular g′′ e estudar-lhe o sinal.
arrumar as quatro hipóteses, porque vais usá-las todas
O enunciado dá quatro coisas sobre f , e nenhuma está lá a mais. Traduz cada uma para uma desigualdade antes de começar:
| o que o enunciado diz | o que isso é, em símbolos |
|---|---|
| f é positiva | f(x)>0 , ∀x∈R |
| o gráfico de f tem concavidade voltada para cima | f′′(x)≥0 , ∀x∈R |
| a primeira derivada não se anula | f′(x)=0 , ∀x∈R |
| f é duas vezes diferenciável | f′ e f′′ existem em todo o R |
A quarta é a que te autoriza a escrever g′′ sem restrições de domínio; as outras três vão ser exactamente os três sinais de que precisas no fim.
1.º — a primeira derivada de g
g é o quadrado de f . Pela regra de derivação da potência, (un)′=nun−1u′ , que está no formulário da prova, com u=f e n=2 :
g′(x)=[(f(x))2]′=2f(x)×f′(x)Vale 2 pontos. Não esqueças o factor f′(x) : é a derivada da função de dentro, e omiti-la é derivar como se f(x) fosse a variável.
2.º — a segunda derivada de g
Agora derivas um produto, 2f(x)×f′(x) , pela regra (uv)′=u′v+uv′ , com u=f e v=f′ (nota que v′=f′′):
g′′(x)=2[f′(x)×f′(x)+f(x)×f′′(x)]=2[f′(x)]2+2f′′(x)×f(x)Vale mais 2 pontos. Fica com esta expressão à vista, porque é dela que sai tudo o resto: uma soma de duas parcelas, cada uma com o seu sinal.
3.º — o sinal de cada parcela, uma de cada vez
É aqui que estão 8 dos 14 pontos do item, e o critério reparte-os por cinco justificações. Fá-las separadamente e por escrito, cada uma com a hipótese de onde vem.
Primeira parcela, 2[f′(x)]2 . Um quadrado de um número real é sempre maior ou igual a zero — e só é zero quando o número é zero. Como o enunciado garante que f′ não se anula, f′(x)=0 para todo o x , logo
[f′(x)]2>0,∀x∈REsta desigualdade é estrita, e é a única do item que o é. Guarda isso: é ela que vai levantar a soma acima de zero.
Segunda parcela, 2f′′(x)×f(x) . São dois factores:
- f(x)>0 , porque a função f é positiva (hipótese do enunciado);
- f′′(x)≥0 , porque o gráfico de f tem a concavidade voltada para cima — e concavidade voltada para cima é, por definição, segunda derivada não negativa.
Produto de um número positivo por um número não negativo é não negativo:
f′′(x)×f(x)≥0,∀x∈RAqui a desigualdade não é estrita, e não podes fingir que é: nada no enunciado impede f′′ de se anular nalgum ponto. Escrever f′′(x)>0 é afirmar mais do que te foi dado.
4.º — somar os dois sinais
Somar um número positivo com um número não negativo dá um número positivo — a parcela que pode ser nula no máximo não ajuda, mas também nunca estraga:
g′′(x)=>02[f′(x)]2+≥02f′′(x)×f(x)>0,∀x∈RRepara na elegância da construção do enunciado: a hipótese «a primeira derivada não se anula» parece deslocada num item sobre concavidades, mas é ela — e só ela — que garante a desigualdade estrita. Sem ela, só poderias concluir g′′(x)≥0 , e a resposta ficaria incompleta.
a conclusão tem de ser dita, e nos termos do enunciado
Os últimos 2 pontos pagam a frase final. O item pergunta pelo sentido das concavidades do gráfico de g , portanto a resposta é sobre o gráfico, não sobre a derivada:
O gráfico da função g tem a concavidade voltada para cima em todo o seu domínio, R , e não tem pontos de inflexão.
A nota sobre os pontos de inflexão não é obrigatória, mas fecha a pergunta: como g′′ nunca muda de sinal, não há onde a concavidade se inverta.
onde é que este item come pontos
- Esquecer a regra da função composta na primeira derivada. Escrever g′(x)=2f(x) em vez de 2f(x)×f′(x) deita todo o item a perder, porque a segunda derivada sai errada atrás.
- Derivar mal o produto. [2f(x)f′(x)]′ tem duas parcelas; ficar só com 2f(x)f′′(x) elimina precisamente aquela que garante a desigualdade estrita.
- Escrever f′′(x)>0 . Concavidade voltada para cima dá f′′(x)≥0 . A justificação desta desigualdade vale 3 pontos sozinha, e afirmar mais do que se sabe é erro, não é rigor a mais.
- Não usar a hipótese de f′ não se anular. É a hipótese que quase todos ignoram. Sem ela só chegas a g′′(x)≥0 , e a conclusão sobre o sentido da concavidade fica por justificar.
- Esquecer que f é positiva. Sem f(x)>0 , o produto f′′(x)×f(x) podia ser negativo e a soma deixava de ter sinal garantido. Vale 1 ponto dizê-lo explicitamente.
- Juntar tudo numa frase só. O critério paga cinco justificações separadas dentro dos 8 pontos. Escreve-as em cinco linhas, uma por sinal, cada uma com a hipótese que a sustenta.
- Concluir sobre g′′ e parar. «g′′(x)>0» não é resposta à pergunta feita; falta traduzir para o sentido da concavidade do gráfico de g .
- Tentar arranjar um exemplo concreto de f . É tentador escolher f(x)=ex para ver o que acontece, e até serve para ganhares confiança — mas um exemplo não demonstra o caso geral, e a resposta tem de ser feita com as hipóteses, em abstracto.
um caso concreto, só para veres que faz sentido
Fora da folha, testa com f(x)=ex : é positiva, tem concavidade voltada para cima (f′′=ex>0) e f′=ex nunca se anula — cumpre as quatro hipóteses. Então g(x)=e2x e g′′(x)=4e2x>0 . Bate.
Testa também com f(x)=x2+1 : é positiva e tem concavidade voltada para cima, mas f′(x)=2x anula-se em x=0 — não cumpre a terceira hipótese. E de facto g(x)=(x2+1)2 tem g′′(0)=4>0 , continua a dar certo, mas já não é a hipótese que o garante. Este segundo teste mostra-te para que serve cada condição, e é assim que se aprende a não ignorar nenhuma.
para reconhecer o próximo exercício deste tipo
Sempre que um item define g à custa de uma f abstracta e pede concavidades, monotonia ou extremos, o caminho é invariável: derivar simbolicamente até à ordem de que precisas, e depois atribuir um sinal a cada parcela usando as hipóteses do enunciado, uma a uma. Nunca há contas numéricas; há um inventário de sinais.
E trata as hipóteses como uma lista de verificação: se acabaste a resposta e sobrou alguma por usar, é quase sempre porque te escapou um passo. Neste item, a hipótese esquecida — «a primeira derivada não se anula» — era exactamente a que distinguia g′′>0 de g′′≥0 .
Primeiro, a resposta de exame.
A resolução explicada abre-se depois, à parte, se quiseres perceber o porquê.
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